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A Reforma protestante

Durante a Idade Média, a Igreja Católica foi objeto de diversos movimentos que se propunham a reformar suas estruturas, corrigindo abusos do clero e recuperando a pureza original do Cristianismo. Entretanto, todos os autores dessas reformas – papas, bispos, fundadores de ordens religiosas – sempre foram pessoas pertencentes aos quadros da Igreja e incapazes de desligar-se dessa instituição, por mais que dela discordassem. Enfim, queriam arrumar a casa e não construir outra.
No final da Idade Média, entretanto, as insatisfações religiosas contra a Igreja acumulam-se de tal maneira que desembocaram num movimento de ruptura: a Reforma do século XVI. As graves críticas apresentadas contra a Igreja já não permitiam apenas arrumar internamente a casa. Os reformistas romperam definitivamente com a Igreja Católica, provocando a quebra efetiva da unidade do pensamento ocidental cristão.
A reforma representou um dos movimentos históricos fundamentais que marcaram o início dos tempos modernos, sendo motivada por um complexo conjunto de causas que ultrapassaram os limites da mera contestação religiosa à Igreja Católica. Isso porque o homem do século XVI refletia, no plano da religião, toda uma série de descontentamentos que se referiam às suas condições de vida material, tanto no plano político como no social ou no econômico.
AS PRINCIPAIS CAUSAS DA REFORMA
Existe todo um conjunto de causas religiosas, sócio-econômicas e políticas que ajudam a entender a Reforma.
CAUSAS RELIGIOSAS
Um clima de reflexão crítica e de inquietação espiritual espalhou-se entre diversos cristãos europeus. Com a utilização da imprensa, aumentou o número de exemplares da Bíblia disponíveis aos estudiosos. A divulgação da Bíblia e de outras obras religiosas contribuiu para a formação de uma vontade mais pessoal de entender as verdades divinas, sem a intermediação dos padres. Desse novo espírito de interiorização e individualização da religião, que levou ao livre exame das Escrituras, surgiram diferentes interpretações da doutrina cristã. Nesse sentido, podemos citar, por exemplo, uma corrente religiosa que, buscando apoio na obra de Santo Agostinho, afirmava que a salvação do homem somente era alcançada pela fé. Essas idéias opunham-se à posição oficial da Igreja, baseada em Santo Tomás de Aquino, pela qual a salvação do homem era alcançada pela fé e pelas boas obras.
Analisando o comportamento do clero, esses cristãos passaram a condenar energicamente uma série de abusos e de corrupções que estavam sendo praticados. O alto clero de Roma estimulava inúmeros negócios envolvendo a religião, como, por exemplo, o comércio de relíquias sagradas espinhos que coroaram a fronte de Cristo, panos que embeberam o sangue de seu rosto, objetos pessoais dos Santos etc.). Além do comércio de relíquias sagradas, a Igreja passou a vender indulgências, isto é, o perdão dos pecados. Assim, mediante certo pagamento destinado a financiar obras da Igreja, os fiéis poderiam comprar a sua salvação.
No plano moral, a situação de inúmeros membros da Igreja também era lastimável, sendo o objeto de várias críticas. Multiplicavam-se os casos de padres envolvidos em escândalos amorosos, de monges que viviam bêbados como vagabundos e de bispos que somente acumulavam riquezas pessoais, vendiam os sacramentos e pouco se importavam com a religião.
CAUSAS SÓCIO-ECONÔMICAS
A concepção teológica da igreja, desenvolvida durante o Período Medieval, estava adaptada ao sistema feudal, que se baseava na economia fechada e na auto-suficiência dos feudos, onde o comércio subsistia apenas como atividade marginal. Por isso, a teologia tradicional católica condenava a obtenção do lucro excessivo, da usura, nas operações de comércio, defendendo a prática do preço justo.
Com o início dos tempos modernos, desenvolveu-se a expansão marítima e comercial, e dentro desse novo contexto a moral econômica da Igreja começou a entrar em choque com a atividade da grande burguesia. Essa classe, empenhada em desenvolver ao máximo as atividades comerciais, sentia-se incomodada com as concepções tradicionais da Igreja, que taxava de pecado a busca impetuosa do lucro. Assim, essa burguesia começou a sentir necessidade de uma nova ética religiosa, mais adequada ao espírito do capitalismo comercial. Essa necessidade ideológica da burguesia foi satisfeita, em grande parte, com a ética protestante, que surgiria com a Reforma. Convém frisar, entretanto, que nem todos os líderes reformistas estavam dispostos a incentivar as práticas do capitalismo. É o caso, por exemplo, de Lutero, que condenava severamente o luxo e a usura, propondo para os cristãos um ideal de vida modesto, em que não existiria a ansiedade pelo lucro e a vaidade pelas riquezas materiais.
CAUSAS POLÍTICAS
O século XVI foi um período de fortalecimento das monarquias nacionais. A Igreja Católica, com sede em Roma e falando latim, apresentava-se como instituição de caráter universal, sendo um fator de unidade do mundo cristão. Essas noções, entretanto, perdiam força, na medida em que os sentimentos nacionais desenvolviam-se com grande vigor. Cada Estado, com sua monarquia, sua língua, seu povo e suas tradições, estava mais interessado em autoafirmar-se enquanto nação do que em fazer parte de uma cristandade obediente à Igreja. Opondo-se ao papado e ao comando centralizador da Igreja Católica, a Reforma religiosa atendia aos anseios nacionalistas, permitindo a autonomia de Igrejas nacionais.
A REFORMA DE MARTINHO LUTERO
Martinho Lutero (1483-1546) nasceu em Eisleben, na Saxônia, sendo filho de um empreiteiro de minas que atingiu certa prosperidade econômica. Influenciado pelo pai, ingressou em 1501 na Universidade de Erfurt, para estudar direito, mas seu temperamento inclinava-o à vida religiosa, Em 1505, após quase ter morrido em uma violenta tempestade, ingressou na Ordem dos Monges Agostinianos, cumprindo promessa feita a Santa Ana.
Estudioso sério, metódico e aplicado, Lutero conquistou prestígio intelectual, tornando-se, em 1508, professor da Universidade de Wittenberg. Em 1510, viajou a Roma, de onde regressou decepcionado com o clima de corrupção que percebera no alto clero, Nos anos de 1511 a 1513, aprofundou-se nos estudos teológicos, ate que começaram a amadurecer em seu espirito as idéias para a criação de uma nova doutrina religiosa. Nas epístolas de São Paulo, encontrou uma frase que lhe paraceu fundamental: “o justo se salvará pela fé”. Concluiu Lutero que o homem, corrompido em razão do pecado original, só poderia salvar-se pela fé incondicional em Deus. Somente a fé, e não as obras praticadas, seria o único instrumento capaz de justificar os pecados e de conduzir à salvação, graças à misericórdia divina. Em 1517, eclodiu o incidente que provocaria o rompimento entre Lutero e a Igreja Católica, girando em torno do episódio conhecido como venda de indulgências. Tendo como o objetivo arrecadar fundos para financiar a reconstrução da Basílica de São Pedro, o Papa Leão X permitiu que se concedem indulgências (perdão dos pecados) a todos os fieis que contribuíssem financeiramente com a Igreja. Escandalizado com essa salvação comprada a dinheiro, Lutero afixou na porta da Igreja de Wittenberg um manifesto público ( as 95 teses), em que protestava contra a atitude do Papa e expunha os elementos de sua doutrina. Iniciava-se, então, uma longa discussão entre Lutero e as autoridades eclesiáticas, culminando com sua excomunhão pelo Papa, em 1520. Demonstrando descaso e revolta diante da Igreja, Lutero queimou em praça pública a bula Papal Exsurge dimine, que o condenava.
