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Profetas Maiores

A divisão dos Livros
Os 17 livros do Antigo Testamento, de Isaías a Malaquias, são classificados como proféticos. Antigos eruditos dividiram estes livros em dois grupos:
a) Os cinco livros: Isaías, Jeremias, Lamentações, Ezequiel e Daniel, foram designados como livros dos “Profetas Maiores”.
b) Os outros 12 livros foram designados como livros dos “Profetas Menores”.
A divisão entre profetas “Maiores” e “Menores” consiste, não que esse profeta seja maior ou menor que aquele, mas em que, uns proferiram maior ou menor número de profecias.
Nesta seção estudaremos os chamados “Profetas Maiores”
Quem eram esses Profetas?
Os livros dos profetas, formando quase um terço do Velho Testamento, contêm a doutrina e, em certos casos, a história pessoal dos profetas que apareceram isolados, a intervalos ou contemporaneamente, desde o séc. VIII ao séc. IV A. C. Este período é notável pelo largo desenvolvimento do pensar humano, e pelo aparecimento de ilustres orientadores do espírito em todos os países do globo.
Quando Sofonias previa a desgraça que devia cair sobre Jerusalém, e Naum descrevia a ruína de Nínive, Zoroastro, segundo um cálculo provável, empenhava-se a fundo na reforma da antiga religião iraniana. Quando Jeremias e Ezequiel insistiam na pregação do culto interior e puro a Deus, na conduta sincera e na responsabilidade pessoal, Confúcio dava à religião da China uma forma definitiva, enquanto Sidarta na Índia lançava os fundamentos do Budismo.
Na era dos profetas que surgiram depois do exílio, encontrava-se em elaboração a antiga religião grega, enquanto os filósofos da Jônia concebiam novos e elevados conceitos do universo e os dramaturgos da Ática representavam os mistérios da vida humana, sem esquecerem o espírito de justiça a que devia subordinar-se.
Atravessava-se, então, um período de grandes acontecimentos políticos: Israel, deixava de existir; a Assíria perdia a sua independência; Babilônia era submetida pelos persas; Jerusalém, após ter sofrido uma destruição total, vivia um período de ressurgimento nacional. A Grécia, depois de se libertar galhardamente do inimigo invasor, via-se a braços com a praga das lutas internas. Roma, a expandir-se avassaladoramente. Enfim, uma época brilhante em todos os ramos da ciência, da política e da estratégia, sem que todavia, nenhum sábio, nenhum político, nenhum herói tenham superado esses homens de poder e de visão, que foram os profetas de Israel e de Judá.

A Vocação de um Profeta
Os pregadores do séc. VIII não foram os primeiros profetas, no sentido que normalmente lhe atribuímos. Vêm de longe, pois desde os tempos remotos de Abraão se vêm verificando esses testemunhos duma doutrina fixa, que, revelada gradualmente, se baseou, sobretudo, na pregação de Moisés. Os profetas, tal como este patriarca, foram “chamados” por Deus, que os encarregou duma missão altamente espiritual.
Os diferentes nomes que a Escritura atribui aos profetas dizem algo do caráter e da natureza da obra desses homens excepcionais. O que vinha a ser então o profeta? Primeiramente um “homem de Deus”, quer dizer mais intimamente ligado a Deus do que os outros homens, e, portanto, mais reto e mais justo do que eles. Em segundo lugar o profeta é um “servo DO SENHOR”, com uma missão especial a cumprir, a de entregar uma mensagem aos povos. Daí ser o profeta o “mensageiro DO SENHOR”. As suas palavras tinham uma autoridade e uma força que só podiam advir de Deus. Finalmente o profeta é um “homem de Espírito”, no dizer de Oséias (Veja: Os 9.7). Isto no que se refere ao poder e à autoridade do profeta. Mas, se atendermos ao fato de que era esse homem que explicava aos povos a mensagem divina, podemos ainda acrescentar aos epítetos do profeta o de “intérprete”.
Mais três nomes vêm-nos indicar como o profeta recebia a sua mensagem, e a seguir como a tornava conhecida. Dois deles roeh e chozeh significam “vidente”. O profeta vê o que não é dado ver aos restantes homens, mas não por mérito próprio devido a uma excepcional perspicácia, ou a um poder de penetração, que são apanágio de inteligências agudas e experientes. Também não se trata do emprego de meios semelhantes aos que se utilizavam na adivinhação ou no ocultismo. A “visão” do profeta resulta exclusivamente dum dom sobrenatural, independente da vontade do mesmo profeta, pois o objeto dessa visão é revelado por Deus. Não vá julgar-se, porém, que tal submissão a Deus pode implicar uma passividade absoluta. O uso das faculdades normais do profeta não fica em suspenso, como se pode deduzir da palavra “vidente”, já que, quando mais não seja, a visão exige não pequeno esforço da parte do profeta, preparando-se para ela, as mais das vezes, com oração e com rogos (cfr. Dn 9.3).
A terceira palavra em questão, mais freqüente e que se traduz por profeta, é nabi, e dá a entender que a pessoa assim designada é um verdadeiro intérprete.
Ao contrário de Elias e Eliseu, os últimos profetas não operavam milagres. Confiavam inteiramente nas palavras escritas ou proferidas, e reforçadas de vez em quando por uma ação simbólica (cfr. Jr 28.10). Embora unidos ao passado, interessavam-lhes, sobretudo, as circunstâncias do presente. Por isso, as suas obras refletem a vida política, econômica, social, moral e religiosa da época em que viveram. Assim se explicam algumas das descrições de reinados sucessivos dos livros dos Reis e das Crônicas.
O Que Acontecia Na História
Durante os vários séculos da atividade dos profetas, a história de Israel e de Judá foi largamente afetada pelas ambições de três grandes países: Assíria, Babilônia e Pérsia. E de tal modo o domínio foi exercido pelos vencedores, que podemos agrupar os acontecimentos conforme o período desse domínio exercido. As datas são, por vezes, apenas aproximadas, e por isso não admira que nem sempre concordem as cronologias apresentadas.
a) O Período Assírio
Durante a maior parte do reinado de Jeroboão II (783-743 A. C.) a Assíria encontrava-se plenamente absorvida com os seus assuntos internos, de maneira a não incomodar as pequenas nações, que prosseguiam tranqüilamente na sua política individualista. Jeroboão estendera as fronteiras do norte até aos limites do reinado de Davi, com exceção de Judá. Este acontecimento, já foi anunciado por Jonas (Veja: 2Rs 14.25), foi seguido por um largo período de prosperidade material, como se depreende da pregação de Amós e Oséias. Estes profetas não deixam, todavia, de acentuar o declínio espiritual e a corrupção dos costumes que então atingiram um nível nunca alcançado.
Em 745 A. C. Tiglate-Pileser III, após uma série de campanhas militares, procurou infiltrar-se na Ásia ocidental, acontecimento também previsto por Amós e Oséias, mercê dos pecados de Israel. Amós, por exemplo, profetizou a destruição da corte real, profecia que se cumpriu quando Zacarias, sucessor de Jeroboão, foi assassinado pelo usurpador Salum, após um efêmero reinado de 6 meses. Com a queda da dinastia de Jeú a história de Israel sofreu novas alterações. Cinco reis subiram ao trono e em breve espaço desapareceram. Ao cabo de um mês Salum foi assassinado por Menaém, que passou a reinar dez anos, embora durante quase cinco pagasse tributo à Assíria. Quando, porém, subiu ao trono seu filho Pecaías, uma revolta substituiu-o por Peca que, não concordando com a política da Assíria, formou uma aliança com a Síria e atacou Judá, possivelmente por não querer aderir àquela aliança. Foi nesta altura que Isaías previu a queda de Samaria e Damasco. Não obedecendo aos conselhos do profeta, o rei da Judéia, Acaz, pediu socorro à Assíria, a que Tiglate-Pileser III respondeu com a invasão duma grande parte de Israel, levando a população dos territórios invadidos e reduzindo o reino do norte a estreitas fronteiras. Peca foi assassinado por Oséias, e Israel mais uma vez passou a pagar tributo à Assíria. Em 732 A. C. Damasco sofre a invasão da Assíria, o mesmo sucedendo dez anos mais tarde a Samaria. Oséias, encorajado pelo Egito, revolta-se contra a Assíria, mas falhou a tentativa de atingir a liberdade. A cidade foi cercada pelo exército de Salmaneser V e, após três anos, capitulou ao seu sucessor Sargom II. Os sobreviventes foram exilados e o reino do norte deixou de existir.
Como Israel, no reinado de Jeroboão, Judá no tempo de Uzias aproveitou a relativa liberdade e independência para desenvolver o poderio militar e intensificar o comércio. Coroadas de êxito tais tentativas, não deixou, todavia, esta prosperidade material de conduzir ao esquecimento de Deus. Isaías, que começou a sua missão profética no ano da morte de Uzias (cfr. Is 6), oferece-nos uma descrição real dos males sociais e religiosos do tempo de Jotão. Em virtude de Acaz, seu sucessor, não ouvir as advertências do profeta na altura da guerra entre a Síria e Efraim, Judá perdeu a sua independência, o que veio trazer conseqüências desastrosas para a vida religiosa da nação.
Durante algum tempo, Ezequias continuou a política de sujeição de seu pai e, quando o Egito pensou em fomentar uma revolta entre as nações menores, Isaías opôs-se a uma aliança e previu a queda do país. Associou, todavia, o usurpador babilônico a Merodaque-Baladã, depois do que profetizou o cativeiro de Babilônia (cfr. 2Rs 20.12-21). Morto Sargom II em 705 A. C., Ezequias revoltou-se contra a Assíria e atacou os filisteus, que eram seus tributários. A invasão de Senaqueribe, que terminou pela libertação miraculosa de Jerusalém, causou uma profunda impressão, e passou-se a confiar no Senhor, pelo amor que dedicava à Cidade Santa. Durante o período difícil, Isaías encorajou o rei e o povo a confiarem sempre no Senhor. Mais tarde, porém, vai censurar a nação por não dar glória a Deus, que acabava de derrotar o inimigo. A reforma de Ezequias, efetuada no tempo de Isaías e Miquéias, eliminou as práticas introduzidas por seu pai Acaz (cfr. 2Rs 16.2-4,10-12). Seu filho Manassés, porém, prestou vassalagem à Assíria e voltou ao paganismo, desta vez acompanhado duma série de perseguições e de atos de violência, que tornaram detestável o seu reinado.
Sofonias, ao profetizar o reinado de Amom, filho de Manassés, apresenta-nos também um esboço da sociedade do seu tempo. Após dois anos de governo, Amom foi assassinado pelo chefe dum partido, que poderíamos chamar reformador. Entretanto, o poder da Assíria entrava no seu declínio. Ao findar o reinado de Assurbanípal (668 -630 A. C.), a atenção do rei de tal modo se concentrava nos acontecimentos do oriente e do sul, onde as invasões citas se tornavam um perigo ameaçador, que o Egito podia à vontade consolidar a sua posição de reino independente. Só depois da morte daquele rei em 625 A. C. Nabopolassar fundava o Império neo-babilônico. Como causa destes acontecimentos, em Judá, o filho de Amom, Josias, podia executar a reforma indicada no livro que encontrou no templo e estender a sua atividade até Samaria. Como Naum previra, Nínive foi conquistada pelos medos e pelos babilônios em 612 A. C. O império assírio perdia-se irremediavelmente, seguindo-se o domínio evidente de Babilônia.
b) O Período Neo-Babilônico
Em 608 A. C. Faraó Neco levou a cabo uma expedição ao Eufrates, e Josias, receando talvez pela liberdade do seu povo, saiu-lhe ao encontro e deu-lhe batalha em Megido. Os acontecimentos que se seguiram em Judá têm uma estranha semelhança com a de Israel nos últimos anos. Só um dos quatro restantes reis de Judá morreu de morte natural. Tal como os profetas Oséias e Isaías-um dentro e outro fora do reino-estiveram em contato com os acontecimentos de Israel, assim Jeremias e Ezequiel na luta final de Judá foram os mensageiros da palavra de Deus ao povo.
Depois da morte de Josias subiu ao trono seu filho Jeocaz, num reinado de curta duração, pois após três meses foi deposto, e exilado por Faraó Neco, que entregou o trono a seu irmão Jeoaquim. Jeremias compara a injustiça deste com o reto proceder do pai em relação aos pobres e necessitados (Veja: Jr 22.13-19). E das suas palavras se conclui, que neste reinado também se levantou uma onda de paganismo gigantesca e avassaladora. A série de reformas promulgadas não alteraram o espírito da nação. Quem se beneficiou foi o Egito, que imediatamente aproveitou a sua supremacia para influir nos ânimos mais tímidos.
Em 605 A. C. Neco perdeu a vida na batalha de Carquémis em luta com os babilônios. Judá foi subjugada e durante três anos Jeoaquim prestou vassalagem a Nabucodonosor, filho de Nabopolassar. Pouco depois Judá revoltou-se, mas, antes que Nabucodonosor interviesse para dominar a situação, faleceu Jeoaquim e subiu ao trono Joaquim, seu filho. Três meses mais tarde, em 597 A. C., capitulou e Nabucodonosor levou-o cativo para Babilônia, juntamente com as pessoas mais destacadas do país. Esse cativeiro durou trinta e cinco anos.
A capitulação do rei de Judá veio, no entanto, prolongar a vida de Jerusalém por mais dez anos. Matanias, tio do rei cativo, foi colocado no trono por Nabucodonosor que lhe mudou o nome para Zedequias. Em 594 A. C. surgem embaixadores dos pequenos estados vizinhos a solicitarem apoio para uma revolta comum. Isto deu azo à discussão travada entre Jeremias e Hananias, em virtude de o primeiro não ser favorável à dita revolta (Veja: Jr 28.1-7). No momento o motim não chegou a realizar-se, vindo, porém a suceder mais tarde no tempo de Faraó Hofra com um novo cerco a Jerusalém. Faraó. O resto do povo, conduzido por Joanã, dirigiu-se para o Egito e com ele seguiu Jeremias. Estabelecendo-se nas cidades fronteiriças, depressa foi posto de lado o culto DO SENHOR. É que os espíritos ficaram completamente transtornados após a destruição de Jerusalém. Quando Jeremias protestou contra o culto da Rainha do Céu, então freqüente entre os judeus no Egito, as mulheres logo replicaram que não podiam abandonar tal culto, uma vez que só a adversidade as perseguia, desde que seus pais deixaram de o praticar.