A DOUTRINA LUTERANA
Vejamos, rapidamente, uma síntese dos principais pontos da doutrina luterana:
.Igreja: proclamava a criação de Igrejas nacionais autônomas. O trabalho religioso poderia ser feito por pessoas não obrigadas ao celibato sacerdotal (obrigação de casar). Lutero aceitava a dependência da Igreja ao Estado. O idioma das cerimônias religiosas deveria ser aquele de cada nação e não o latim, que era o idioma oficial das cerimônias católicas.
.Rito Religioso: a cerimônia religiosa deveria obedecer a ritos mais simples, reduzindo a pompa existente nos cultos católicos. Santos e imagens foram abolidos.
.Livro Sagrado: A Bíblia era o livro sagrado do Luteranismo, representando a única fonte da fé. Sua leitura e interpretação deveriam se feitas por todos os cristãos. Lutero, em 1534, traduziu para o alemão um original grego da Bíblia.
.Salvação Humana: O homem salva-se pela fé em Deu e não pelas obras que pratica.
.Sacramentos: preservaram-se como sacramento básicos o batismo e a eucaristia.
A EXPANSÃO DO LUTERANISMO
Paralelamente aos problemas meramente religiosos, houve uma série de fatores sociais e econômicos que favoreceram a difusão das idéias de Lutero na Alemanha. Destacam-se, entre eles, o fato de grande parte das terras alemãs pertencerem à Igreja Católica, havendo grande interesse da nobreza em apossar-se dessas terras.
Nessa época, o que chamamos de Alemanha nada mais era do que um conjunto de principados e de cidades autônomas, não havendo, portanto, um país unificado, com autêntica unidade política. A região fazia parte dos domínios do Sacro Império Romano Germânico, controlado pela Dinastia dos Habsburgs, cujo imperador ficava na Espanha. O imperador era aliado do Papa e procurava, com isso, preservar certa unidade e poder sobre os príncipes alemães.
Com sede de poder e de riqueza, as classes elevadas (nobreza e burguesia) mostravam-se descontentes em relação à Igreja e ao comando do imperador. Por outro lado, as classes sociais menos favorecidas (camponeses e artesãos urbanos) também responsabilizavam a Igreja pela situação de miséria e de exploração de que eram vítimas. Havia, portanto, um certo consenso entre as diversas classes sociais contra a Igreja.
Liderados por Thomas Münzer, os camponeses, a partir de 1524, organizaram uma série de revoltas contra sacerdotes ricos e nobres, donos de grandes propriedades de terra. De forma violenta, os camponeses lutavam pela posse de terra e pelo fim de exploração. As classes dominantes, então, uniram-se para dominar a revolta camponesa, contando com o apoio de Lutero, que publicou um manifesto cujo título trazia as seguintes palavras “Contra os bandos camponeses assassinos e ladrões…”. Confrontos com os poderosos, os camponeses foram esmagados: morreram mais de cem mil e o líder Thomas Munzer foi decapitado.
Em troca de seu apoio às classes dominantes, Lutero conseguiu poderosos aliados entre a nobreza e a alta burguesia, que o auxiliaram a difundir sua doutrina religiosa pelo norte da Alemanha, pela Suécia, pela Dinamarca e pela Noruega. Foram esses aliados que, em 1529, protestaram contra a preservação das medidas tomadas pelo imperador contra Lutero, que impediam cada Estado de adotar sua própria religião. A partir desse protesto é que se difundiu o nome protestante para designar os cristãos não católicos.
Não sendo ouvidos pelo imperador, o grupo dos príncipais protestantes formou, em 1531, um liga político-militar (Liga de Smalkalde) para lutar contra as forças católicas ligadas ao imperador Carlos V. Somente em 1555 o imperador aceitou a existência oficial das Igrejas Luteranas, assinando com os protestantes a Paz de Augsburg. Era o reconhecimento jurídico final da separação religiosa do mundo cristão.
A REFORMA DE CALVINO
João Calvino (1509 – 1564) nasceu em Noyon, na França, e desenvolveu nesse país seus estudos de Teologia e de Direito. Influenciado por Guillaume Farel, aderiu às idéias protestantes. Quando, em 1534, as autoridades católicas francesas começaram a perseguir os suspeitos de heresias, Calvino fugiu para a Suiça, onde o movimento reformista já tinha se iniciado, sob a liderança de Ulrich Zwingli (1484-1531).
Em suas pregações, Zwingli dava maior importância do que Lutero à crença na predestinação dos homens para a salvação, valorizando menos o aspecto da justificação pela fé. Com seu espírito racionalista, Zwingli conquistou o apoio da burguesia mercantil da Suíça, que admirava a objetividade de suas ações e o lado prático de suas idéias. Seu trabalho religioso preparou o caminho para que ali se desenvolvessem as idéias de João Calvino.
Em 1536, Calvino publicou sua principal obra, a Instituição da Religião Cristã, na qual afirmava que o ser humano estava predestinado de modo absoluto a merecer o Céu ou o Inferno. Explicava Calvino que, por culpa de Adão, todos os homens já nasciam pecadores (pecado original), mas, Deus tinha eleito algumas pessoas para serem salvas, enquanto outras seriam condenadas à maldição eterna. Portanto, nada que os homens pudessem fazer em vida poderia alterar-lhes o destino, já previamente traçado. A fé, existente em algumas pessoas, poderia ser interpretada como um sinal de que elas pertenciam ao grupo dos eleitos por Deus à salvação. Tais pessoas, os eleitos, sentiriam dentro do seu coração um irresistível desejo de combater o mal que
povoa o mundo, simplesmente para a glória de Deus. A prosperidade econômica de algumas pessoas, sua riqueza material, também passou a ser interpretada pelos seguidores de Calvino como um sinal da salvação predestinada.
Em 1538, Calvino foi expulso da Suíça, devido aos seus excessos de rigor e de autoritarismo. Entretanto, conseguiu retornar em 1541 e consolidou seu poder na cidade de Genebra, tornando-se senhor absoluto do Governo e da nova Igreja Calvinista, até o ano de 1561. Durante esse período, Genebra viveu um regime de caráter teocrático, em que se confundiam princípios religiosos e políticos.
Entre os órgãos criados pelo Governo calvinista, destacava-se o Consistório, encarregado da vigilância moral dos cidadãos e da solicitação de castigos ao Estado. Entre as atitudes condenadas pelo Calvinismo citam-se, por exemplo, o jogo, o culto a imagens, a dança, o adultério e a heresia, sendo que as penas impostas aos infratores variavam conforme a gravidade do crime. Muitos foram condenados à morte, figurando entre eles o médico Miguel de Servet, que foi queimado vivo por negar o pecado original.
Criou-se, com base no Calvinismo, um modelo ideal de homem, religioso e trabalhador, par quem o sucesso econômico e a conquista de riquezas eram um sinal da predestinação divina ao Paraíso. Essa ideologia foi muito bem aceita pela burguesia mercantil, na medida em que sua ganância pelo lucro era justificada pela ética religiosa. Identificando-se com a burguesia, o Calvinismo espalhou-se por diversas regiões da Europa, como França, Inglaterra, Escócia e Holanda – países onde se expandia o capitalismo comercial.
A REFORMA ANGLICANA
Henrique VIII (1509-1547), rei da Inglaterra, tinha sido, durante certo tempo, um fiel aliado do Papa, recebendo deste o título de “Defensor da Fé”. Entretanto, uma série de fatores políticos e econômicos levaram também Henrique VIII a romper com a Igreja Católica e a fundar uma Igreja nacional na Inglaterra, isso é, a Igreja Anglicana.