Dos primeiros cativos levados para Babilônia salientaram-se Daniel e seus companheiros, que, apesar de viverem na corte pagã, ficaram sempre fiéis ao culto DO SENHOR. De dois passos de Ezequiel (Veja: Ez 14.14,20) muitos concluem ser familiar à história de Daniel aos outros exilados, que lhes servia de exemplo.
O livro de Ezequiel fala-nos largamente dum grupo de judeus cativos que, levados com Joaquim, se tinham estabelecido num lugar chamado Tel-Abibe. O profeta era um membro desta colônia. Da carta que Jeremias lhes dirigiu (Veja: Jr 29) pode deduzir-se que gozavam de grande liberdade, pois é provável que vivessem em bairros próprios ou então num extenso território demarcado, onde não poderiam considerar-se prisioneiros no sentido rigoroso da palavra. Foram os anciãos que aí organizaram a vida social e religiosa, enquanto outros se entregavam livremente ao comércio, que prosperava cada vez mais, como podemos verificar pelos impostos que mais tarde foram lançados para a reconstrução do templo. Sob o aspecto religioso foi maior ainda o progresso. Longe de Canaã, nunca mais se deixaram seduzir pelos seus Baals. Nada poderia conduzi-los ao culto dos deuses dos vencedores assírios e egípcios. Graças à eficiente pregação de Ezequiel, e esquecidos os deuses de Babilônia, depressa era fácil regressar ao Deus de seus antepassados. Os sacrifícios não poderiam com facilidade ser oferecidos ao SENHOR, mas a oração substituí-los-ia. Guardava-se o sábado. Provavelmente lia-se a Bíblia com regularidade e em público, o que vinha fortificar os espíritos e contribuir para a divulgação da verdade. Era o princípio da sinagoga.
Em 561 A. C. morreu Nabucodonosor. Os três reis que lhe sucederam reinaram por períodos relativamente curtos. Julga-se que o último, Nabonido, se tenha retirado para a Arábia, depois de ásperas contendas com os sacerdotes. Tornou-se co-regente seu filho Baltasar. Alguns anos antes Ciro, governador de Chuchan, pequena província do Elã, revoltou-se contra Astíages, rei da Média, e iniciou uma série de conquistas. Espreitava-o, porém, a ambição desmedida da Lídia, da Babilônia e do Egito, que se apressaram a formar uma coligação contra ele. Creso, rei da Lídia, todavia, atreveu-se sozinho a enfrentá-lo e em 546 A. C. viu a sua capital Sardes invadida e todo o reino devastado. Ciro então voltou a Babilônia, que submeteu sem esforço, em 539 A. C. O gênio militar e outras virtudes guerreiras deste monarca entusiasmaram a imaginação dos escritores antigos. E assim termina o período babilônico com a subida ao poder do grande rei.
c) O Período Persa
Inicia-se este período por um fato importante: o do cumprimento das profecias da restauração. Ciro simpatizava-se com as aspirações religiosas dos diferentes povos do seu império. Conta Josefo, que chegou a proteger os judeus, só porque lhe tinham sido apresentadas as profecias de Isaías. Em 538 A. C. publicou mesmo um decreto autorizando-os a voltar e a reconstruir a sua cidade. Partiram nesse ano os primeiros cinqüenta mil, chefiados por Sesbazar.
Após sete meses de trabalhos intensos, estava restaurado o altar e já ali se ofereciam sacrifícios ao Senhor. Dois anos depois cavavam-se as fundações para a reconstrução do templo. Mas, devido à oposição da população local, as obras foram interrompidas até 520 A. C., e só se iniciaram de novo graças aos estímulos dos profetas Ageu e Zacarias. Zorobabel, neto de Joaquim, passou a governar o reino de Judá. O império persa via-se agora a braços com diversas revoltas que vieram ofuscar o alvorecer do reinado de Dario. Todas as atividades invulgares passaram então a ser objeto de suspeita. Tatenai, governador persa da Síria, mandou abrir um inquérito acerca da reconstrução do templo, e os judeus viram-se obrigados a recorrer à autoridade do decreto de Ciro, uma vez que a notícia confirmada chegara à corte persa. Dario, porém, atendeu às reclamações dos judeus, por serem justas e conformes à lei, e o templo ficou concluído em 516 A. C.
Nada mais se sabe dos restantes exilados, até que em 458 A. C. chega Esdras com um novo grupo vindo de Babilônia e portadores de consideráveis presentes para o culto do templo. É talvez melhor colocar o ministério de Malaquias neste período desconhecido antes do aparecimento de Esdras, do que propriamente na altura em que Neemias se encontrava ausente na Pérsia. Sendo assim, facilmente se compreende que a missão de Esdras e a obra reformadora de Neemias vêm completar a doutrina que encerram os livros, cujos autores são aqueles profetas.
Artaxerxes encarregara Esdras de organizar o culto do templo e de instruir o povo em conformidade com a Lei de Moisés. Catorze anos após a sua chegada, Neemias era nomeado governador da província e conseguiu restaurar as muralhas da cidade no curto espaço de cinqüenta e dois dias. Era o início da campanha reformadora, em que se empenhara, exterminando os abusos e fazendo uma aliança solene com o povo. Esta implicava, em princípio, a guarda da Lei Mosaica, a supressão dos casamentos com estrangeiros e do comércio ao sábado, e finalmente uma contribuição pecuniária para o culto do templo. A relação entre estas reformas, a que o povo se submetia, e as que Malaquias lhe pregava, dão a entender que aquela aliança pode ser considerada como o fruto da pregação do profeta.
Suas Doutrinas
a) A natureza de Deus
Podemos considerar a religião como uma tentativa eficaz para estarmos de boas relações com o supremo Poder do Universo. O caráter e o valor dessas relações, dependem muito do conceito que formamos do objeto do culto. Ao tempo da morte de Josué, embora Israel já tivesse entrado na Terra de Canaã, os seus habitantes ainda não tinham sido completamente dominados. As grandes tribos e muitos outros grupos organizados continuaram a lutar por mais algum tempo, com mais ou menos êxito. Mas gradualmente os invasores estabeleceram-se lado a lado com as outras populações e, esquecendo as ordens DO SENHOR, com elas se misturaram em casamentos e começaram a adorar os seus deuses. Ainda mesmo quando conservavam pura a idéia do monoteísmo, os seus pensamentos começavam a deixar-se influenciar pelas opiniões que os vizinhos pagãos formavam das suas divindades. É muito possível que alguns adorassem o verdadeiro Deus, apenas enquanto era um dos muitos a quem podia prestar-se culto. Pensavam, por exemplo, que para obter o auxílio divino era suficiente transportar a arca para a batalha (Veja: 1Sm 4.5), ou então oferecer sacrifícios, embora com a consciência manchada por uma conduta irregular (Veja: Os 8.12-13). Sendo estes os frutos da primeira apostasia, a missão dos profetas era a de tornar conhecida a natureza de Deus, ou antes dirigir de novo a atenção para ela e considerá-la melhor. Cada um utilizava um processo diferente, porque as mensagens dos profetas variavam conforme a sua experiência pessoal, as circunstâncias particulares de cada caso e a cultura daqueles a quem eram dirigidas. Mas há um conjunto de verdades primordiais, que mais ou menos constituem a doutrina dos profetas.
1) DEUS É O LEGISLADOR ONIPOTENTE DO UNIVERSO. É o Deus ou o Senhor dos Exércitos (Veja: Am 5.27). Quanto ao significado original desse epíteto, não é fácil descobrirmos se relaciona com o comando das tropas de Israel ou com os exércitos celestes. Nos últimos tempos, todavia, é possível que se refira a este último caso. As miríades de estrelas simbolizavam os exércitos dos céus, e o comando de tais estrelas implicava naturalmente a Onipotência (Veja: Is 40.26). A tradução da Septuaginta dá um equivalente exato: pantokrator. O poder de Deus não se manifestou só na criação. Todos os dias o podemos admirar espalhado pela natureza. Ele é o Criador dos confins da terra e não se esgota a Sua energia criadora (Veja: Is 40.28). Ele formou os corpos celestes e as massas rochosas das montanhas. Ele aciona os ventos, dirige a luz e orienta a chuva. O prado verdejante é um precioso dom de Deus. O míldio, os gafanhotos e outras forças ocultas de destruição obedecem às Suas ordens (Veja: Am 4). O poder do Senhor manifesta-se ainda, e em larga escala, em todos os acontecimentos da história humana. Foi Ele quem retirou os israelitas do Egito e os levou para além de Damasco; (Veja: Am 5.27), quem levou o povo da Síria para Quir, de onde o tinha retirado (Veja: Am 1.5; Am 9.7). A Assíria é a vara da Sua ira (Veja: Is 10.5). Foi Ele quem suscitou os caldeus para realizar os Seus desígnios, (Veja: Hc 1.6), e quem cinge Ciro para realizar o que Lhe agradar (Veja: Is 44.28; Is 45.5).
2) DEUS É QUEM GOVERNA MORALMENTE O MUNDO. Ele é santo, reto, justo e misericordioso. A palavra “santo”, referindo-se a Deus, atinge nos profetas um significado moral, enquanto O distingue do homem na sua existência e na sua essência como criatura. A intervenção DO SENHOR na vida dos homens e nas nações nada tem do capricho que freqüentemente se atribui aos deuses pagãos. Tudo contribui para o desenvolvimento do plano que desde a eternidade tem em vista. Todos os homens são iguais perante Ele. Ele está presente em toda a parte a observar a conduta dos homens, cujos segredos conhece, mesmo os mais íntimos pensamentos (Veja: Am 4.13). Quando castiga um país ou um indivíduo, é porque existe uma causa grave e não por mera bagatela como sucedia com os deuses olímpicos, que por uma insignificância, dizia-se, se iravam contra os homens. Há sempre um motivo: a violação da lei da justiça, que é comum a Deus e aos homens.
3) É O DEUS DA ALIANÇA COM ISRAEL. Enquanto criou e governa todas as criaturas Deus quis um parentesco especial e único com Israel e os seus habitantes. Vejamos: Escolheu-os de entre todas as nações da terra (Veja: Am 3.2); chamou-os do Egito e instruiu-os paternalmente (Veja: Os 11.1-4); deu-lhes a Lei para os orientar (Veja: Os 8.12); exortou-os a obedecerem aos mandamentos (Veja: Jr 11.7), etc. Mas o Seu povo revoltou-se contra Ele, expondo-se a sofrer graves conseqüências. Mesmo assim não o abandonou e manteve firme o plano previsto (Veja: Is 6.13; Mq 5.7-8). Deus só deseja o bem do Seu povo. Por isso não o entrega nas mãos dos inimigos, senão após inúmeros conselhos (Veja: Jr 25.4,11).
b) O Pecado E O Arrependimento
Os profetas denunciam o pecado em termos decisivos, mas não deixam de insistir no valor do arrependimento. Amós, apesar do realce que dá à justiça inexorável, em nome de Deus incita Israel a procurá-lo para viver (Veja: Am 5.4). Oséias alude à bondade divina e apela continuamente para que voltem para Aquele que é todo bênção e todo perdão (Veja: Os 14). Jeremias, seguindo as pisadas de Oséias, proclama em termos ameaçadores a condescendência e a compaixão de Deus (Veja: Jr 3.12). Isaías, cujo conceito de Deus é o mais elevado, declara que o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, habita também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos (Veja: Is 57.15). Noutro lugar frisa que Deus é grandioso em perdoar (Veja: Is 55.7). Também Ezequiel, que tão profundamente descreveu a majestade e a santidade de Deus para os exilados, assevera-lhes que esse Deus não deseja a morte do ímpio, mas que se converta dos seus pecados e viva (Veja: Ez 18.23). Tais mercês nem só a Israel são reservadas. Estranhos, como Ebede-Meleque, podem entrar na aliança e participar das bênçãos divinas (Veja: Jr 39.15 e segs.; Is 56.4-7) e até os confins da terra são convidados a procurar a salvação de Deus (Veja: Is 45.22).
Como orientadores ou chefes espirituais e religiosos, os profetas não tinham que escolher entre o seu Deus e a bondade. A doutrina que pregavam acerca do homem e dos seus problemas dependia diretamente da maneira como criam em Deus. Antes de tudo eram teólogos; e só em segundo lugar mestres e orientadores morais. Como Isaías, todos eram pecadores que alcançaram misericórdia e obtiveram o perdão, graças ao poder divino nele manifestado. Depois de pregarem Deus, a sua principal missão era a de convencer os homens de que eram pecadores, que deviam arrepender-se e deixar-se guiar pelo caminho da justiça. Por isso, as obras dos profetas não se apresentam como tratados sistemáticos, tal como os dos moralistas gregos. A doutrina dos profetas era de caráter acidental, a maior parte das vezes apresentada negativamente, na descrição e na denúncia do pecado. São, todavia, numerosos os casos de afirmações positivas, por exemplo em Mq 6.8, onde se resumem os principais deveres a cumprir.
Ao tratarmos do aspecto moral dum corpo de doutrina, é costume considerar-se o que se entende por sumo-bem, ou ideal; por virtude e por dever. Observando a doutrina moral dos profetas, fácil será verificar, que o sumo-bem é apresentado sob várias formas. Umas vezes, parece ser o conhecimento de Deus, outras a justiça, ou a graça divina concedida aos justos. Seja como for, há uma relação íntima entre todas estas formas. Sem o conhecimento de Deus, não é possível a justiça. Ora, enquanto a justiça implica a idéia do comportamento do homem perante o seu semelhante, na doutrina pagã não passa duma virtude de fundo muito variável; mas nos profetas, tem um sentido religioso. Ser justo é obter um voto favorável no tribunal de Deus. Em alguns casos a palavra chega quase a ter o significado de “prosperidade”. Daí, o condizer com o sumo-bem, que vem a ser a graça divina ou seja uma bênção não só espiritual, mas material também.