Entre os principais fatores que provocaram a Reforma Anglicana, podemos destacar os seguintes:
* Fortalecimento da monarquia: a Igreja Católica exercia grande influência política dentro da Inglaterra, pois era dona de grande parte das terras e monopolizava o comércio de objetos sagrados. Para fortalecer o poder da monarquia inglesa, Henrique VIII teria que reduzir a influência do Papa dentro da Inglaterra;
* A posse das terras da Igreja: a nobreza capitalista inglesa tinha grande interesse econômico em apossar-se das terras da Igreja. Para que isso acontecesse era preciso unir-se em torno do rei, a fim de que os poderes da Igreja Católica se enfraquecessem;
* O pedido de divórcio do rei Henrique VIII: casado com a princesa espanhola Catarina de Aragão, Henrique VIII teve com ela uma filha para sucedê-lo no trono. Entretanto, o rei estava bastante descontente com seu casamento. Primeiro, devido à origem espanhola de sua esposa, já que a Espanha era inimiga da Inglaterra. Segundo, porque o rei desejava um herdeiro masculino e pretendia casar-se com Ana Bolena. Assim, em 1529 pediu ao Papa que anulasse seu matrimônio com Catarina de Aragão, mas deparou-se com a recusa do Sumo Pontífice. Apesar disso, Henrique VIII conseguiu que o alto clero inglês e o Parlamento reconhecessem a validade de suas intenções. Em 1534, o Parlamento inglês votou um Ato de Supremacia, pelo qual considerava Henrique VIII o chefe supremo da Igreja Nacional Anglicana. “Os ingleses, por juramento, deviam submeter-se a essa supremacia, caso contrário seriam excomungados e perseguidos pela justiça real. Houve pouca resistência, nela incluída a de Thomas Morus, que foi decapitado. Suprimiu-se o clero regular e seus bens, devolvidos à coroa, foram vendidos”.
Após a criação da Igreja Anglicana, surgiram, com os sucessores de Henrique VIII, uma série de Lutas religiosas internas. Primeiro, tentou-se implantar, no governo de Eduardo VI (1547-1553), o Calvinismo no país. Depois, no governo de Maria Tudor (1553-1558), filha de Catarina de Aragão, houve a reação católica. Somente no governo de Elisabeth I (1558-1603) é que se consolidou a Igreja Anglicana, que permanece dominante no país até hoje. O calvinismo puritano conseguiu, entretanto, grande número de adeptos entre a burguesia, entretanto, grande número de adeptos entre a burguesia manufatureira. Foi dos puritanos que surgiram os grandes líderes da Revolução inglesa do Século XVII.
A FORMA E O CONTEÚDO DA REFORMA ANGLICANA
A Igreja Anglicana procurou desenvolver uma conciliação original entre o rito tradicional do catolicismo e o dogma de caráter protestante. Em outras palavras, mantinha-se nas cerimônias a forma católica (conservação da liturgia católica, da hierarquia eclesiástica etc.) e introduziam-se na doutrina elementos do conteúdo protestante (salvação pela fé, preservação de apenas dois sacramentos – batismo e comunhão etc.).
Essa foi a solução encontrada pela monarquia inglesa para favorecer, no país, a convivência social dos diferentes grupos religiosos rivais. Assim, de acordo com as circunstâncias históricas de cada momento, a monarquia inglesa dirigia a Igreja Anglicana para enfatizar a forma católica ou o conteúdo protestante. Se quisesse agradar aos protestantes, valorizava o conteúdo dos cultos; se quisesse agradar aos católicos, valorizava o rito formal das cerimônias.
A REFORMA CATÓLICA OU CONTRA-REFORMA
Diante dos movimentos protestantes, a reação inicial e imediata da Igreja Católica foi a de punir os líderes rebeldes, na esperança de que as idéias dos reformadores não se propagassem e o mundo cristão recuperasse a unidade perdida. Essa tática, entretanto, não deu bons resultados, já que o movimento protestante avançou pela Europa, conquistando crescente número de seguidores. Era forçoso, assim, reconhecer a ruptura protestante.
Diante disso, ganhou força dentro do Catolicismo um amplo movimento de moralização do clero e reorganização das estruturas administrativas da Igreja. Esse movimento de reformulação da Igreja Católica ficou conhecido como Reforma Católica ou Contra-Reforma. Seus principais líderes foram os Papas Paulo III (1534-1549, Paulo IV (1555-1559), Pio V (1566-1572) e Xisto V (1585-1590).
Todo um conjunto de medidas foi colocado em prática pelos líderes da Contra-Reforma, tendo em vista deter o avanço do protestantismo. Entre essas medidas, destacam-se as seguintes:
* Aprovação da Ordem dos Jesuítas: no ano de 1540, o Papa Paulo III aprovou a criação da Ordem dos Jesuítas ou Companhia de Jesus, que tinha sido fundada pelo militar espanhol Inácio de Loyola, em 1534. Inspirando-se na estrutura militar, os jesuítas consideravam-se os soldados da Igreja, sua tropa de elite, cuja missão era combater a expansão do protestantismo. Entretanto, o combate deveria ser travado com as armas do espírito, e para isso Inácio de Loyola escreveu um livro básico, chamado Os exercícios espirituais, em que se propunha a programar a conversão do indivíduo ao catolicismo, mediante técnicas de contemplação. A criação de escolas religiosas foi um dos principais instrumentos da estratégia dos jesuítas. Outra arma utilizada foi a catequese dos não-cristãos, isto é, os jesuítas empenharam-se em converter ao catolicismo os povos dos continentes recém-descobertos. O objetivo era expandir o domínio católico para os demais continentes;
* Convocação do Concílio de Trento: no ano de 1545, o Papa Paulo III convocou um Concílio, cujas primeiras reuniões foram realizadas na cidade de Trento, na Itália. Ao final de longos anos de trabalho, terminados em 1563, o Concílio apresentou um conjunto de decisões destinadas a garantir a unidade da fé católica e a disciplina eclesiástica. Reagindo às idéias protestantes, o Concílio de Trento reafirmou diversos pontos da doutrina católica, como, por exemplo:
– Salvação humana: depende da fé e das boas obras humanas. Rejeitava-se, portanto, a doutrina da predestinação;
– Fonte da fé: o dogma religioso tem como fonte a Bíblia, cabendo à Igreja dar-lhe a interpretação correta, e a tradição religiosa, conservada pela Igreja e transmitida às novas gerações. O Papa reafirmava sua posição de sucessor de Pedro, a quem Jesus Cristo confiou a construção de sua Igreja;
– A missa e a presença de Cristo: a Igreja reafirmou que no ato de eucaristia ocorria a presença real de Jesus no pão e no vinho. Essa presença real de Cristo era rejeitada pelos protestantes.
O Concílio de Trento determinou, ainda, a elaboração de um catecismo com os pontos fundamentais da doutrina católica, a criação de seminários para a formação dos sacerdotes e a manutenção do celibato sacerdotal;
* Restabelecimento da Inquisição: no ano de 1231 a Igreja Católica criou os Tribunais de Inquisição, que, com o tempo, reduziram suas atividades em diversos países. Entretanto, com o avanço do protestantismo, a Igreja decidiu reativar, em meados do século XVII o funcionamento da Inquisição, que se encarregou, por exemplo, de organizar uma lista de livros proibidos aos católicos, o Index librorum prohibitorum. Uma das primeiras relações de livros proibidos foi publicada em 1564.