O pecado é que impede de se procurar e atingir o sumo-bem; afeta o culto e a conduta dos povos; conduz à idolatria e afasta as almas do caminho do bem apontado pelo SENHOR. Entre as personagens de maior destaque, merecedoras duma especial censura devida aos pecados cometidos, contam-se reis, políticos, sacerdotes, falsos profetas, comerciantes e chefes de família. Passemos agora a enumerar os principais pecados a que se faz alusão com freqüência:
1) PECADOS DO CULTO DE ADORAÇÃO. Estes pecados incluem a idolatria e todas as práticas que com ela andam associadas, a negligência no cumprimento dos deveres do culto, ou então uma atenção meramente externa com prejuízo do espírito da Lei (Veja: Ml 1.13; Os 6.6), e a profanação do sábado (Veja: Jr 17.19 e segs.).
2) PECADOS DE ORGULHO. Estes conduzem à descrença e à indiferença em relação às ordens DO SENHOR, originando nos tempos difíceis uma confiança ilimitada nos chefes políticos e no poderio das nações, com desprezo absoluto pelo poder que vem do alto (Veja: Jr 13; Is 9.9).
3) PECADOS DE VIOLÊNCIA E OPRESSÃO. Os profetas defendem a causa das classes desprotegidas: os pobres, os órfãos, as viúvas, os escravos, e falam contra as prepotências dos ricos e dos poderosos.
4) PECADOS DE LUXÚRIA E INTEMPERANÇA. Estes pecados, que por um lado levam ao não cumprimento dos deveres, por outro incapacitam os homens de os cumprir devidamente.
5) PECADOS DE MENTIRA E DE IMPUREZA. Pelo primeiro desaparece a confiança política, comercial e social; pelo segundo, arruinam-se os fins da vida familiar.
Segundo os profetas, as virtudes máximas do crente resumem-se a três: o arrependimento, a fé e a obediência a Deus. O arrependimento, que os profetas tanto pregam, implicando conhecimento do pecado, supõe um pesar por havê-lo cometido, que ao mesmo tempo obriga o homem a voltar-se para o bom caminho de Deus, enquanto se desvia do caminho da iniqüidade. A confiança em Deus é a fonte de energias para o cumprimento do dever, é o guia nas horas incertas, o conforto nas horas tristes, a prosperidade da vida espiritual. O conhecimento de Deus como Aquele que executa a paz, a justiça e a bondade na terra e se compraz nessa execução, é o que se recomenda acima de tudo (Veja: Jr 9.24). Em seguida, lembra-se que a prática da justiça, da misericórdia e da humildade (Veja: Mq 6.8) deve ser também do agrado do homem em obediência à vontade de Deus.
Quanto aos deveres a cumprir, poder-se-ia resumir a doutrina dos profetas com as palavras de Malaquias, que são o fecho do Velho Testamento: “Lembrai-vos da Lei de Moisés, Meu servo, a qual lhe mandei em Horebe para todo o Israel, e que são os estatutos e juízos” (Veja: Ml 4.4).
c) Profecias Sobre a Vinda do Messias
Há a registrar ainda um aspecto importante da obra dos profetas, que não deve ser esquecido, se porventura queremos analisar até que ponto os profetas contribuíram na preparação de Israel para poder participar na redenção da humanidade. Além de lembrarem o passado e o presente, não deixaram de dirigir a atenção do povo para o futuro. A idéia de um “dia do Senhor” em que Ele havia de manifestar-Se em todo o Seu poder não era nova no séc. VIII. Na crença popular, todavia, significava um tempo quando Israel triunfaria de seus inimigos. Os profetas, por outro lado, acentuavam que para um povo desobediente seria um dia de trevas e não de luz. Deus seria vingado pelo castigo de todas os transgressores, fossem pagãos ou israelitas, embora os privilégios e as bênçãos prometidos aos cumpridores da Lei não sejam distribuídos senão com um critério justíssimo.
Os profetas, no entanto, consideravam ainda outro aspecto, ao terem em vista o futuro que apontavam. É que não o faziam com o fim de aterrorizar os pecadores, lembrando-lhes a justiça retributiva DO SENHOR, mas por outro lado, revelava-lhes o plano de Deus em relação ao povo escolhido. Como as outras nações, também Israel tinha um ideal em vista, pelo qual a pregação dos profetas chamou a atenção para a verdadeira vocação do país e procurou exaltar os ânimos com a visão dum futuro glorioso, que de longe ultrapassaria a história do passado. Embora, por causa do pecado, o país tivesse de sofrer a perda do território nacional, do templo e da própria independência, não tardaria a oportunidade em que o povo seria purificado e enriquecido, após uma restauração vitoriosa, e iria instruir os outros povos no conhecimento do Senhor, orientando-os no caminho da justiça e da paz. Ora, o cumprimento de tais promessas vem quase sempre associado a uma Pessoa, apresentada sob diferentes formas, e ultimamente designada por Messias (Veja: Dn 9.25-26). Já tinha havido uma série de profecias relativas a essa Pessoa a começar pelas do Proto-evangelho (Veja: Gn 3.15), mas as que haviam de aludir mais diretamente ao Messias eram, sem dúvida, as dos profetas do séc. VIII em diante, que não se cansam de O apelidar Profeta, Sacerdote e Rei. É sobretudo nos últimos capítulos de Isaías que mais se desenvolvem os dons proféticos do Messias: É chamado desde o ventre (Veja: Is 49.1); a Sua boca é uma espada aguda, uma frecha limpa na aljava do Senhor (Veja: Is 49.2); O SENHOR dá-lhe uma língua erudita, para saber dizer a seu tempo uma palavra e todas as manhãs Lhe desperta o ouvido para que ouça, como aqueles que aprendem (Veja: Is 50.4); a Sua mensagem é dirigida aos mansos (Veja: Is 61.1), porque foi enviado a restaurar os contritos de coração e a proclamar a liberdade aos cativos, não só de Israel mas também dos gentios, pois levará a salvação até à extremidade da terra (Veja: Is 49.6); finalmente, confiado no braço do Senhor, o Messias prosseguirá tranqüilamente a missão de que é incumbido, apesar do desprezo e das perseguições (Veja: Is 49.7; Is 50.5-7).
Ser profeta entre as nações era, sem dúvida, a vocação de Israel, e o profeta por excelência só poderia sair de Israel. Mas há ainda outro aspecto a considerar. É que o Servo sairá vitorioso através do sofrimento e da dor. Ninguém Lhe dará crédito; será desprezado e incompreendido; levado à morte, mas sem um protesto; considerado um malfeitor, mas sem se opor nem defender; será atormentado pelos pecados do povo de Deus, e por eles oferecerá a alma ao Deus que o ressuscitará dos mortos para a justificação de muitos; pela morte será, pois, glorificado (Veja: Is 52.13-53.12). O Novo Testamento atribui estas palavras a um único indivíduo-Nosso Senhor Jesus Cristo-e não a uma nação inteira (cfr. At 8.35).
Depois do exílio, Zacarias fala dum sacerdote, que será ao mesmo tempo rei. É muito natural que se trate da mesma pessoa, embora os outros profetas não desenvolvam tão largamente esta idéia. Ela aparece, todavia, no Sl 110 e é o tema geral da Epístola aos Hebreus.
O rei Davi simboliza dum modo especial o Messias-Rei. Como? O Messias nasce dum dos ramos da árvore de Davi, embora em circunstâncias humildes (Veja: Is 11.1); é cumulado dos sete dons do Espírito, por isso só julga em conformidade com a conduta moral; como Juiz, é justo, reto e fiel; como Rei, subordinará as forças do mal, que irão sendo eliminadas à medida que o conhecimento de Deus se for espalhando pela terra; finalmente será o Salvador das nações e a Esperança de Judeus e de Gentios (Veja: Is 11). Ao contrário dos reis da terra, não usará da força para obter e defender o seu império. Não cavalgará sobre ginetes de luxo, nem utilizará carros imponentes. Montará um simples jumentinho e o Seu império estender-se-á de um mar a outro mar, e desde o rio até às extremidades da terra (Veja: Zc 9.9-10).
Muitos outros passos das obras dos profetas aludem às excelsas virtudes desse grande Legislador. Isaías chama-Lhe o Deus Forte (Veja: Is 9.6); Jeremias “O Senhor, Justiça Nossa” (Veja: Jr 23.6); Miquéias declara que as Suas saídas são desde os tempos antigos (Veja: Mq 5.2); Daniel vaticina-Lhe um domínio eterno, que não passará (Veja: Dn 7.14). Outros textos falam-nos da missão divina do Messias, sem que por isso impliquem uma realeza no sentido humano. Zacarias descreve-O como o companheiro do Senhor dos Exércitos (Veja: Zc 13.7) e Malaquias chama-Lhe o Anjo da Aliança que de repente virá ao Seu templo (Veja: Ml 3.1).
Acabamos de examinar algumas das muitas alusões ao Salvador nas obras dos profetas, mais que suficientes para provarem os traços gerais das profecias messiânicas, que a partir do séc. VIII começaram a trazer à luz, embora veladamente, a glória e esplendor celestial do Messias.
Veremos Agora As Particularidades De Cada Profeta Segundo Uma Fonte Secular de Conhecimento: A Enciclopédia Barsa.
Livros proféticos.
O último conjunto de livros do Antigo Testamento refere-se a uma das instituições mais antigas da cultura dos povos semíticos: a profecia. A própria convicção de acreditar-se povo escolhido por Deus já constituía uma premissa suficiente para o surgimento de profetas, como intermediários especialmente enviados para transmitir a palavra divina. Os profetas representaram um papel decisivo para a propagação da moralidade judaica e do monoteísmo. A filosofia mosaica determinou o caráter fundamental das profecias, que é seu conteúdo moralizante. O motivo central do discurso profético é o ataque à corrupção religiosa e social, vista como prenúncio de graves problemas para a nação. Na perspectiva, porém, do castigo anunciado, surge sempre à esperança de uma futura conversão, e da eterna fidelidade de Deus a sua aliança com Israel, garantia de felicidade perene, na era messiânica. As declarações dos profetas eram inicialmente verbais, mas a partir do século VIII a.C. passaram a contar com registros escritos.
O profeta, como homem que tem uma comunicação direta e imediata com Deus, recebe a revelação de seus desígnios, que julga o presente e prevê o futuro, e é enviado por Deus para conduzir os homens a seu amor. É por essas características que se considera Moisés o primeiro profeta, o maior de todos, que inaugura a linhagem dos herdeiros de seu dom, a começar por seu sucessor, Josué. O Antigo Testamento apresenta os profetas em duas grandes divisões: os maiores e os menores. No primeiro grupo figuram Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel. Os profetas menores, assim chamados não por serem considerados de menor importância, mas pela pouca extensão de seus escritos, são Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.
Profetas Maiores
As palavras de Isaías ressoam como uma profissão de fé em sua missão profética: “O espírito do Senhor Iavé está sobre mim, porque Iavé me ungiu; enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres, a curar os quebrantados de coração e proclamar a liberdade aos cativos, a libertação aos que estão presos…” Nascido em 765 a.C., aos 25 anos Isaías recebeu, no templo de Jerusalém, a missão de anunciar a ruína de Judá e Israel, em castigo pelas infidelidades de seu povo. A vida do profeta divide-se em quatro períodos: o primeiro vai do início de sua vocação até à posse do rei Acaz e como principal preocupação à corrupção do reino de Judá, nascida do luxo decorrente da prosperidade econômica; o segundo é o da oposição à aliança de Acaz com a Assíria e a retirada de Isaías da vida pública; o terceiro é também de oposição a qualquer aliança militar, e de exortação à confiança em Deus; o quarto marca-se pelo apoio ao rei de Judá em sua resistência ao inimigo e em seu apoio a Jerusalém.
O livro de Isaías compõe-se de duas partes: a primeira é uma advertência ao povo sobre os castigos decorrentes de sua impiedade; a segunda, uma apresentação das revelações da misericórdia de Deus em predição da vinda de um messias e seu reino “porque Iavé irá a vossa frente, o Deus de Israel será a vossa retaguarda (…) entregou a sua alma à morte e foi contado com os transgressores, mas na verdade levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores fez intercessão”. Por isso mesmo, o livro teve enorme influência sobre o Novo Testamento, que o cita textualmente mais de cinqüenta vezes.
Jeremias escreveu suas profecias entre os anos 620 e 590 a.C. e seu relato, embora não constitua uma autobiografia, dá a conhecer, como nenhum outro profeta, seu caráter e sua vida. Jeremias viveu no período trágico em que se consumou a ruína do reino de Judá. Dirigiu seus oráculos a todas as classes, aos sacerdotes, aos governantes e até às crianças. Os militares acusaram-no de derrotismo, pela força de suas profecias. Após a tomada de Jerusalém, permaneceu na Palestina, de onde foi obrigado a fugir para o Egito. Seu drama pessoal está não somente nos episódios catastróficos que foi obrigado a testemunhar, mas também na contradição entre sua índole pacífica e terna e a obrigação de lutar contra reis, sacerdotes e falsos profetas, e predizer tantas desgraças para seu povo.
O livro de Jeremias divide-se em quatro partes: as admoestações e ameaças; a salvação universal, em virtude da nova aliança; as profecias individuais; e as profecias das nações. A importância do texto decorre principalmente de sua concepção de Deus e da possibilidade de sua íntima união com o homem. A profecia de maior influência sobre o Novo Testamento é a da nova aliança, prometida por Iavé, “não como a aliança que selei com seus pais, no dia em que os tomei pela mão e os fiz sair da terra do Egito (…) porque esta é a aliança que selarei com a casa de Israel depois desses dias (…) porque vou perdoar sua culpa e não me lembrarei mais de seu pecado”. Para os cristãos, esse é um dos oráculos do Velho Testamento que prefiguram a vinda de Cristo.
Ezequiel foi um sacerdote de educação esmerada, mandado para o exílio por Nabucodonosor, em 597 a.C. Aos trinta anos, recebeu o chamado profético, e durante 25 anos exerceu sua missão. O livro de Ezequiel divide-se em quatro partes, além da introdução: a primeira contém repreensões e ameaças contra os judeus antes do cerco de Jerusalém; na segunda, o profeta estende as maldições divinas às nações infiéis e seus cúmplices; a terceira passa-se durante e após o cerco e está cheia de consolações; a quarta encerra uma previsão da era messiânica. Suas visões darão origem à corrente escatológica, com nítida influência sobre o profeta Daniel e sobre o Apocalipse de são João.
O profeta Daniel pertencia a uma família importante de Judá. Deportado para Babel por Nabucodonosor, conseguiu um posto na corte. Graças a sua fiel observância da lei de Deus, foi favorecido com uma grande sabedoria, e com a capacidade de interpretar sonhos e mistérios. O conteúdo principal do livro de Daniel é a narrativa dos sucessos por que passou o profeta: a conquista da confiança do rei; o sonho de Nabucodonosor e sua interpretação; Daniel com seus amigos Sidrac, Misac e Abdênago, lançados na fornalha, e sua caminhada ilesos no meio das chamas; a previsão, a partir de outro sonho, da loucura de Nabucodonosor; o festim de Baltasar com os cálices de ouro saqueados do templo, a interpretação das palavras aparecidas na parede e as previsões da tomada do reino por Dario e da morte de Baltasar; Daniel na cova dos leões, a mando de Dario, por força de intriga palaciana, e sua salvação miraculosa. O principal objetivo do livro foi sustentar a fé e a esperança dos judeus em meio às vicissitudes.
Profetas Menores
Os 12 livros dos profetas menores foram escritos durante um período muito extenso — do século VIII ao III a.C. — e por isso constituem fonte inestimável para o conhecimento da antiga civilização judaica, em seus aspectos sociais, religiosos e políticos. A ordem em que aparecem não é a mesma nas versões cristãs da Bíblia — a Vulgata e a Setenta — que por sua vez diferem da adotada pelo texto massorético. Em nenhuma das três a ordem observada é a cronológica. Na tradição hebraica, são conhecidos pelo nome de tere asar, que na língua aramaica significa 12, e estão colocados logo depois do livro de Ezequiel.
Oséias viveu no século VIII a.C., no reinado de Jeroboão II, que retomou os territórios anexados pela Assíria. No plano interno, apesar da prosperidade econômica, seu governo foi marcado pela corrupção e pela busca desenfreada de prazer e lucro. É nesse ambiente que Oséias — como também Amós — vai exercer sua atividade profética e anunciar o processo que Iavé vai abrir “contra os habitantes do país, porque não há fidedignidade, nem amor, nem conhecimento de Deus (…) aumentam o perjúrio, a mentira, o assassínio, o roubo e o adultério; sangue derramado soma-se a sangue derramado”.
O segundo dos profetas menores é Joel, que faz uma descrição da praga de gafanhotos que se abaterá primeiro sobre os campos e depois sobre a cidade, como castigo de Iavé. O país, que antes da praga era “como um jardim do Éden, depois dele será um deserto desolado”. Mas depois do flagelo, Iavé terá zelo e piedade: “Eis que vos envio trigo, vinho e óleo. Saciar-vos-ei deles. Não mais farei de vós um opróbrio entre as nações.” Em seguida, Iavé derramará seu espírito sobre todo o povo: “Vossos filhos e filhas profetizarão, vossos anciãos terão sonhos, vossos jovens terão visões.” E conclui com a promessa de que “Iavé habitará em Sião”.
Pastor e podador de sicômoros, a vida profissional de Amós, terceiro dos profetas menores, se revela em seu estilo, cheio de imagens retiradas da natureza e da vida campestre. Consciente da corrupção interna do reino de Jeroboão II, e de que a moralidade social é um fator determinante da vida de um povo, repreende as classes ricas, que exploram os trabalhadores. Em conseqüência desses pecados, “porque oprimis o fraco e tomais dele um imposto de trigo”, para proveito próprio, muitos castigos sobrevirão. O penúltimo capítulo do livro relata as visões de pragas de gafanhotos, seca, fome e luto; no último, vêm as perspectivas de recuperação e de fecundidade paradisíaca, em que as cidades serão restauradas, os habitantes “plantarão vinhas e beberão o seu vinho, cultivarão pomares e comerão os seus frutos”.
O livro que contém as profecias de Abdias, quarto dos profetas menores, consiste em um único capítulo, e é o menor da Bíblia. Sua profecia se apresenta em duas partes: o castigo de Edom, anunciado em pequenos oráculos dispersos pelo livro; e o dia de Iavé, em que Israel se vingará de Edom. O plano histórico em que desenvolvem essas profecias é o da invasão do sul da Judéia pelos edomitas, após a ruína de Jerusalém. Constitui na verdade um clamor de vingança, de espírito nacionalista, embora exalte a justiça e o poder de Iavé, a quem pertencerá finalmente o reino.
O livro de Jonas é atípico em relação aos outros profetas menores, por dois motivos: seu título não se refere ao autor, mas ao personagem principal; não apresenta fatos históricos, mas uma parábola. Jonas, encarregado por Iavé de pregar a penitência em Nínive, capital da Assíria, toma outro destino e embarca para Társis. Uma tempestade surpreende o navio, e os marinheiros suspeitam de que alguém atrai uma maldição divina. Jonas acusa-se, pede para ser lançado ao mar, é engolido por um grande peixe e cuspido na praia. Vai para Nínive, onde prega nas ruas, obtém o arrependimento do rei e do povo e assim evita o castigo. O livro é tido como uma preparação à revelação evangélica do amor de Deus, pela piedade demonstrada em relação a Jonas, salvo da morte, e a Nínive, salva da destruição.
Contemporâneo de Isaías, Miquéias é um homem do campo, conhece as agruras do trabalho na terra e as injustas relações de dominação que os donos impõem aos empregados. Por isso, investe contra “os que comeram a carne do meu povo, arrancaram-lhe a pele e quebraram-lhe os ossos”. Ameaça os usurários, que roubam os campos, tomam as casas, oprimem “o homem e sua herança”. O livro apresenta, em duas seqüências, as profecias de castigos e as promessas de salvação, e conclui por um apelo ao perdão divino, ao Deus que “tira a culpa e perdoa o crime, que calcará aos pés as nossas faltas e lançará ao fundo do mar todos os nossos pecados”.
Diferentemente dos profetas menores já citados, Naum dirige suas críticas apenas aos estrangeiros, contra quem roga a vingança de Iavé. Em atividade no século VII a.C., entre a queda de Tebas e a de Nínive, por ele prevista, o profeta é um apaixonado cantor da liberdade. Seu livro, de apenas dois capítulos, começa por um canto de glorificação a Iavé, como o deus vingador; seguem-se um poema satírico contra Judá e Nínive, ameaças e palavras de consolação a Israel; no final, um canto de lamentação fúnebre aos assírios, com o comentário de que todos os povos aplaudem sua desgraça, pois sobre todos se abatera continuamente sua maldade.
O oitavo profeta menor é Habacuc, cuja mensagem é uma profecia de salvação. O livro não traz nenhuma informação sobre sua pessoa nem sobre a época em que viveu. Compreende três capítulos: o primeiro é um protesto à vitória dos caldeus sobre Nínive e ao domínio da iniquidade no mundo; o segundo, também sobre Nínive, apresenta-se na forma de um diálogo entre Deus e o seu profeta, e traz uma série de maldições contra o opressor, em forma de duras críticas aos arrogantes, aos que acumulam o que não lhes pertence, aos que ajuntam ganhos ilegítimos e “constroem uma cidade com sangue e injustiça”; o terceiro é um apelo à intervenção de Iavé: “Espero tranqüilo o dia da angústia que se levantará contra o povo que nos ataca.”
Contemporâneo de Naum e dos primeiros anos de Jeremias, Sofonias profetizou em Judá, ao tempo do rei Josias. Seu livro segue a maior parte dos escritos proféticos, com antevisões de calamidades, oráculos contra povos estrangeiros e profecias de salvação. Em quatro capítulos, começa por uma longa série de anunciações do dia de Iavé em Judá, quando se levantarão urros e gritos, e os homens serão castigados. O segundo capítulo dirige-se contra as nações dos filisteus, moabitas, no ocidente, amonitas no oriente, etíopes no sul e assírios no norte. O terceiro concentra suas imprecações contra Jerusalém e o templo; a terceira prediz que o esplendor do segundo templo será maior que o do primeiro; a quarta é uma consulta aos sacerdotes sobre as impurezas que ameaçam o templo; a última, uma profecia da escolha de Zorobabel como eleito de Iavé.
As exortações à reconstrução do templo, proferidas por Ageu, encontram eco em seu contemporâneo Zacarias, sacerdote e penúltimo dos profetas menores. Seu livro contém três profecias: uma conclamação à conversão, quando então Iavé se voltará para seu povo; uma narração de visões noturnas; um apelo à continuação do jejum do quinto mês, comemorativo do incêndio do templo. Os oráculos, também em número de três, apresentam-se nessa ordem: a vinda do reino de Iavé, com a aniquilação dos poderes terrestres e o recolhimento dos israelitas dispersos; uma alegoria, que descreve o bom pastor, desprezado pelo rebanho, e o mau pastor, cuja morte iniciará um processo doloroso de purificação; e dois ataques contra Jerusalém.
O último dos profetas menores, Malaquias, viveu por volta do século V a.C. Há dúvidas se esse era mesmo seu nome, ou um designativo da função de mensageiro. O livro é um longo diálogo, iniciado com a palavra de Iavé, ou de seu profeta, que é contraditado pelo povo, ou pelos sacerdotes, e volta a afirmar o que dissera, de modo mais categórico. O diálogo se desenrola ao longo de seis alocuções, na seguinte ordem: Iavé assegura seu amor por Israel; censura os sacerdotes por seu desleixo nos sacrifícios; censura os judeus por seus matrimônios mistos, com “filhas de um deus estrangeiro”, e os divórcios; avisa que só virá como juiz depois que seu mensageiro purificar o sacerdócio e o templo; promete que tão logo os dízimos sejam pagos, pontual e integralmente, cessarão as pragas de gafanhotos e a perda de colheitas; promete também que no dia do juízo os justos serão recompensados e os pecadores castigados; finaliza com uma exortação à observância da lei de Moisés e com a previsão da vinda de Elias, o profeta, “antes que chegue o dia de Iavé, grande e terrível”.
Fonte: ©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.
O PROFETA ISAÍAS
Quem era Isaias?
Entre a “santa companhia dos profetas”, Isaías destaca-se como uma figura majestosa. Pela elevação e originalidade do seu pensamento, bem como pela qualidade superlativa do seu estilo, é único no Velho Testamento. Nenhum outro profeta há tão digno como ele de ser chamado “o profeta evangélico”. O seu nome significa “O SENHOR Salva” ou “O SENHOR é Salvação” e, em dias de crise e catástrofe sem precedentes na história do seu povo, exortava constantemente à fé nAquele que é o único que nos pode livrar. Em horas em que a esperança parecia morta, era uma inspiração e um repto para a coragem desfalecida dos homens de Judá: O seu ministério foi longo, desde a sua chamada à missão profética no reinado de Uzias, rei de Judá, através dos reinados de Jotão, Acaz e Ezequias, com um possível interlúdio de serviço no tempo de Manassés. Durante todos estes anos revelou-se um estadista que lia o significado geral dos acontecimentos nos grandes problemas políticos da época e também um profeta verdadeiramente designado e escolhido pelo Senhor para proclamar o propósito divino com convicção inabalável e coração ardente.
O nome de seu pai era Amós (Veja: Is 1.1; Is 2.1), segundo uma tradição judaica irmão do rei Amazias; nesse caso, Isaías seria primo do rei Uzias. Evidentemente que é impossível alguém pronunciar-se com certeza a respeito deste problema, mas há indicações nítidas de que Isaías desfrutava, de fato, de entrada imediata e regular na casa real, além de ter acesso às pessoas mais influentes do seu tempo. Apesar disso, continuou a ser um simples e indômito porta-voz DO SENHOR, motivo que-ainda segundo reza a tradição -levou à sua execução no reinado do ímpio Manassés. Era casado e chama a sua mulher “a profetisa” (Veja: Is 8.3); teve dois filhos, Sear-jasub (Veja: Is 7.3) e Maher-shalal-hash-baz (Veja: Is 8.3), cujos nomes constituíam prenúncio dos acontecimentos que se avizinhavam e reforçavam a mensagem do profeta. Fora disto, pouco mais se sabe da sua vida além do que o livro que tem o seu nome nos revela. Não é possível determinar com exatidão a duração do seu ministério; sabemos, porém, que, durante pelo menos 40 anos, continuou ativo, desde o último ano de Uzias, em 740 a.C., ao décimo quarto ano de Ezequias em 701 a.C., e que, durante todo este tempo, a sua mensagem e o repto que lançava aos seus contemporâneos foram inalteráveis e persistentes, fiéis a um propósito sempre claro e bem definido -estabelecer a adoração do Senhor em justiça e verdade entre a raça escolhida.
Sua Formação e influência.
A influência mais destacada e mais perdurável na vida de Isaías foi, sem dúvida, a sua chamada pessoal e direta ao ministério profético dentro do recinto do templo depois da morte de Uzias. Este acontecimento é registrado com uma beleza e um brilho tais que indicam claramente a forte influência que essa visão exerceu sobre ele através de todo o seu ministério. Provavelmente nada há em toda a literatura dos povos do Oriente que exceda a grandeza e dignidade deste trecho imortal, em Is 6. Ao entrar no recinto do templo, depara-se, de súbito, ao jovem Isaías esta visão solene e aterrorizadora- o Senhor nas alturas, o séquito celeste, os místicos serafins, o “chequiná” da santidade, a voz anunciando ao profeta, prostrado perante a majestade assim revelada, a missão de que era incumbido. No meio duma cena política conturbada e incerta, ele contempla, com todo o poder de uma revelação direta, o Senhor Deus entronizado nas alturas, e doravante pousa sobre ele o selo da Sua ordem. Não havia que fugir daí. Embora isso significasse que o profeta iria levar aos povos do seu tempo uma mensagem que não receberiam, não havia que fugir à glória da revelação assim outorgada. Foi deste modo que Isaías saiu do templo com uma nova visão e uma nova noção dos altos e santos perigos da missão que lhe fora confiada e da incumbência que ficava a seu cargo.