A Mensagem da Reforma para os Dias de Hoje
I. Por que Lembrar a Reforma?
Em 31 de outubro de 1517 Martinho Lutero pregou as suas hoje famosas 95 Teses na porta da catedral de Wittenberg. Periodicamente as igrejas evangélicas relembram aqueles eventos que, na soberana providência de Deus, preservaram viva a sua igreja. Muitos, entretanto, questionam essas comemorações e alguns chegam até a contestar a lembrança da Reforma. “Por que considerar o que aconteceu há quase 500 anos?”
Seguramente muitos não estudam a Reforma por mero desconhecimento, por falta de informação, por não se aperceberem da sua importância na vida da igreja e da humanidade. Entretanto, muitos procuram um esquecimento voluntário daqueles eventos do século XVI. Martin Lloyd-Jones1 nos fala que entre aqueles que rejeitam a memória da Reforma temos, basicamente, dois tipos de argumentação: 1. “O passado não tem nada a nos ensinar.” Segundo este ponto de vista, o progresso científico e o futuro é o que interessa. Firmadas em uma mentalidade evolucionista, estas pessoas partem para uma abordagem histórica de que “o presente é sempre melhor do que o passado” e assim nada enxergam na história que possa nos servir de lição, apoio, ou alerta. 2. A segunda forma de rejeição parte daqueles que vêem a Reforma como uma tragédia na história religiosa da humanidade. Estes afirmam que deveríamos estar estudando a unidade em vez de um movimento que trouxe a divisão e o cisma ao cristianismo. Dentro desta visão, perdemos tempo quando nos ocupamos de algo tão negativo.
Podemos dar graças, entretanto, pelo fato de que um segmento da igreja ainda acha importante estar relembrando e aplicando as questões levantadas pelos reformadores. Mas é o mesmo Martin Lloyd-Jones que alerta para um perigo que ainda existe dentro do interesse pelos acontecimentos que marcaram o século XVI. Na realidade, ele nos confronta com uma forma errada e uma forma certa de relembrar o passado, do ponto de vista religioso.
A forma errada, seria estudar o passado por motivos meramente históricos. Esse estudo seria semelhante à abordagem que um antiquário dedica a um objeto. Por exemplo, quando ele examina uma cadeira, ele não está interessado em saber se ela é confortável, se dá para sentar-se bem nela, se ela cumpre adequadamente a função de cadeira. Basicamente a preocupação se resume à sua idade, ao seu estado de conservação e, principalmente, a quem pertenceu. Isto determinará o valor daquele objeto para o antiquário e, conseqüentemente, o seu estudo é motivado por essa visão.
Em Mateus 23.29-35 teríamos um exemplo dessa abordagem errada do passado. O trecho diz:
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! …porque edificais os sepulcros dos profetas, adornais os túmulos dos justos, e dizeis: Se tivéssemos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido seus cúmplices no sangue dos profetas. Assim, contra vós mesmos testificais que sois filhos dos que mataram os profetas. Enchei vós, pois, a medida de vossos pais. Serpentes, raça de víboras! como escapareis da condenação do inferno? Por isso eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas. A uns matareis e crucificareis; a outros açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade; para que sobre vós recaia todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o santuário e o altar.
Jesus diz que aqueles homens pagavam tributo à memória dos profetas e líderes religiosos do passado. Eles prezavam tanto a história, que cuidavam dos sepulcros e os enfeitavam. Proclamavam a todos que os profetas eram homens bons e nobres e atacavam quem os havia rejeitado. Diziam eles: “se estivéssemos lá, se vivêssemos naquela época, não teríamos feito isso!” Mas Jesus não se impressiona e os chama de hipócritas! A argumentação de Jesus é a seguinte: Se vocês se dizem admiradores dos profetas, como é que estão contra aqueles que representam os profetas e proclamam a mesma mensagem que eles proclamaram? Ele prova a sinceridade deles pondo a descoberto a sua atitude no presente para com aqueles que agora pregam a mensagem de Deus e mostra que eles próprios seriam perseguidores e assassinos dos proclamadores da mensagem dos profetas.
Esse é também o nosso teste: uma coisa é olhar para trás e louvar homens famosos, mas isso pode ser pura hipocrisia se não aceitamos, no presente, aqueles que pregam a mensagem de Lutero e de Calvino. Somos mesmo admiradores da Reforma, daqueles grandes profetas de Deus?
Mas existe uma forma correta de relembrar o passado. Nós a deduzimos não apenas por exclusão e inferência do texto anterior, mas porque temos um trecho na Palavra de Deus—Hebreus 13.7-8, que diz: “Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos falaram a palavra de Deus, e, atentando para o êxito da sua carreira, imitai-lhes a fé. Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente.”
A maneira correta de relembrar a Reforma é, portanto, verificar a mensagem, a Palavra de Deus, como foi proclamada, e isso não apenas por um interesse histórico de “antiquário,” mas para que possamos imitar a fé demonstrada pelos reformadores. Devemos observar aqueles eventos e aqueles homens, para que possamos aprender deles e seguir o seu exemplo, discernindo a sua mensagem e aplicando-a aos nossos dias.
II. Distorções Verificadas na Lembrança da Reforma
Muitos de nós que crescemos neste país de maioria católica podemos nos recordar de, numa ou outra ocasião, termos ouvido alguma posição distorcida sobre os fatos da Reforma do Século XVI, ou sobre os reformadores. Uma das versões comuns, na visão da Igreja Católica, era apresentar Lutero como um monge que queria casar e que por isso teria brigado com o papa. Outros diziam que Lutero foi alguém que ambicionava o poder político. Ainda outros falam que Lutero era apenas um místico rebelde, sem convicções reais e profundas. Até mesmo a descrição dele como doente da alma, psicopata, enganador e falso profeta permanece em vários escritos de historiadores famosos do período.2 Um famoso autor e historiador católico brasileiro chegou a escrever que “excomungado em Worms, em 1521, Lutero entregou-se ao ócio e à moleza.”3
Em anos mais recentes, um novo de tipo de abordagem da Reforma tem surgido nos círculos católicos, que igualmente representa alguma forma de distorção. Por exemplo, nos 500 anos do nascimento de Lutero (1983) o Papa participou de algumas cerimônias comemorativas do evento, na Alemanha.4 Certamente não foi por convencimento das verdades ensinadas por Lutero, pois a igreja que representa nada mudou doutrinariamente após a sua participação. A visita do Papa evidencia, entretanto, uma comprovação de que a imagem de Lutero e os princípios que pregava estão sendo alvo de revisionismo histórico e de distorções. Diluindo-se a força das doutrinas pregadas pelos reformadores, possibilita-se uma aproximação com os fatos históricos descontextualizados.
Em 1967, nos 450 anos da Reforma, a revista TIME escreveu o seguinte:”O domingo da Reforma está se tornando um evento ecumênico que olha para o futuro, em vez de para o passado.”5 Na mesma ocasião, um semanário jesuíta fez esta afirmação: “Lutero foi um profundo pensador espiritual que foi levado à revolta por papas mundanos e incompetentes.”6 Podemos ver como essa colocação faz da Reforma uma revolta contra pessoas temporais e não contra um sistema de doutrinas de uma igreja apóstata, que persiste até hoje.
Refletindo o sentimento ecumênico que tem permeado a segunda metade do século XX, bispos das igrejas católica e luterana dos Estados Unidos fizeram uma declaração solidária, no aniversário da Reforma, dizendo o seguinte: “…recomendamos um programa conjunto, entre os membros de nossas igrejas, de estudos, reflexão e oração.”7 Podemos imaginar discípulos jesuítas consciente e sinceramente fazendo estudos, reflexão e oração em comemoração à Reforma do Século XVI? Certamente só se ignorarem os pontos fundamentais de doutrina levantados pelos reformadores.