Antes desta experiência notável e decisiva, houvera o fruto do ministério de Amós e Oséias, o qual se devia encontrar ainda bem fresco na memória e experiência do jovem Isaías. Em épocas de crise nacional, houvera sempre em Israel, como em Judá, a mensagem do Senhor, numa ou noutra conjuntura, através da voz dos profetas, e nas palavras de Isaías descortinam-se vestígios dos elementos característicos das suas mensagens. Para alguém que resolvera firmemente no seu coração percorrer o caminho do Senhor, essas vozes deviam constituir uma inspiração incalculável, e as palavras calorosas e comoventes do profeta evangélico, ao apontar para o Redentor de todo Israel fazem lembrar os termos em que esses servos mais antigos DO SENHOR haviam proclamado a mensagem divina.
Além desses fatores, Isaías deve ter sido profundamente agitado pelos poderosos movimentos históricos do seu tempo. Durante o reinado do bom rei Uzias, Judá esteve em paz durante muitos anos e pouco conheceu das dificuldades que o reino do norte teve de enfrentar. Externamente havia paz e piedade, mas por debaixo, e no próprio âmago da vida da nação, havia desassossego e um afastamento pronunciado da realidade da adoração instituída no Concerto. (Ver Apêndice 1 de Reis, “A Religião de Israel no Período da Monarquia”). Fora da pátria, o horizonte apresentava já prenúncios sombrios de invasão e crise e, apesar de todos os eleitos, Isaías deve ter visto claramente, na fase mais formativa da sua vida, que, se não houvesse um movimento de regresso ao Senhor, a catástrofe era inevitável. Em certo sentido, todos nós somos produto do nosso ambiente; chegamos à hora de provação, ou para a enfrentar em toda a sua magnitude e determinar o seu curso, ou então para sermos moldados pela sua força titânica. No caso de Isaías, temos um dos exemplos mais frisantes de uma hora grave que encontrou um homem à sua altura, e de uma voz que se ergueu no próprio momento em que mais necessário era proclamar a mensagem de Deus.
Isaías pôde trazer à tarefa que foi chamado a desempenhar um dom extraordinário, uma felicidade de expressão e uma penetração que, sob a mão de Deus, se deveriam transformar no veículo das verdades mais íntimas e profundas da revelação. Assim, equipado de forma única para o ministério a que era chamado, e preparado na escola da experiência para a prova que se avizinhava, no ano em que o rei Uzias morreu e em que o trono, havia tanto ocupado com tal distinção, vagou uma vez mais, o profeta estava pronto para a alta missão do Senhor transcendente nas alturas, e não desobedeceu à visão celestial.
Cronologia histórica.
• 745-Tiglate-Pileser III ascende ao trono da Assíria.
• 740-Morte de Uzias. Jotão sucede-lhe no trono. Visão de Isaías, sendo o profeta incumbido de exercer o ministério do Santo de Israel.
• 736-Morte de Jotão. Acaz sucede-lhe no trono. O Reino do Norte alia-se à Síria para atacar Judá.
• 734-732-Tiglate-Pileser ataca e invade Israel e a Síria. Visita de Acaz a Damasco.
• 727-Ascensão de Salmaneser ao trono da Assíria substituindo Tiglate-Pileser.
• 725-Ezequias sobe ao trono, sucedendo a Acaz.
• 722-Ascensão de Sargom II ao trono da Assíria em lugar de Salmaneser. Tomada de Samaria. Cativeiro de Israel.
• 711-Sargom invade a Síria. Asdode é capturada.
• 709-Tomada da Babilônia.
• 705-Sargom assassinado; sucede-lhe Senaqueribe.
• 701-Senaqueribe invade Judá.
Os Reis de Judá que Isaías conviveu.
Isaías nasceu no reinado do bom rei Uzias, e foi no último ano da vida desse monarca que recebeu a chamada ao ministério profético. Por consenso geral, o caráter de Uzias era exemplar, mostrando em tudo um espírito de verdadeira piedade e desejo de honrar as coisas de Deus, embora, nos seus últimos anos, o rei fosse atacado de lepra devido a um ato de orgulho (ver 2Cr 26.16-21). Durante o seu reinado, toda a nação atravessou uma fase de prosperidade e desenvolvimento material e foi com dor que o seu povo o viu desaparecer da cena numa altura em que a sua presença parecia mais necessária. Promoveu-se a adoração DO SENHOR, mas o rei não foi suficientemente forte para conseguir que se destruíssem os altos, onde se celebravam práticas idólatras. O seu reinado classifica-se necessariamente entre um dos mais distintos do reino do Sul. Depois dele, subiu ao trono Jotão, seu filho, que já fora regente durante o isolamento de Uzias. Trilhou as mesmas veredas que seu pai, e sob o seu cetro o povo continuou a adorar o Senhor O SENHOR de acordo com os mandamentos, embora se permitisse que continuassem os “aserim” e locais onde se praticava a idolatria. Um observador superficial julgaria ver provas de devoção verdadeira e profunda, mas, na realidade, não era assim. Por toda à parte alastravam rápida e espontaneamente o luxo e a sensualidade, não sendo de surpreender que, em tal ambiente, o espírito da verdadeira piedade entrasse em rápido declínio (ver Apêndice I de Reis, “A Religião de Israel no Tempo da Monarquia”). Seguiu-se-lhe Acaz, cujo reinado foi, de princípio a fim, uma autêntica crônica de catástrofes e de destruição (ver 2Rs 16). Impetuosamente, Acaz empenhou-se em derrubar a forma estabelecida de adoração, quebrou os mandamentos em quase todos os seus pormenores, impediu a adoração no templo e acabou por fechar as portas da Casa de Deus. Deliberadamente, conspirou para obliterar a memória do culto do Senhor de todo o Israel, do Redentor, do Deus Santo. Todos os seus atos foram como que um aguilhão para o caráter devoto e franco do profeta Isaías que, em público, censurou o rei pelos seus atos extravagantes em matéria de religião, reprovando os seus pecados e apontando-o ao povo como inimigo do verdadeiro caminho. Isto de nada serviu; os seus avisos e conselhos foram desprezados pela nação, à frente da qual se encontrava o rei. Depois, veio Ezequias. Ao contrário de seu pai, Ezequias procurou de muitas formas restaurar a adoração no santuário; fez todos os esforços para abolir a idolatria e para libertar o povo que governava do poder do domínio estrangeiro. No seu reinado, começou-se a fazer justiça a Isaías, que passou a ser considerado com grande favor, sendo-lhe dadas todas as oportunidades de aplicar as suas penetrantes e divinamente inspiradas faculdades de discernimento à análise dos fatos da situação sua contemporânea. Mas as sementes da loucura passada da nação começavam agora a dar fruto, e era já tarde demais para pôr em prática reformas eficazes e salutares. Estava próximo o derrubamento de Judá, acontecimento havia muito profetizado par Isaías e que nada poderia deter.
Ver-se-á claramente, pois, que não foi fácil à tarefa do profeta durante o seu longo e ativo ministério. A missão que lhe foi confiada no dia da sua chamada ficou amplamente realizada, pois a mensagem que transmitiu foi, de fato, uma mensagem de condenação, e a profecia então feita, de que anunciaria a Palavra do Senhor mas que esta, embora ouvida seria incompreendida, teve cumprimento cabal. A glória da vida de Isaías é que não se esquivou ao problema quando recebeu a chamada. Através de todos aqueles anos sombrios, enquanto a nação caminhava sem parar e com rapidez crescente para o abismo e para a catástrofe, ele continuou a proclamar a mensagem do Senhor, mantendo-se firme como uma rocha da verdade no meio das marés e redemoinhos da infidelidade e irreligião do mundo.
Quem escreveu este livro?
– A Problemática Dos Capítulos 40-66
a) A questão em discussão é…
Esta parte importante do livro de Isaías há muitos anos que apresenta espinhosos problemas de ordem crítica, e nenhum estudo do livro no seu conjunto seria completo sem referência a este assunto. Há quase um século que se afirma, se põe em dúvida e se nega que tenha sido Isaías o autor dos capítulos 40 a 66. Esta seção do livro tem sido designada por nomes diversos, como “o Isaías Babilônico”, “o Deutero-Isaías” e “O Grande Anônimo”, que são já lugares-comuns na literatura. Muitos admitirão prontamente, com o Prof. A. B. Davidson, que tal problema “diz exclusivamente respeito aos fatos e à crítica, não constituindo matéria de fé ou prática”. Admitir-se-á talvez, também, que de ambos os lados o critério tem sido influenciado pela atitude do estudioso perante a profecia preditiva. Nesta breve introdução, a nossa finalidade será reproduzir tão objetivamente quanto possível os principais argumentos aduzidos em apoio das duas teses, visto nada se ganhar com votar ao desprezo a argumentação apresentada por aqueles que discordam de nós.
No Dictionary of the Bible, de Hastings, G. A. Smith escreve o seguinte: “Os capítulos 40 a 66 não têm título nem reivindicam Isaías como autor. Os capítulos 40 a 48 referem-se claramente à ruína de Jerusalém e ao exílio como fatos transatos. O autor dirige-se a Israel como se tivesse já passado o tempo da sua servidão em Babilônia, e proclama a libertação do povo eleito como imediata. Chama a Ciro o salvador de Israel, referindo-se-lhe como tivesse já encetado a sua carreira e sido abençoado com o êxito pelo SENHOR. Porquanto, como parte da argumentação a favor da divindade única do Deus de Israel, Ciro, “vivo, irresistível e já bafejado pelo triunfo, é apontado como prova insofismável de que se haviam começado a realizar as velhas profecias respeitantes à libertação de Israel. Em suma, Ciro é apresentado, não como predição, mas como prova do cumprimento de uma predição. Se não tivesse já aparecido em cena, e em vésperas de atacar Babilônia com todo o prestígio dos seus triunfos constantes, grande parte dos capítulos 40 a 48 seria ininteligível”. Há, assim, uma data bem nítida a atribuir a esses capítulos; devem eles ter sido escritos entre 555 a.C., data do advento de Ciro e 538 a.C., data da queda de Babilônia”.
Esta citação apresenta da forma mais lúcida o problema que tem de enfrentar todo aquele que estuda o livro de Isaías. Além disso, é de extrema importância assinalar os diferentes pontos de vista das duas principais divisões do livro. Nos capítulos 1 a 39, por exemplo, é evidente que o profeta se dirige à sua própria geração, levando a uma situação sua contemporânea à mensagem viva do seu Deus; mas os capítulos 40 a 66 dirigem-se a uma geração surgida século e meio mais tarde, os cativos de Babilônia. Não há dúvida de que o Espírito de Deus se poderia muito bem ter servido de Isaías para falar a uma geração vindoura e de que a predição constitui um elemento incontroverso na profecia. Todavia, aqueles que consideram estes capítulos como tendo sido escritos por um autor pertencente a uma data mais avançada afirmam que isso é forçar o critério e contrariar em grande parte o procedimento normal dos profetas de Israel, através dos quais a mensagem divina se fazia ouvir poderosamente em relação com situações vivas. Se os capítulos 40 a 48 se referem de forma tão evidente à ruína de Jerusalém e ao exílio como fatos já passados, não se deverá aceitar como provável, dizem eles, que a mensagem dirigida nesses versículos aos filhos de Israel proviesse de alguém que vivia no seu seio?
b) Argumentos a favor da unidade:
Dentro do âmbito deste trabalho, que não é de natureza especificamente crítica, não há possibilidade de proceder ao estudo pormenorizado deste problema. Todavia, talvez seja proveitoso resumir os aspectos principais de ambos os lados da questão.
A favor da unidade de Isaías é unânime toda a evidência invocável de fontes externas. A evidência externa é toda a favor da unidade do livro; só nos últimos cem anos é que o problema surgiu. Até então, a comunidade judaica e a Igreja Cristã consideravam, sem hesitar, todo o livro como procedente da pena de Isaías, filho de Amós. A Septuaginta não contém a menor referência a uma autoria dupla. Essa antiga convicção foi expressa de forma incomparável pelo filho de Siraque, que, referindo-se à história dos dias de Ezequias, diz que Isaías, o profeta, “viu por um espírito excelente o que se passaria no final; e confortou aqueles que choravam em Sião. Mostrou as coisas que aconteceriam até ao fim dos tempos, e as coisas escondidas antes de surgirem” (Eclesiástico 48.24-25).
A par disto há que mencionar os muitos trechos do Novo Testamento onde se faz referência a Isaías e se citam as suas palavras. “Isaías o profeta”, eis como se lhe chama independentemente da parte do livro citada. Quanto às referências, distribuem-se de forma quase igual entre as duas partes do livro, sendo as da parte final ligeiramente mais numerosas. Isto, em si, confirma a evidência externa e a tradição dos Pais da Igreja.
É sempre difícil avaliar a argumentação de base lingüística, e muito se tem discutido várias considerações suscitadas por palavras e frases comuns a ambas as partes do livro, bem como as que são peculiares a uma ou a outra dessas partes. É impossível analisarmos aqui este aspecto do problema, embora cumpra fazer alguns breves comentários sobre o significado da alusão ao SENHOR como “o Santo de Israel”. Esta expressão ocorre em ambas às partes de Isaías mas é difícil encontrá-la alhures no cânon bíblico. Trata-se de uma das designações mais notáveis de Deus comuns a ambas as seções, e de um assunto de importância primacial.
Não se deve confiar demasiado na evidência baseada em sutis e complexas distinções estilísticas e lingüísticas entre as duas partes. Dizer, por exemplo, que a palavra equivalente a “justiça” ocorre cerca de dezessete vezes na segunda parte e apenas quatro ou cinco na primeira; que as palavras correspondentes a “trabalho” ou “recompensa” se encontram cinco vezes na segunda parte e não ocorrem na primeira; que a palavra que significa “também”, ou algo de semelhante, aparece repetida nada menos de vinte e duas vezes na primeira e não ocorre na segunda; dizer tudo isso e muito mais pouco prova, visto ser fácil compilar um catálogo de palavras e expressões características de cada uma das partes do livro. A própria distinção entre essas duas partes no tocante ao respectivo tipo de mensagem dá origem a distinções de ordem lingüística. Enquanto que a primeira parte se caracteriza por tremenda energia e vigor, os capítulos 40 a 66 estão impregnados de emoção e de solene beleza, desdobrando-se nas asas de uma harmonia profunda e eterna. Como em toda a grande poesia, há trechos em que se nos deparam repetições e duplicações de frases; mas, para o estudioso objetivo, a própria grandeza da mensagem da redenção e da esperança messiânica, distinta da história direta ou de um rol de castigos que se avizinhavam para as nações circunjacentes, parecerá ser suficiente para explicar as diferenças de estilo e linguagem. Pelo que respeita ao estilo literário, até o Dr. Driver, que escolhe dezoito palavras ou frases nos capítulos 40 a 66, tem de largar mão de doze delas por haver trechos paralelos na primeira parte. Na realidade, a crítica sóbria tem afirmado que se exagerou imenso esta questão da diversidade de estilo. Verifica-se haver mais de trezentas palavras e expressões comuns às partes supostamente “anterior” e “posterior” de “Isaías” e que não têm qualquer lugar nas profecias mais recentes de Daniel, Ageu, Zacarias e Malaquias.
Outro elemento a ter presente neste estado e que parece favorecer a unidade do livro é que a cor local da segunda seção, como na primeira, é principal e notavelmente a da Judéia. A este respeito, vale a pena reproduzir a seguinte citação do Bible Handbook (página 502) de Angus e Greene (tradução portuguesa: “História, Doutrina e Interpretação da Bíblia”).
“Na paisagística do profeta entram rochedos, montanhas e florestas; os seus horizontes estendem-se até às ilhas do mar; os rebanhos são os de Quedar; os carneiros são os de Nebaiote; as árvores são cedros e acácias, pinheiros e buxos, os carvalhos de Basã e as alturas arborizadas do Carmelo. Sobretudo o terrível trecho que descreve a prolongada idolatria de Judá (Veja: Is 56.9-57.21) enquadra essa cena “nos vales das torrentes, sob as fendas dos rochedos, entre os calhaus do ribeiro”. “Como no solo plano, aluvial, da Babilônia não há torrentes mas apenas canais”, escreve o Deão Payne Smith, “também ali não há leitos de torrentes; no entanto, estes constituem um traço comum na paisagem da Palestina e de todos os países montanhosos”.
Não podemos passar levianamente por cima de evidência como esta, e a opinião do autor destas linhas é que a cor local presente é tão notavelmente palestiniana que pesa mais na balança do que quaisquer alusões aparentes a fatos e incidentes típicos da vida babilônica nos últimos capítulos.
Além disso, diga-se o que se disser acerca do resto dos últimos capítulos, os que contêm essa seção medonha em que se descreve a idolatria carnal de Israel afastam-se de forma tão completa de tudo o que sabemos acerca da Babilônia e do exílio judaico ali que devem ser identificados com outro local e época. É inegável que existiam muitos elementos na história pretérita de Israel e suas relações com as nações limítrofes que poderiam ser utilizados na elaboração destes trechos terríveis.
Há também que enfrentar este outro problema: como foi que um profeta tão distinto como o escritor de Isaías 40 a 66 desapareceu por completo no ouvido? Os cuidadosos registros da Igreja Hebraica nada dizem acerca de o livro de Isaías ter ainda outro autor. Em várias coletâneas, conforme se salientou, Esdras e Neemias figuravam juntos, mas os judeus jamais os confundiam, mantendo a sua identidade separada. Sem dúvida que seria um dos fenômenos literários mais espantosos de todos os tempos se o autor de um livro tão majestoso e tão sublime ficasse por nomear, e se a raça em cuja língua escreveu e cujos escribas eram tão exatos na sua compilação de registros o identificassem impensadamente com um dos seus maiores profetas.
Recentemente, os argumentos a favor da unidade do livro foram reforçados pela descoberta dos manuscritos do Mar Morto, nos quais não há qualquer solução de continuidade no manuscrito de Isaías entre o final do capítulo 39 e o princípio do capítulo 40, começando, até, o capítulo 40 na última linha da página. É claro que não se podem extrair daqui quaisquer conclusões definitivas, mas trata-se de um fato que deve ser considerado importante como elemento de uma argumentação cumulativa.
Para terminar, não sabemos ao certo em que circunstâncias decorreram os últimos dias da vida de Isaías. Ameaçado de morte às mãos do ímpio Manassés (Veja: 2Rs 21.16), é muito possível que se visse forçado a retirar-se da cena pública para o abrigo de qualquer refúgio obscuro-uma situação algo semelhante àquela em que João escreveu o livro do Apocalipse na ilha de Patmos. Também João mergulhava o olhar no futuro e registrava o que via. Por que não poderia o profeta Isaías, filho de Amós, frente ao declínio da religião autêntica na sua própria cidade de Jerusalém, “o lar dos eleitos de Deus”, ser levado pelo Espírito do Senhor a ver e afirmar a esperança imperecível dos verdadeiros filhos de Sião e a proclamar às gerações vindouras a salvação incomparável oferecida pelo seu Deus?
c) Argumentos contra a unidade:
Deve-se, porém, admitir que a opinião dos críticos é preponderantemente contrária à unidade do livro. De fato, o Professor W. L. Wardle, escrevendo no “Comentário” do Dr. Peake, vai ao ponto de dizer acerca destes últimos capítulos de Isaías: “Nenhuma conclusão crítica é mais certa do que a de pertencerem a uma época posterior”. A evidência a favor desta opinião pode-se sintetizar como se segue.
De todos, o maior problema reside na mudança de situação, tempo e lugar verificada no capítulo 40. Tudo leva a crer que as profecias que ali se iniciam parecem dirigir-se aos filhos cativos de Israel em Babilônia e numa fase do cativeiro em que a libertação parecia iminente. Se estas palavras procedem da pena de Isaías, é óbvio que ele já não é um pregador da justiça para a sua própria geração, mas um vidente arrebatado a um plano de visão de onde contempla os acontecimentos que terão lugar século e meio mais tarde. As suas mensagens proféticas tornam-se, assim, um autêntico legado para as gerações vindouras, e não proclamações inspiradas de um homem arrastado na maré dos acontecimentos contemporâneos, juntamente com os seus irmãos.
É óbvio que nada há de impossível nisto, embora seja algo diferente da prática costumeira dos profetas. Enquanto que muitos admitirão prontamente que a predição é parte essencial e integrante da profecia, no entanto parece-lhes que enfrentar assim uma situação que só surgiria volvido século e meio é tão excepcional que se torna altamente improvável na ausência de provas concludentes em contrário. Numa nota suplementar ao seu trabalho sobre Isaías, o Professor Cheyne cita as palavras proferidas pelo Deão Bradley perante a Universidade de Oxford, em 1875, onde esboça esta opinião preditiva em termos bem vívidos:
“O Isaías”, diz ele, “do tempo crítico e conturbado de Acaz e de Ezequias é, ao que se supõe, transplantado nos seus últimos dias pelo Espírito de Deus para uma época e região diferentes das suas… Em visão prolongada e solitária, é conduzido a um país cujo solo nunca pisou, e a uma geração que jamais contemplou. Desvaneceram-se e desapareceram cenas e rostos familiares rodeado dos quais vivera e trabalhara. Reduzem-se ao silêncio todos os sons e vozes do presente, e já não o impelem os interesses e paixões a que se consagra com toda a intensidade da sua raça e caráter. O presente fenecera no horizonte da visão da sua alma… As vozes que lhe soam aos ouvidos são de homens ainda por nascer, e vive uma segunda vida entre acontecimentos e pessoas, pecado e sofrimento, receios e esperanças, fotografados por vezes com a mais rigorosa exatidão no seu espírito sensível e compassivo; Isaías transforma-se no denunciador dos pecados característicos de uma geração distante, e no porta voz da fé, esperança e anseios veementes de uma nação exilada, descendente dos homens vivos na altura em que escrevia rodeado da paz profunda de uma prosperidade renovada”.
Quando estudamos os trechos que se referem ao estado contemporâneo da nação, é normal presumir que as palavras que lemos são de alguém que vivia naquela altura. Mas esta posição inverte-se por completo se aceitarmos a unidade de Isaías. Se os capítulos 40 a 48 tivessem chegado anonimamente até nós, nada mais natural do que serem atribuídos à época do cativeiro. No capítulo 41, o escritor, em pinceladas firmes, aborda uma situação histórica que é em breve delineada com extrema clareza. Ciro, o libertador, é apresentado como um vulto de projeção mundial, e em Is 44.24-45.25 depara-se-nos toda uma série de profecias que se relacionam com a sua obra e missão. Argumenta-se que, se trata de escritos preditivos do Isaías de Jerusalém, temos aqui uma proclamação absolutamente excepcional sem paralelo em toda a restante literatura profética. Neste contexto, frisa-se também que em parte alguma estes capítulos reivindicam a autoria de Isaías, encontrando-se, até, separados do resto do livro nitidamente seu por uma narrativa histórica de certa extensão.
Na sua recente análise de todo este assunto, o Professor C. R. North estuda em pormenor o Servo Sofredor do “Deutero-Isaías”. Enquadram-se bem aqui duas citações: “Enquanto se julgou que o Livro de Isaías era, na sua inteireza, obra de um profeta do oitavo século, nada mais natural do que presumir que as partes que têm o exílio como pano de fundo fossem profecia no sentido preditivo da palavra. Por conseguinte, parecia óbvia a interpretação messiânica do Servo. Mas, mal se começou a falar num Isaías de Babilônia, os investigadores cristãos passaram a adotar o ponto de vista que havia muito prevalecia entre os judeus, a saber, que o Servo era a nação de Israel”. (Do capítulo intitulado: “Interpretações Cristãs: de Doederlein a Duhm”). A página 207, escreve ele: “A objeção fundamental à interpretação tradicional messiânica é a de esta se encontrar ligada a uma doutrina demasiado mecânica da inspiração, o que parece arredá-la como indigna de consideração séria. O profeta é um mero amanuense, e aquilo que escreve nada tem que ver com as condições do seu tempo. Além disso, se isso implica que ele viu antecipadamente Alguém que só nasceria cinco ou seis séculos depois, surge o difícil problema filosófico da possibilidade ou impossibilidade de uma autêntica previsão da história”.
Trata-se de afirmações de amplitude tal que exigem estudo muito mais profundo e pormenorizado do que o possível na presente obra. No entanto, exprimem de forma sucinta e enfática o ponto de vista da escola crítica a respeito do problema vertente. Pode-se perguntar com justiça, porém, se deverá considerar adequada uma doutrina da inspiração que não inclui a possibilidade da visão profética até aos últimos recantos da história. Além disso, não foi à esperança messiânica uma das mais poderosas influências que moldaram, preservaram e purificaram o espírito de Israel? Poderia existir tal esperança sem previsão profética?
Salienta-se freqüentemente que, além de Ciro ser apresentado como um fato da história patente perante os seus olhos, esse fato é citado como prova da realização de profecias de longa data. É ele que torna difícil aceitar o argumento de que, aqui, o profeta se serve do chamado “perfeito profético” -ou seja, que, no calor do seu discurso, e na certeza da realização futura de certas coisas, empregava uma linguagem que implicava terem-se já cumprido os acontecimentos a que faz referência. George Adam Smith formula este argumento como se segue:
“Não é só que a profecia, com o que poderia ser mero ardor visionário, apresenta o Persa como erguendo-se já acima do horizonte, na maré alta da vitória mas que, no decurso de sóbria argumentação a favor da divindade única de Deus de Israel-argumentação essa que se desenrola dos capítulos 41 a 48-Ciro, vivo e irresistível, e já bafejado pelo triunfo, com Babilônia prostrada a seus pés, é apontado como prova insofismável de que se haviam começado a realizar as velhas profecias respeitantes à libertação de Israel. Em suma, Ciro é apresentado, não como predição, mas como prova do cumprimento de uma predição. Se não tivesse já aparecido em cena, e em vésperas de atacar Babilônia com todo o prestígio dos seus tempos constantes, grande parte de Isaías 41 a 48 seria completamente ininteligível”.
Deixando agora o estudo da citação histórica, pode-se notar que a própria evidência constituída pela falta aparente de cor local típica de Babilônia é apresentada como um forte argumento a favor de uma data coincidente com o exílio. Os exilados de todos os tempos e de todas as raças têm o costume de viver rodeados do espírito do lar por que anseiam. O próprio desgosto que lhes pesa no coração torna-lhes impossível transformarem-se em verdadeiros cidadãos de uma cidade estrangeira, e instintivamente surgem pensamentos relacionados com uma cena diferente. O mesmo aconteceria com os judeus, banidos como foram de Sião, cidade do seu Senhor. Além disso, teriam presente grande parte da sua literatura, cuja beleza e grandiosidade impregnaria a sua alma. Isto, e não as planícies estéreis, planas, do país do seu cativeiro, seria a fonte da sua inspiração quando falavam.
Tudo isto é bem evidente. Mas há quem afirme também que se exagerou muito a ausência de cor local nas profecias de Isaías. Aqui temos, por exemplo, uma afirmação nesse sentido: “… vislumbres constantes de luz e sombra babilônica que se projetam em nosso caminho-os templos, as casas onde se faziam ídolos, as procissões de imagens, os adivinhos e astrólogos, os deuses e altares especialmente mantidos pelo espírito mercantil característico da terra; a navegação daquele empório internacional, as multidões dos seus mercadores; o relampejar de muitas águas e, até, o brilho intolerável que é uma maldição tão freqüente dos céus da Mesopotâmia (Veja: Is 49.10)… Os animais que o profeta menciona têm, na sua maioria, sido reconhecidos como familiares em Babilônia; e, posto que o mesmo se não possa dizer das árvores e plantas que ele nomeia, observou-se que os trechos em que ocorrem são justamente aqueles em que os seus pensamentos se encontram fixados na restauração da Palestina” (G. A. Smith. The Book of Isaiah, II, págs. 13 e segs.).