Refletindo uma visão político-sociológica da Reforma, uma outra distorção permeou durante muito tempo o pensamento revisionista da história. Na época em que o comunismo ainda imperava na Europa oriental, porta-vozes do partido comunista da Alemanha relembraram Lutero como sendo “um precursor da revolução.”8
III. Esquecimento Doutrinário dos Princípios da Reforma
Muitas das ações descritas acima, de comemoração conjunta da Reforma por católicos e protestantes, só ocorrem porque não se fala nas doutrinas cardeais levantadas pelo movimento do século XVI. Tristemente, temos observado que mesmo no campo chamado “evangélico” a situação é semelhante. Raras são as igrejas e denominações evangélicas que ensinam o que foi a Reforma do Século XVI e muito poucas as que comemoram o evento e aproveitam para relembrar e reaplicar os princípios nela levantados. Mais recentemente, observamos que tem sido removida a clara linha que separa as igrejas protestantes da católica quanto ao entendimento da fé cristã e da salvação. Esta ação, até alguns anos atrás praticada somente pela teologia liberal, que já havia declaradamente abandonado os princípios norteadores da Palavra de Deus, hoje está presente no campo protestante evangélico.
A falta de discernimento e conhecimento histórico, prático e teológico tem-se achado até mesmo dentro do campo ortodoxo e inclui teólogos reformados e tradicionais. Referimo-nos ao documento “Evangélicos e Católicos Juntos” (Evangelicals and Catholics Together), publicado em 1994 nos Estados Unidos, que tem sido uma fonte de controvérsia desde a sua divulgação.
A base e intenção do documento foi a realização de ações conjuntas de cunho moral-político por católicos e protestantes,9 mas ele evidencia uma grande falta de discernimento e sabedoria. Por exemplo, o documento encoraja a que as pessoas convertidas sejam respeitadas em sua decisão de filiar-se quer a uma igreja católica quer a uma protestante.10 Essas declarações foram emitidas como se a fé fosse a mesma, como se a doutrina fosse igual, como se a base dos ensinamentos fosse comum, como se as distinções inexistissem ou fossem extremamente secundárias.
A premissa básica do documento “Evangélicos e Católicos Juntos” é que a evangelização de católicos é algo indesejável e não recomendável, uma vez que a verdadeira fé e prática cristã devem já estar presentes na Igreja de Roma. Em sua essência, esse documento é a grande evidência do esquecimento da Reforma do Século XVI e do que ela representou e representa para a verdadeira igreja de Cristo.
Algum evangélico poderia argumentar, “mas isso é coisa de americano, não atinge o nosso país!” Ledo engano! A conhecida e prestigiada Revista Ultimato trouxe em suas páginas, no número de setembro de 1996, artigos e depoimentos, advindos do campo evangélico conservador, refletindo basicamente a mesma compreensão do documento “Evangélicos e Católicos Juntos,” ou seja: as distinções com relação à Igreja de Roma seriam secundárias e não essenciais.
Tal situação reflete pelo menos uma crassa ignorância da doutrina católica romana. Por exemplo, os canônes 9 e 10 do Concílio de Trento, escritos no auge da Contra-Reforma mas nunca ab-rogados até os dias de hoje, dizem o seguinte:
Cânon 9: Se alguém disser que o pecador é justificado somente pela fé, querendo dizer que nada coopera com a fé para a obtenção da graça da justificação; e se alguém disser que as pessoas não são preparadas e predispostas pela ação de sua própria vontade—que seja maldito.
Cânon 11: Se alguém disser que os homens são justificados unicamente pela imputação da justiça de Cristo ou unicamente pela remissão dos seus pecados, excluindo a graça e amor que são derramados em seus corações pelo Espírito Santo, e que permanece neles; ou se alguém disser que a graça pela qual somos justificados reflete somente a vontade de Deus—que seja maldito.11
Estas declarações, ou melhor, maldições, foram pronunciadas contra os protestantes. Elas atingem o cerne da doutrina da justificação somente pela fé. São afirmações contra a defesa inabalável da soberania de Deus na salvação, proclamada pela Reforma do Século XVI, e continuam fazendo parte dos ensinamentos da Igreja Católica.
A visão distorcida do evangelho e da evangelização, no campo católico romano, não é algo que data apenas da era medieval. Veja-se esta declaração extraída da encíclica papal “O Evangelho da Vida,” escrita e divulgada à Igreja em 1995: “O Evangelho é a proclamação de que Jesus possui um relacionamento singular com todas as pessoas. Isso faz com que vejamos em cada face humana a face de Cristo.”12 Certamente teríamos que chamar esta visão do evangelho de universalismo e declará-la contrária à fé cristã histórica.
Perante esse emaranhado de opiniões tão diferenciadas, perante o testemunho e o registro implacável da história, perante a crise de identidade, de doutrina e de prática litúrgica que nossas igrejas atravessam, qual deve ser a nossa compreensão da Reforma?
IV. Considerações Práticas Sobre a Reforma e os Reformadores
Nosso apreço pela Reforma e suas doutrinas não deve levar-nos a uma visão utópica e idealista com relação aos seus personagens principais. Devemos reconhecer os seus feitos, mas também as suas limitações. É na compreensão da falibilidade humana que detectamos a mão soberana de Deus empreendendo os seus propósitos na história. Vejamos alguns pontos que valem a pena ser recordados:
A. Lutero foi um Homem Falível
As 95 Teses de Lutero13 realmente representaram um marco e um ponto de partida para a recuperação das sãs doutrinas. Entre as teses encontramos expressões de compreensão dos ensinamentos da Bíblia, como por exemplo na Tese 62 (“O verdadeiro tesouro da Igreja é o sacrossanto Evangelho da glória e da graça de Deus”) e na Tese 94 (“Os cristãos devem ser exortados a seguir a Cristo, a sua cabeça, com diligência…”). Entretanto, devemos reconhecer que elas estão longe de serem, em sua totalidade, expressões precisas da verdadeira fé cristã. Elas registram, na realidade, o início do pensamento de Lutero, que seria trabalhado e refinado por Deus ao longo de seus estudos e experiências posteriores. Vejamos os seguintes exemplos:
Lutero faz referência ao purgatório, sem qualquer contestação à doutrina em si, em doze das suas teses (10, 11, 15, 16, 17, 18, 19, 22, 25, 26, 29, 82). Ex.: Tese 29: “Quem disse que todas as almas no Purgatório desejam ser redimidas? Temos exceções registradas nos casos de S. Severino e S. Pascal, de acordo com uma lenda sobre eles.”
Além da menção aos santos na tese acima, Lutero faz referência a Maria como mãe de Deus (Tese 75), aparentemente não no sentido histórico do termo (o termo histórico, em grego theotokos,tinha o propósito de reconhecer a divindade de Jesus14), mas no conceito católico da expressão, que infere a existência de um poder especial em Maria. Diz a Tese 75: “É loucura considerar que as indulgências papais têm tão grande poder que elas poderiam absolver um homem que tivesse feito o impossível e violado a própria mãe de Deus.”
Quatro teses inferem legitimidade ao papado e à sucessão apostólica (77, 5, 6, 9). Ex.: Tese 77: “É blasfêmia contra São Pedro e contra o Papa dizer que São Pedro, se fosse o papa atual, não poderia conceder graças maiores [do que as atualmente concedidas].”
Além disso, verificamos que resquícios do romanismo se fizeram presentes na formulação da Igreja Luterana, principalmente na sua estrutura hierárquica e na compreensão quase católica dos elementos da Ceia do Senhor. Possivelmente também poderíamos dizer que na Reforma encontramos individualismo em excesso e falta de unidade entre irmãos de mesma persuasão teológica (principalmente nas interações dos luteranos com Zuínglio e Calvino). Mas, com todas essas limitações, os reformadores foram poderosamente utilizados por Deus na preservação das suas verdades.
B. A Revolta de Lutero foi Eminentemente Espiritual
Não podemos compreender a Reforma se acharmos que Lutero liderou uma revolta contra pessoas, contra padres corruptos, apenas. A ação de Lutero foi uma revolta contra uma estrutura errada e uma doutrina errada de uma igreja que distorcia a salvação. Não foi um movimento sociológico: ele não pretendia ensinar a salvação do homem pela reforma da sociedade, mas compreendia que a sociedade era reformada pelas ações do homem resgatado por Deus. Na realidade, a Reforma do Século XVI foi um grande reavivamento espiritual operado por Deus, que começou com uma experiência pessoal de conversão.
C. Lutero não Formulou Novas Doutrinas, ou Novas Verdades, mas Redescobriu a Bíblia em sua Pureza e Singularidade
As 95 Teses representam coragem, despreendimento e uma preocupação legítima com o estado decadente da igreja e com a procura dos verdadeiros ensinamentos da Palavra. Mas é um erro acharmos que a Reforma marca o surgimento de várias doutrinas nunca dantes formuladas. A Palavra de Deus, cujas doutrinas estavam soterradas sob o entulho da tradição, é que foi resgatada. Uma das características comuns das seitas é a apresentação de supostas verdades que nunca haviam sido compreendidas, até a sua revelação a algum líder. Essas “verdades” passam a ser determinantes da interpretação das demais e ponto central dos ensinamentos empreendidos. A Reforma coloca-se em completa oposição a esta característica. Nenhum dos reformadores declarou ter “descoberto” qualquer verdade oculta, mas eles tão somente apresentaram em toda singeleza os ensinamentos das Escrituras. Seus comentários e controvérsias versaram sempre sobre a clara exposição da Palavra de Deus.
Mais uma vez, Martin Lloyd-Jones nos indica “que a maior lição que a Reforma Protestante tem a nos ensinar é justamente que o segredo do sucesso, na esfera da Igreja e das coisas do Espírito, é olhar para trás.”15 Lutero e Calvino, diz ele, “foram descobrindo que estiveram redescobrindo o que Agostinho já tinha descoberto e que eles tinham esquecido.”16
V. A Mensagem da Reforma para os Dias de Hoje
As mensagens proclamadas pela Reforma continuam sendo pertinentes aos nossos dias. Da mesma forma como as Escrituras são sempre atuais e representam a vontade de Deus ao homem, em todas as ocasiões, a Reforma, com suas mensagens extraídas e baseadas nessas Escrituras, transborda em atualidade para a cena contemporânea da igreja evangélica. Vejamos apenas alguns pontos pregados pelos Reformadores e a sua aplicação presente:
A. A Reforma Resgatou o Conceito do Pecado – Rm 3.10-23
A venda das indulgências mostra como o conceito do pecado estava distorcido na época da Reforma do Século XVI. A igreja medieval e, principalmente, as ações de Tetzel, fugiram totalmente à visão bíblica de que pecado é uma transgressão da Lei de Deus e qualquer falta de conformidade com seus padrões de justiça e santidade. A essência do pecado foi banalizada ao ponto de se acreditar que o seu resgate podia se efetivar pelo dinheiro. É fácil vermos as implicações que a falta de um conceito bíblico de pecado tem para outras doutrinas chaves da fé cristã. Por exemplo: se o resgate é em função da soma de dinheiro paga, como fica a expiação de Cristo, qual a necessidade dela? Ao se insurgir contra as indulgências Lutero estava, na realidade, reapresentando a mensagem da Palavra de Deus sobre o homem, seu estado, suas responsabilidades perante o Deus Santo e Criador, e sua necessidade de redenção.
Hoje esses conceitos estão cada vez mais ausentes da doutrina da igreja contemporânea. A mensagem da Reforma continua necessária aos nossos dias. Estamos nos acostumando a ouvir que todas as ações são legítimas; que pecado é uma conceito relativo e ultrapassado; que o que importa é a felicidade pessoal e não a observância de princípios. Mesmo nos meios evangélicos existe grande falta de discernimento — há uma preocupação muito maior em encontrar justificativas, explicações e racionalizações do que com a convicção de pecado e o arrependimento.
B. A Reforma Pregou a Doutrina da Justificação Somente pela Fé – Gl 3.10-14
A Igreja Católica havia distorcido o conceito da salvação, pregando abertamente que a justificação se processava por intermédio das boas obras de cada fiel. Lendo a Palavra, Lutero verificou quão distanciada esta pregação estava das verdades bíblicas — a salvação era uma graça concedida mediante a fé. Todo o trabalho vem de Deus. As boas obras não fornecem a base para a salvação, mas são evidências e sub-produtos de uma salvação que procede da infinita misericórdia de Deus para com o homem pecador que ele arranca da perdição do pecado.
Hoje estamos novamente perdendo essa compreensão – a mensagem da Reforma é necessária. A justificação pela fé continua sendo esquecida e procura-se a justificação pelas obras. Muitas vezes prega-se e procura-se a justificação perante Deus através do envolvimento em ações de cunho social.
A justificação pela fé está sendo, ultimamente, considerada até um ponto secundário, mesmo no campo evangélico, partindo-se para trabalhos de ampla cooperação, como base de fé e de unidade, como vimos no pensamento expresso pelo documento já referido: Evangélicos e Católicos Juntos.
C. A Reforma Resgatou o Conceito da Autoridade Vital da Palavra de Deus – 2 Pe 1.16-21
Na ocasião da Reforma, a tradição da igreja já havia se incorporado aos padrões determinantes de comportamento e doutrina e, na realidade, já havia superado as prescrições das Escrituras. A Bíblia era conservada distante e afastada da compreensão dos devotos. Era considerada um livro só para os entendidos, obscuro e até perigoso para as massas. Os reformadores redescobriram e levantaram bem alto o único padrão de fé e prática: a Palavra de Deus, e por este padrão aferiram tanto as autoridades como as práticas religiosas em vigor.
Hoje o mundo está sem um padrão. Mas não é somente o mundo: a própria igreja evangélica está voltando a enterrar o seu padrão em meio a um entulho místico pseudo-espiritual – a mensagem da Reforma continua necessária.
Sabemos que nas pessoas sem Deus imperam o subjetivismo e o existencialismo. A única regra de prática existente parece ser: “Comamos e bebamos porque amanhã morreremos.” Verificamos que nas seitas existe uma multiplicidade de padrões. Livros e escritos são apresentados como se a sua autoridade fosse igual ou até superior à da Bíblia. A cena comum é a apresentação de novas revelações, geralmente de natureza escatológica e com características fluidas, contraditórias e totalmente duvidosas.
No meio eclesiástico liberal, já nos acostumamos a identificar o ataque constante à veracidade das Escrituras. Já vamos com mais de dois séculos de contestação sistemática da Palavra de Deus, como se a fé cristã verdadeira fosse capaz de subsistir sem o seu alicerce principal.