Finalmente, assevera-se que o contraste entre Jeremias e o livro de Isaías pelo que respeita à forma de predição do cativeiro é inteiramente único se, de fato, os capítulos 40 a 66 forem anteriores ao exílio. Jeremias falava do exílio e da certeza da libertação, mas sempre no futuro. Predisse aberta e nitidamente ambos estes acontecimentos, mas com uma reserva e reticência de pormenores que, segundo se diz, são inteiramente inexplicáveis se estes últimos capítulos de Isaías tivessem sido já escritos, e por um profeta tão destacado. O apelo do profeta dirige-se a um povo que sofre há muito sob a mão do Senhor; e é a homens e mulheres cuja consciência fora avivada e tornada sensível à sua culpa pelo poder punitivo das provações e do desgosto que é dada à esperança da libertação, sendo Ciro, o libertador, proclamado como instrumento do seu Deus.
d) Síntese da evidência
A favor de uma autoria dividida, vimos que o livro não contém qualquer evidência diretamente explícita que prove ter sido inteiramente escrito pelo próprio profeta; que os capítulos 40 a 66 em parte alguma reivindicam a autoria de Isaías, e que apresentam o exílio, não só como um acontecimento transato, mas também como próximo do seu fim, com Ciro prestes a provocar a queda da Babilônia. Além disso, a restante evidência existente-linguagem e estilo, teologia e ponto de vista da mensagem do profeta de forma alguma entra em conflito com a teoria de uma data ulterior. Há um outro problema para o qual alguns estudiosos chamaram a atenção, o de uma teoria demasiado mecânica da inspiração, que põe o profeta a escrever acerca de coisas sem relação com o seu tempo e a falar do Servo sofredor de Deus como Alguém muito distante da cena contemporânea.
Por outro lado, notamos que a evidência externa favorece inteiramente a unidade do livro; que o argumento da linguagem milita tanto a favor dessa unidade como do seu oposto, se não mais; que a cor local é predominantemente a da Judéia; que há certos passos nos capítulos 40 a 66 que, até do ponto de vista crítico, devem ser anteriores ao exílio; e que é difícil explicar o desaparecimento de autor tão notável do palco da história e do campo da literatura.
No primeiro parágrafo desta seção, tivemos ensejo de nos referir ao ponto de vista do Dr. A. B. Davidson. Eis como ele formula a sua conclusão final: “Tais problemas deveriam ser mantidos o mais afastados possível de toda a interferência com os artigos de religião. Como poderá afetar a condição religiosa de cada um o fato de se crer ou não que seja Isaías o único autor das profecias que lhe são atribuídas, ou de se lhe acrescentarem outros autores? Seja-me permitido dizer que acho que devíamos repudiar e sentirmo-nos ofendidos com as tentativas que se fazem para transformar este problema num artigo de fé religiosa, e procurar formulá-lo de modo que se não transforme em tal”.
Embora seja assim, permanece o fato que “a aceitação quase unânime, durante vinte e cinco séculos, da autoria de Isaías para todo o livro conhecido pelo seu nome só pode ser explicada pelo fato de tal opinião estar plenamente de acordo com o conceito da profecia apresentado na Bíblia em geral” (O. T. Allis, “The Unity of Isaiah”, página 122). Se aceitar a predição como elemento fundamental da mensagem do profeta; se ao dirigir-se aos seus contemporâneos, ele aponta para Aquele que deveria nascer; e se, para ilustrar os poderosos movimentos providenciais da história, Deus o faz ver antecipadamente o que vai suceder para que ele possa pregar com maior efeito ao seu povo, e também para que a crônica de épocas subseqüentes possa autenticar a mensagem profética então é inevitável concluir que o livro de Isaías é indivisível.
Profecias Messiânicas
Como estamos estudando sobre os profetas maiores e, especialmente o profeta Isaias, podemos observar na continuação do estudo, como é que ele fala sobre a vinda do “Messias”.
A Vinda do Senhor Jesus Cristo – o Messias – como salvador da humanidade, bem como sua obra e sofrimento foram profetizados muitos séculos antes do Seu nascimento. Deus usou homens santos para predizerem detalhadamente como seria o Messias, sua vinda e manifestação do Reino dos céus. Como sabemos, o Messias foi rejeitado e morto pelos judeus. Ressuscitado, está ao lado do Pai e em breve retornará para conduzir os eleitos à morada eterna.
A seguir, conheça as profecias e os livros onde estão narradas, bem como, o seu cumprimento descrito no Novo Testamento. Observe bem as passagens proféticas do Livro de Isaias.
Profecia: Onde:
Cumprimento:
Como Filho de Deus Sl 2.7 Lc 1.32,35
Como descendente de mulher Gn 3.15 Gl 4.4
Como descendente de Abraão Gn 17.7; 22.18 Gl 3.16
Como descendente de Isaque Gn 21.12 Hb 11.17-19
Como descendente de Davi Sl 132.11; Jr 23.5 At 13.23; Rm 1.3
Sua vinda em tempo certo Gn 49.10; Dn 9.23,25 Lc 2.1
Seu nascer de uma virgem Is 7.14 Mt 1.18; Lc 2.7
Ser chamado Emanuel Is 7.14 Mt 1.22,23
Nascer em Belém Mq 5.2 Mt 2.1; Lc 2.4-6
Grandes viriam adorá-lo Sl 72.10 Mt 2.1-11
Matança dos meninos de Belém Jr 31.15 Lc 2.16-18
Ter chamado do Egito Os 11.1 Mt 2.15
Ser precedido por João Is 40.3; Ml 3.1 Mt 3.1-3; Lc 1.17
Sua unção com o Espírito Sl 45.7; Is 11.2, 61.1 Mt 3.16; Jo 3.34;
At 10.38
Ser profeta semelhante a Moisés Dt 18.15-18 At 3.20-22
Ser sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque Sl 110.4 Hb 5.5,6
Sua entrada no ministério publico Is 61.1,2 Lc 4.16-21, 43
Se ministério iniciado na galiléia Is 9.1,2 Mt 4.12-16, 23
Sua entrada publica em Jerusalém Zc 9.9 Mt 21.1-5
Sua vinda ao templo Ag 2.7,9; Ml 3.1 Mt 21.12; Lc 2.27-32;
Jo 2.13-16
Sua pobreza Is 53.2 Mc 6.3; Lc 9.58
Sua humildade e falta de ostentação Is 42.2 Mt 12.15,16,19
Sua ternura e compaixão Is 40.11; 42.3 Mt 12.15, 20; Hb 4.15
Sua ausência de engano Is 53.9 1Pe 2.22
Seu zelo Sl 69.9 Jo 2.17
Sua pregação por parábola Sl 78.2 Mt 13.34,35
Seus milagres Is 35.5,6 Mt 11.4-6; Jo 11.47
Ter sido injuriado Sl 22.6; 69.7,9,20 Rm 15.3
Ter sido rejeitado por seus irmãos Sl 69.8; Is 63.3 Jo 1.11; 7.3
Ser uma pedra de escândalo aos judeus Is 8.14 Rm 9.32; 1Pe 2.8
Ter sido odiado pelos judeus Sl 69.4; Is 49.7 Jo 15.24,25
Ter sido rejeitado pelos lideres judeus Sl 118.22 Mt 21.42; Jo 7.48
Os judeus e os gentios, contra Ele Sl 2.1,2 Lc 23.12; At 4.27
Seria traído por um amigo Sl 41.9; 55.12-14 Jo 13.18-21
Seus discípulos O abandonariam Zc 13.7 Mt 26.31-56
Seria vendido por trinta moedas Zc 11.12 Mt 26.15
Seu preço seria dado pelo campo do oleiro Zc 11.13 Mt 27.7
A intensidade de seus sofrimentos Sl 22.14,15 Lc 22.42,44
Seu sofrimento em lugar de outros Is 53.4-6,12 Mt 20.28
Sua paciência e silencio sob os sofrimentos Is 53.7 Mt 26.63; 27 12-14
Ser esbofeteado Mq 5.1 Mt 27.30
Sua aparência maltratada Is 52.14; 53.3 Jo 19.5
Terem-No cuspido e flagelado Is 50.6 Mt 14.65; Jo 19.1
Cravação de seus pés e mãos à cruz Sl 22.16 Jo 19.18; 20.25
Ter sido esquecido por Deus Sl 22.1 Mt 27.46
Ter sido zombado Sl 22.7,8 Mt 27.39-44
Mel e vinagre ser-Lhe-iam dados Sl 69.21 Mt 27.34
Suas vestes seriam divididas e sortes lançadas Sl 22.18 Mt 27.35
Seria contado com os transgressores Is 53.12 Mc 15.28
Sua intercessão pelos Seus assassinos Is 53.12 Lc 23.34
Sua morte Is 53.12 Mt 27.50
Nenhum dos Seus ossos seria quebrado Ex 12.46; Sl 34.20 Jo 19.33,36
Seria traspassado Zc 12.10 Jo 19.34,37
Seria sepultado com o rico Is 53.9 Mt 27.57-60
Não veria a corrupção Sl 16.10 At 2.31
Sua ressurreição Sl 16.10; Is 26.19 Lc 2.6,31,34
Sua ascensão Sl 68.18 Lc 24.51; At 1.9
Seu assentar à direita de Deus Sl 110.1 Hb 1.3
Seu exercer o oficio sacerdotal, no céu Zc 6.13 Rm 8.34
Seria a pedra principal da igreja Is 28.16 1Pe 2.6,7
Seria Rei em Sião Sl 2.6 Lc 1.32; Jo 18.33-37
Conversão dos gentios a Ele Is 11.10; 42.1 Mt 1.17-21; Jo 10.16;
At 10.45-47
Seu governo reto Sl 45.6,7 Jo 5.30; Ap 19.11
Seu domínio universal Sl 72.8; Dn 7.14 Fp 2.9-11
A perpetuidade de Seu reino Is 9.7; Dn 7.14 Lc 1.32,33
Fonte: Bíblia Vida Nova

NOTA ARQUEOLÓGICA: O ROLO DE ISAÍAS.
Até onde sabemos, todos os exemplares originais da Bíblia foram perdidos. A Bíblia que hoje temos foi feita de cópias de cópias. Até a invenção da imprensa, em 1454 d.C., essas cópias eram feitas à mão.
Os livros do AT foram escritos em hebraico (uns pequenos trechos em aramaico). Os livros do NT foram escritos em grego. Os manuscritos mais antigos que temos da Bíblia inteira datam dos séculos IV e V d.C.. São escritos em grego e contêm, quanto o AT, a Septuaginta – uma tradução grega do AT hebraico feita no século III a.C.
Os manuscritos mais antigos que conhecemos dos livros do AT foram feitos por volta de 900 d.C. Baseia-se neles o que é chamado Texto Massorético, e a partir destes foram feitas às traduções em português dos livros do AT. O Texto Massorético proveio de uma comparação de todos os manuscritos, transcritos de cópias anteriores por muitas linhagens de diferentes escribas. Entre esses manuscritos, existem variações tão pequenas que os hebraístas concordam geralmente entre si no sentido de que o texto bíblico, conforme atualmente temos, é essencialmente idêntico aos dos próprios livros originais.
Posteriormente, em 1947, em Ain Fashkha, quase 12 Km ao sul de Jericó e 1,6 Km a oeste do Mar Morto, alguns beduínos, enquanto levavam mercadorias do vale do Jordão até Belém, tiveram que procurar uma cabra perdida num uádi (leito de riacho ou rio) que deságua no Mar Morto. Ao fazê-lo, eles depararam com uma caverna parcialmente desmoronada, na qual descobriram vários jarros danificados, de dentre dos quais projetavam-se extremidades de rolos. Os beduínos arrancaram os rolos e os passaram adiante ao mosteiro Siro-Ortodoxo de São marcos, em Jerusalém, que os entregou as escolas americanas de Pesquisas Orientais. Esses rolos, e outros tantos que posteriormente foram descobertos na mesma vizinhança de Qumran, são conhecidos por rolos do Mar Morto.
Um desses rolos foi identificado como o livro de Isaías, um exemplar escrito há 2 mil anos – mil anos mais antigo que qualquer manuscrito conhecido de qualquer livro do AT hebraico. Trata-se de um rolo escrito em hebraico, usando letras antigas, com quase oito metros de comprimento, composto de folhas de 25 por 38 cm costuradas umas as outras. Foi feito no século II a.C..
Esse rolo e outros tantos tinham sido originalmente lacrados em jarros de barro. Segundo parece, faziam parte de uma biblioteca judaica que alguém escondera nessa caverna isolada em tempos de perigo, talvez durante a conquista da Judéia pelos romanos.
Os estudiosos bíblicos concluíram que as cópias do livro de Isaías nos rolos do Mar Morto são essencialmente idênticas ao livro de Isaías das nossas Bíblias – trata-se de uma voz proveniente de 2 mil anos atrás que vem confirmar a integridade de nossa Bíblia, ao todo, 22 cópias manuscritas do livro de Isaías foram achadas em Qumran, embora nem todas estejam em perfeito estado de conservação.

Com freqüência somos indagados: Como saber se a Bíblia que temos nas mãos chegou até nós com exatidão? Considerando que os manuscritos de hoje são cópias de cópias, como saber se o texto foi transmitido com exatidão?
A descoberta dos rolos do Mar Morto confirmou que o texto do Antigo Testamento não mudou substancialmente no decorrer dos séculos.
Em março de 1947, um pastor beduíno, à procura de uma cabra perdida perto do mar Morto, jogou uma pedra para exortar outros animais e ouviu o som de algo quebrar-se. Foi buscar um companheiro, e juntos entraram em uma caverna onde viram diversos grandes jarros contendo rolos de couro e papiros enrolados em panos. Contrabandearam-nos pela fronteira entre Israel e Jordânia que existia naquele tempo, e encontraram um comerciante de antiguidades em Belém, que os comprou por preço mínimo. O comerciante contou a respeito dos rolos a um erudito sírio em Jerusalém, o qual não conseguiu identificar a idade nem o significado deles. O sírio adquiriu alguns dos manuscritos e guardou-os no mosteiro de São Marcos na velha Jerusalém.