Mas é no campo evangélico que somos perturbados com os últimos ataques à Bíblia como regra inerrante de fé e prática. Ultimamente muitos chamados intelectuais têm questionado a doutrina que coloca a Bíblia como um livro inspirado, livre de erro. Podemos tomar como exemplo o caso do Fuller Theological Seminary. Esta famosa instituição evangélica foi fundada em 1947 sobre princípios corretos. Logo após o seu início, formulou-se uma declaração de fé que especificava: “…os livros do Velho Testamento e do Novo Testamento…, nos originais, são inspirados plenariamente e livres de erro, no todo e em suas partes…” Entretanto, em 1968, o filho do fundador, Daniel Fuller, que havia estudado sob Karl Barth, começou a questionar a inerrância da Bíblia, fazendo distinção entre trechos “revelativos” e trechos “não revelativos” das Escrituras. Foi seguido nessa posição pelo presidente, David Hubbard, e por vários outros professores, todos considerados evangélicos.17 Logicamente não há critério coerente ou legítimo para fazer essa distinção. Subtrai-se da igreja o seu padrão, derruba-se um dos pilares da Reforma, e a igreja é retroagida a uma condição medieval de dependência dos especialistas que nos dirão quais as partes em que devemos crer realmente e quais as que devemos descartar como mera invenção humana.
No campo evangélico neopentecostal, a suficiência da Palavra de Deus é desconsiderada e substituída pelas supostas “novas revelações,” que passam a ser determinantes das doutrinas e práticas do povo de Deus.
Em seu Capítulo I, Seção II, a Confissão de Fé de Westminster apresenta a mensagem inequívoca da Reforma do Século XVI, cada vez mais válida para os nossos dias. Ali a Bíblia é descrita como sendo a “regra de fé e de prática.”
D. A Reforma Redescobriu na Palavra a Doutrina do Sacerdócio Individual do Crente – Hb 10.19-21
O sacerdócio individual do crente foi uma outra doutrina resgatada. Ela apresenta a pessoa de Cristo como único mediador entre Deus e os homens, concedendo a cada salvo “acesso direto ao trono” por intermédio do sacrifício de Cristo na cruz e pela operação do Espírito Santo no “homem interior.”18 O ensinamento bíblico, transmitido pela Reforma, eliminava os vários intermediários que haviam surgido ao longo dos séculos entre o Deus que salva e o pecador redimido. Na ocasião, esse era um ensinamento totalmente estranho à Igreja de Roma, que sempre se apresentou como tendo a palavra final de autoridade e interpretação das Escrituras.
Lutero rebelou-se contra o véu de obscuridade que a Igreja lançava sobre as verdades espirituais e levou os fiéis de volta ao trono da graça. Isso proporcionou uma abertura providencial no conhecimento teológico e religioso. Lutero sabia disso, mas também sabia que o acesso a Deus deveria estar fundamentado nas verdades da Bíblia, tanto assim que um de seus primeiros esforços, após a quebra com a Igreja Romana, foi a tradução da Palavra de Deus para a língua falada em seu país: o alemão.
O ensinamento do sacerdócio individual do crente foi o grande responsável pelo estudo aprofundado das Escrituras e pela disseminação da fé reformada. Levados a proceder como os bereanos,19 os crentes verificaram que não dependiam do clero para o entendimento e aplicação dos preceitos de Deus e passaram a penetrar com determinação nas doutrinas cristãs.
A mensagem da Reforma continua sendo necessária hoje. A igreja contemporânea está multiplicando-se em quantidade de adeptos, mas é uma multiplicação estranha porque é acompanhada de uma preguiça mental quanto ao estudo. Parece que fomos todos tomados de anorexia espiritual, pois nos contentamos com muito pouco, nos achamos mestres sem estudar, nos concentramos na periferia e não no cerne das doutrinas, e ficamos felizes com o recebimento só do “leite” e não da “carne.”
A mensagem da Reforma é necessária para que não venhamos a testemunhar a consolidação de toda uma geração de “cristãos analfabetos.” Em vez de procurarmos coisas “enlatadas” e de deixar que apenas formas de entretenimento povoem nossas mentes e corações, devemos lembrar-nos constantemente da importância de “guardar a palavra no coração.”
Precisamos nos aperceber de que o conteúdo da Palavra de Deus é verdade proposicional objetiva. Mas essa objetividade tem que ser acompanhada do nosso estudo e da nossa capacidade de compreensão, sob a iluminação do Espírito Santo, e da aplicação coerente dos ensinamentos dessa Palavra em nossas vidas.
E. A Reforma Apresentou, de Forma Clara e Inequívoca, o Conceito da Soberania de Deus — Salmo 24
Na ocasião da Reforma, as expressões de religiosidade tinham se tornado totalmente centralizadas no homem. Isso ocorreu principalmente pela grande influência de Tomás de Aquino na sistematização do pensamento católico romano. Abraçando as idéias de Pelágio, Aquino enfatizou fortemente o livre arbítrio do ser humano, desconsiderando a gravidade da escravidão ao pecado que o torna incapaz de escolher o bem, a não ser que a ele seja direcionado por Deus. Lutero reconheceu que a salvação se constituía em algo mais que uma mera convicção intelectual. Era, na realidade, um milagre da parte de Deus e por isso ele tanto pregou como escreveu sobre “a prisão do arbítrio.” Costumamos atribuir a cristalização das doutrinas relacionadas com a soberania de Deus a João Calvino apenas, mas o ensinamento bíblico de Lutero traz, com não menor veemência, uma teologia teocêntrica na qual Deus reina soberanamente em todos os sentidos.
Hoje, a mensagem continua a ser necessária, pois o homem, e não Deus, permanece no centro das atenções. Mesmo dentro dos círculos evangélicos, nossa evangelização é efetivada tendo a felicidade do homem como alvo principal, e não a glória de Deus. Até a nossa liturgia é desenvolvida em torno de algo que nos faça “sentir bem,” e não com o objetivo maior da glorificação a Deus. Nesse aspecto, deveríamos estar atentos à mensagem de Amós, que nos ensina (Am 4.4-5) que Deus não se impressiona com uma liturgia que não é direcionada a ele.20 Nesse trecho vemos que a adoração realizada em Betel21 e Gilgal22 tinha várias características dos cultos contemporâneos:
1. Os locais eram suntuosos e famosos (Betel possuía belas fontes no da montanha).
2. A periodicidade dos cultos e possivelmente a freqüência era exemplar (reuniam-se diariamente).
3. As contribuições eram generosas, superando até os padrões de Deus (de três em três dias traziam as ofertas).
4. O louvor era abundante (sacrifícios de louvor eram ofertados; Am 5.23 e 6.5 também fala do estrépito dos cânticos e da transbordante música instrumental).
5. Havia bastante publicidade (as ofertas eram divulgadas e apregoadas).
6. Havia alegria e deleite geral nos trabalhos (“disso gostais,” diz o profeta).
O resultado de toda essa adoração centralizada no homem foi a mão pesada de Deus em julgamento sobre aquela sociedade insensível (com aquele culto, as pessoas, dizia o profeta, “multiplicavam as suas transgressões”). Realmente, à semelhança da Reforma, precisamos resgatar a pregação da soberania de Deus e demonstrar essa doutrina na prática de nossas vidas e na de nossas igrejas.
Conclusão
Devemos reconhecer a Reforma como um movimento operado por homens falíveis, mas poderosamente utilizados pelo Espírito Santo de Deus para resgatar suas verdades e preservar a sua igreja. Não devemos endeusar os reformadores nem a Reforma, mas não podemos deixá-la esquecida e nem deixar de proclamar a sua mensagem, que reflete o ensinamento da Palavra de Deus aos dias de hoje. A natureza humana continua a mesma, submersa em pecado. Os problemas e situações tendem a repetir-se, até no seio da igreja. O Deus da Reforma fala ao mundo hoje, com a mesma mensagem eterna. Devemos, em oração e temor, ter a coragem de proclamá-la à nossa igreja.
SEITAS MARGINAIS À REFORMA
A liberdade sobre a leitura bíblica imposta pela Reforma ocasionou um enorme avanço ao cristianismo, ou pelo menos, possibilitou-o a retomar os passos do cristianismo primitivo. Nesta liberdade várias correntes de interpretação surgiram nos séculos subseqüentes. Pessoas começaram a ler a bíblia de acordo com o seu tempo – o que respondeu a inúmeras perguntas, mas suscitou muitas interpretações distintas. Veremos alguns ramos (abordaremos mais a questão do néo-pentecostalismo – pois trata-se de algo emergente e atual).
Faremos aqui uma breve definição de seita, a partir do que diz o Rev. Tácito Gama:
“O termo seita vem do substantivo latino secta e do verbo sequi, que significa seguir. A palavra grega que aparece na bíblia é háiresis, ou seja, heresia, que, por causa da semântica, foi traduzido na Vulgata por seita. No seu sentido original significa escola ou modo de pensar e de viver que é seguido por pessoas. O sentido original, portanto, não é pejorativo, visto que o próprio cristianismo foi denominado de seita (At 26.5). Com o tempo, o termo foi adquirindo um significado negativo, ou seja, espírito sectário, ferrenho, estreito, agressivo, maquiavélico”1.
Seitas Proféticas
Seitas proféticas, em sua maioria, são movimentos que surgem a partir de uma visão fanática, de um sonho, uma revelação pessoal aliada à uma interpretação descontextualizada de algumas passagens bíblicas. Geralmente profetizam o fim dos tempos; sua linguagem natural é de sectarismo e sua argumentação está baseada em profecias futurísticas. Também não vêem Jesus como o único Deus, mas como um deus. Dentre elas podemos destacar: Adventistas do Sétimo dia, Mórmons, Ciência Cristã, Testemunhas de Jeová, Meninos de Deus, entre outras.
Seitas Pentecostais
O pentecostalismo nunca foi homogêneo. Desde seu início, sempre conteve diferenças internas. As maiores diferenças na verdade, não são nem tanto teológicas, mas comportamentais, e são elas que definem a identidade pentecostal; desde o seu surgimento até agora, inúmeros ramos brotaram na árvore pentecostal. São difíceis, não de discernir, mas de dar-lhes uma identidade. Vários teólogos tentam dividir o movimento pentecostal. A divisão que achamos ser mais coerente é a de Paul Freston:
“O pentecostalismo brasileiro pode ser compreendido como a história de três ondas de implantação de igrejas. A primeira onda é a década de 1910, com a chegada da Congregação Cristã (1910) e da Assembléia de Deus (1911). A segunda onda pentecostal é dos anos 50 e início de 60, na qual o campo pentecostal se fragmenta, a relação com a sociedade se dinamiza e três grandes grupos (em meio a dezenas de menores) surgem: Quadrangular (1951), Brasil para Cristo (1955) e Deus é Amor (1962). O contexto dessa pulverização é paulista. A terceira onda começa no final dos anos 70 e ganha força nos anos 80. Seus principais representantes são a Igreja Universal do Reino de Deus (1977) e a Igreja Internacional da Graça de Deus (1980). O contexto é fundamentalmente carioca”2
O tempo vai passando e mudando, com isso, determinando a leitura e o surgimento de novos grupos oriundos da fé pentecostal. Sua marca, em todas as classificações, é o sentimentalismo e a experiência. O homem foi colocado no centro para que pudesse sentir a experiência com o divino. Eis a classificação atual de pentecostalismo baseada em Freston:
a) Pentecostalismo Clássico
Fazem parte dessa linhagem, no Brasil, a Igreja Assembléia de Deus e a Cristã no Brasil. O termo clássico surgiu em meados de 1970, quando pesquisadores norte-americanos acrescentaram a designação classical às denominações pentecostais do início do século, período de gênese do pentecostalismo, para distingui-las de outras pentecostais ou carismáticas surgidas nos anos 60. Alguns autores também usam o termo histórico, ou ainda, tradicional. Para entender o que se denomina movimento pentecostal clássico do século XX, é necessário tornar claro o seguinte: É um movimento missionário de caráter mundial, que possui uma dinâmica própria, herdando muitos traços dos movimentos de santidade da Inglaterra e dos Estados Unidos, particularmente do metodismo. A grande maioria das igrejas pentecostais surgiram das igrejas históricas herdeiras da Reforma Protestante do século XVI. Seu marco inicial foi em 1900, quando Charles Parham, alugou uma “Mansão de Pedra”, como era conhecida, em Topeka, Kansas para estabelecer uma escola bíblica chamada Betel. Cerca de 40 estudantes ingressaram na escola para o seu primeiro e único ano atraídos pelo seguinte propósito – “descobrir o poder que os capacitaria a enfrentar o desfio do novo século”. O método de ensino era pesquisar e estudar um assunto, esgotando todas as citações bíblicas sobre o assunto e apresentá-lo para a classe em forma de sabatina oral, orando para que o Espírito Santo estivesse sobre a mensagem trazendo convicção. Até dezembro de 1900, já tinham estudado sobre arrependimento, conversão, consagração, santificação, cura e a eminente vinda do Senhor. No dia 25 de dezembro, Charles Parham iria se ausentar por alguns dias e deu a seguinte instrução para eles:
“Nós nos deparamos em nossos estudos com um problema. É sobre o segundo capítulo de Atos?… Tendo ouvido tantas entidades religiosas diferentes reivindicarem diferentes provas como evidências do recebimento do batismo pentecostal, eu quero que vocês estudantes estudem diligentemente qual é a evidência bíblica do batismo no Espírito, para que possamos apresentar ao mundo alguma coisa incontestável que corresponda absolutamente com a Palavra”3.
Três dias após, apresentaram seus trabalhos com a mesma história. Embora diferenças tenham ocorrido quando a benção pentecostal caiu, tinham como prova irrefutável o falar em outras línguas. Foi esta descoberta, que deu inicio o Movimento Pentecostal do século XX. “Tal foi a magnitude e impacto do movimento, que, já na primeira década depois de Azuza , sabia-se de experiências pentecostais na Ásia, África, Europa e América Latina. O movimento se multiplicava agora em muitos movimentos com variedade de matizes e expressões, como um grande caleidoscópio”4.
O movimento pentecostal no Brasil, teve inicio com os missionários Daniel Berg e Gunner Vingren, crendo ter recebido revelações de Deus, vieram para o norte do Brasil -estado do Pará; onde, numa Igreja Batista, começaram a pregar o batismo com o Espírito Santo e ali fundaram a Igreja Assembléia de Deus. Outro missionário, Luigi Francescon, antigo membro da Igreja Presbiteriana Italiana de Chicago, também, por revelação de Deus, segue para a Argentina e Brasil, iniciando nos estados de São Paulo e Paraná a Congregação Cristã do Brasil.
b) Deutero-pentecostalismo
Nos anos 50, uma segunda onda pentecostal se iniciou, fazendo dos milagres e da cura divina sua principal ênfase, diferentemente da primeira onda, onde a ênfase recaia sobre a glossolalia, entretanto, o núcleo doutrinário permaneceu inalterado. Os pioneiros dessa nova visão são os ex-atores americano: Harold Williams e Raymond Batright. Difundiram-na por meio do rádio. Surgem denominações como a Igreja do Evangelho Quadrangular – Cruzada Nacional de Evangelização (1953)5; Igreja Pentecostal “O Brasil para Cristo”(1956); Igreja de Nova Vida (1960); Igreja Pentecostal “Deus é Amor”(1961); Casa da Benção(1964), Metodista Weslyana(1967) e uma enorme quantidade de pequenas denominações, formando comunidades locais.

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