ÉCOLE BIBLIQUE, instituição dominicana francesa em Jerusalém, dedicada ao estudo bíblico e arqueológico. Um professor holandês visitou o mosteiro, examinou um dos textos e reconheceu tratar-se de um exemplar antigo do profeta Isaias. Quando contou aos colegas da ÉCOLE BIBLIQUE, garantiram-lhe que nenhum manuscrito tão antigo poderia ainda existir, por isso o assunto foi abandonado.
Finalmente dois bibliotecários da Universidade Hebraica de Jerusalém visitam o mosteiro e reconheceram que esses manuscritos precisavam ser avaliados por peritos em paleografia (O estudo das formas antigas de escrita). Quando o professor E.L. Sukenik da Universidade Hebraica voltou dos Estados Unidos para Jerusalém, em novembro de 1947, percebeu que “esta pode ser uma das maiores descobertas já feitas na palestina”. E foi.
Ao todo, as cavernas forneceram cerca de catorze descobertas importantes, entre elas o que se acreditava ser uma biblioteca , no interior da caverna.

De onde vieram esses rolos?
Em 140 a.C. um grupo de indivíduos chamado essênios deixou a cidade de Jerusalém para viver nas áridas e secas cavernas das montanhas da Judéia. Qumran, como se chamava o local, foi criado para preservar a pureza do sacerdócio e o apego à lei de Moisés e aos profetas.
Em mais ou menos 60 d.C., Roma cansou-se das rebeliões dos judeus e decidiu sufoca-los completamente, incluindo a comunidade essênia. Quando as tropas romanas saíram de Jericó em direção a Qumran, os essênios imediatamente esconderam seus rolos em cavernas próximas e fugiram para as montanhas, esperando escapar à ira dos romanos. Foi assim que esses rolos permaneceram nessas cavernas por cerca de dois mil anos!

Qual a importância deles?
Até que esses rolos fossem encontrados, os mais antigos manuscritos do Antigo Testamento datavam apenas de 800 d.C., aproximadamente. Essas edições do Antigo Testamento hebraico são conhecidas como Texto massorético, assim chamados por causas de um grupo de intelectuais chamados “massoretas” , que tomavam grande cuidado ao copiar o texto do Antigo testamento, certificando-se de que correspondesse com os manuscritos mais confiáveis.
A melhor coisa depois de ter os originais é retroceder às cópias mais próximas deles. Foi o que os rolos do mar Morto permitiram fazer.

Esses rolos são cerca de oitocentos a mil anos mais antigos do que os outros manuscritos previamente conhecidos. Encontrara-se porções de cada livro do antigo Testamento, exceto Éster. O curioso é que nenhuma obra apócrifa foi encontrada. Mais importante ainda foi o rolo completo do livro de Isaias. Isso tem dado aos eruditos uma oportunidade maravilhosa de comparar o texto dos rolos com os textos previamente conhecidos.

As conclusões?
Primeiramente, os rolos do mar Morto dão confirmações independentes do texto de nossos atuais livros do Antigo Testamento. Por exemplo, o texto de Isaias provou ser substancialmente o mesmo que é conhecido como Texto Massorético. O dr. Gleason L. Archer observa que as duas cópias de Isaias encontradas nas cavernas apóiam “a integridade do texto massorético”, pois “tal texto concorda com o manuscrito de Isaias encontrado […] em 95% de seu conteúdo. Os restantes 5% compreendem erros de escrita a variações de ortografia”. {01}
Para dar um exemplo específico:

Das 166 palavras de Isaias 53, há apenas dezessete letras [no rolo de Qumran que diferem do texto massorético padrão]. Dez dessa letras são simplesmente uma questão de ortografia, que não afetam [o significado]. Mais quatro letras são alterações de estilo sem importância, tais como conjunções. As tres letras restantes compreendem a palavra “luz”, que foi acrescentada no versículo 11, e não afeta o significado de maneira especial.{2}

Lembre-se, quando os escribas transcreviam uma página, contavam realmente o numero de palavras e até de letras para certificar de que os manuscritos se equivaliam entre si. Graças a tais padrões de exatidão, o texto hebraico do Antigo Testamento disponível aos estudiosos de hoje é essencialmente igual ao original. Os rolos do mar Morto simplesmente confirmaram a exatidão geral da transmissão dos escribas.
Em segundo lugar, devemos destacar que o texto de um dos rolos fala sobre “um líder da comunidade que foi condenado à morte”. O texto utiliza termos associados com o messias, tais como “o cajado”, “o Renovo de Davi” e a “Raiz de Jessé”. Isto mostra que embora a maioria dos judeus no tempo de Cristo aguardasse um Messias político que os libertaria da ocupação romana, havia alguns que criam que o Messias sofreria e morreria. {3}
Resumindo, os rolos do mar Morto confirmaram que o que temos em mãos é um exemplar confiável dos documentos originais. Podemos com segurança dizer que a Palavra de Deus foi preservada ao longo dos séculos, de modo que podemos conhecer a vontade de Deus para nós e seus planos para um mundo futuro.
Concluo com as palavras de Millar Burrows: “O leitor comum e o estudante da Bíblia podem ficar satisfeitos em observar que em tudo isso nada altera nossa compreensão dos ensinamentos religiosos da Bíblia”. {4}
Bibliografia.
Texto Baseado nos escritos do Livro: 7 RAZÕES PARA CONFIAR NA BÌBLIA, Erwin Lutzer, ed. Vida, p. 71-76.
{1} – Norman I. GEISLER & William E. NIX, Introdução bíblica, São Paulo, Vida, 1997, p. 140.
{2} – GEISLER & NOX, A general introduction to the Bible, cit, 1968, p. 263.
{3} – BOYD, Handbook of pratical apologetics, p. 175-7.
{4} – GEISLER & NOX, A general introduction to the Bible, cit, 1968, p. 263.
NOTA ARQUEOLÓGICA:. O MONTE SANTO (Is 14:13)
O monte Zafom, também chamado monte Cássio, ficava uns 40 Km a nordeste de Ugarite, na Síria. Os cananeus o consideravam moradia e lugar de assembléia dos deuses, de modo semelhante ao monte Olímpo para os gregos.
NOTA ARQUEOLÓGICA:. O ESPLENDOR DA BABILÔNIA (Is 13:19)
A Babilônia com seus templos e palácios veio a ser uma cidade belíssima (ver Dn 4:29-30) Os jardins suspensos de Nabucodonosor eram uma das sete maravilhas do mundo. O império neobabilonico de 612-539 a.C. era comandado pelo povo caldeu do sul da Babilônia. Nabopolassar reuniu as tribos caldeias em c. de 623 a.C. e seu filho Nabucodonosor passou a ser o governante mais poderoso do novo império (605-562 a.C).
NOTA ARQUEOLÓGICA:. SARGOM e ASDODE (Is 20:1)
Sargom II, que reinou de 721-705 a.C. É mencionado por nome somente aqui no AT. Asdode era uma das cinco cidades dos filisteus, e localizava-se perto do mar mediterrâneo, cerca de 28 Km a nordeste de Gaza. A cidade se rebelara em 713 a.C, com seu rei, Azuri, contra a Assíria. Em 1963 d.C três fragmentos de um monumento comemorativo da vitória de Sargom, citando este rei nominalmente foram encontrados em Asdode..
NOTA ARQUEOLÓGICA:. O TÚMULO DE SEBNA. (Is 22)
O túmulo de Sebna que é mencionado nas verso de 15-25 talvez seja aquele que foi achado a leste do núcleo central de Jerusalém por Charles Clermont-Ganneau em 1870. A inscrição nesse túmulo, situado na aldeia de Silwan, conforme a tradução do professor Avigad, diz (com a ajuda de restauração): “Esse é [o túmulo de sebna] – yahu que é o administrador do palácio […] maldito o homem que abrir isso”. O mesmo titulo “administrador do palácio” é usado a respeito de Sebna em Is 22:15.
NOTA ARQUEOLÓGICA:. O MURO DE EZEQUIAS. (Is 22)
No bairro judaico de Jerusalém, o professor Naum Avigad descobriu as ruínas de um muro enorme (a parte ainda conservada tem mais de 60 mts de comprimento, 6,5 mts de espessura e 3 de altura). Esse muro tinha sido edificado encima de casas que tinham sido destruídas – conforme Is 22:10 diz a respeito de Ezequias. “Examinaram as casas de Jerusalém e derrubaram algumas delas a fim de usar as pedras na reconstrução das muralhas. (NTLH)”
NOTA ARQUEOLÓGICA:. EZEQUIAS e SENAQUERIBE (Is 36:1)
Ezequias reinou como monarca exclusivo de 715 a 686 a.C, mas era co-regente desde c. 729 a.C. Senaqueribe reinou sobre a Assíria de 705 a 681 a.C.Senaqueribe mandou registrar em sua campanha contra a Fenícia, Judá e o Egito, em 701 a.C.Ele declara em seus anais que conquistou 46 das cidades fortificadas de Ezequias, bem como inúmeras aldeias abertas, e ter levado 200150 habitantes para o cativeiro. Declara que fez de Ezequias “um prisioneiro de Jerusalém, sua residência real, como um pássaro numa gaiola”. Mas não diz que conquistou Jerusalém.
Prisma Taylor originário de Nínive, capital Assíria (no atual Iraque) no Período Neo-assírio; Durante o Reinado de Senaqueribe, 689 A.C. Construída em Barro assado; Medindo 38.0 cm x 14.0 cm Comprado em Bagdá, 1919
Nos seis lados inscritos deste prisma de barro, o Rei Senaqueribe registrou oito campanhas militares empreendidas contra vários povos que recusaram submeter-se à dominação assíria. Em todas as instâncias, ele reivindica ter sido vitorioso. Como parte da terceira campanha, ele invadiu Jerusalém e impôs um pesado tributo a Hezequias, Rei Judá. O exército assírio tinha passado sobre a Síria e Israel como um rolo compressor, e depois atacou Judá, conquistou todas as suas cidades fortificadas e cercou Jerusalém. Senaqueribe, o rei assírio, escreveu em suas próprias crônicas que tinha fechado Ezequias (rei de Judá) como um pássaro numa gaiola. A conquista assíria de Jerusalém, capital de Judá, parecia inevitável. Contudo, uma vez que o monarca assírio precisava lutar em outras frentes de batalha, ele preferiu simplesmente intimidar os israelitas para que se rendessem. Ele enviou Rabsaqué, seu principal oficial, a Jerusalém para começar uma campanha de propaganda destinada a persuadir os homens de Judá a desistir sem lutar. Confrontando a narrativa no prisma, a Bíblia narra diferentemente o episódio, três capítulos registram o discurso de Rabsaqué: 2 Reis 18; 2 Crônicas 32 e Isaías 36.

O PROFETA JEREMIAS
INTRODUÇÃO
O Que Estava Acontecendo Na História Secular
Quando Deus chamou Jeremias ao ministério profético em 626 A.C., a Assíria, senhora do mundo, sujeitara Judá ao seu domínio, cobrando-lhe tributo. Todavia, a própria Assíria gradualmente enfraqueceu, após a morte de Assurbanipal em 633 A. C. Certas províncias do império perderam-se em 614 A. C., e outras no cerco final de dois anos. Assurubalut foi o último monarca reinante, conservando-se em Harran durante, pelo menos, dois anos após a destruição de Nínive em 612 A. C.
Potencialmente, o trono da Assíria estava aberto a qualquer cabo de guerra do tempo. Neco, do Egito, conduziu as suas forças até ao norte da Palestina, defrontando e matando Josias, rei de Judá, em Megido em 609 A. C., subjugando a Síria e pondo-se novamente em marcha até ao Eufrates. Foi, porém, enfrentado por Nabucodonosor da Babilônia, que desbaratou os seus exércitos na histórica batalha de Carquemis e o obrigou a recuar para as suas próprias fronteiras, pondo, assim, termo temporário à ambição egípcia de dominar o Oriente. Foi deste modo que Judá, até ali sujeito à Assíria, passou automaticamente para o controle da Babilônia.
Depois da morte trágica de Josias, o seu povo ungiu Jeoacaz, seu filho, rei em seu lugar. Neco, porém, depô-lo a favor de Jeoaquim, seu irmão, pensando que ele serviria melhor os interesses egípcios. Que esta convicção tinha bons fundamentos prova-o claramente o tratamento a que Jeoaquim sujeitou o profeta Jeremias. Depois de Carquemis, Nabucodonosor interessou-se menos por Judá, possivelmente por o descontentamento em Babilônia exigir o seu regresso imediato após ter sido desferido um golpe decisivo contra o Egito. Entretanto, Jeoaquim, confiante nas promessas egípcias de auxílio maciço, fez uma tentativa de sacudir o jugo de Babilônia. Em resultado disso, em 596 A. C., Nabucodonosor, consolidado o seu poder na pátria, atacou Jerusalém, prendeu Jeoaquim, filho do rebelde e agora seu sucessor, e levou-o com algum do seu povo para o cativeiro. Ao mesmo tempo, pôs Zedequias no trono.
O Egito não ousava arriscar uma guerra com Babilônia; em vez disso, procurava enfraquecer pela intriga os laços impostos por Nabucodonosor à Síria e Palestina. A Neco sucedeu no trono egípcio Psamatique II, e presumivelmente foi ele quem procurou persuadir estes países a tomarem parte numa aliança com o Egito contra Babilônia. Zedequias foi um dos monarcas abordados, e parece haver fortes indícios de ter existido um partido pró-egito na corte. Ananias, o profeta, salientava-se bastante nesta conjuntura, mas Jeremias opôs-se firmemente à proposta. Ver, por exemplo, o capítulo 28, com o seu oráculo do jugo de ferro.
Jeremias opunha-se vigorosamente a estes funcionários da corte. Como porta-voz DO SENHOR, denunciava-os como falsos profetas, afirmando que as suas atividades pró-Egito eram contrárias à Sua vontade e teriam um resultado trágico. Sem dúvida se consideravam verdadeiros patriotas, e é evidente que o seu ódio feroz a Jeremias se fundamentava no fato de, na opinião deles, o profeta ser um traidor confesso. Chamando-lhes falsos profetas, Jeremias não implica necessariamente que fossem homens cruéis, mas antes que a sua intuição ou critério não eram inspirados pelo SENHOR. A sua acusação contra os seus adversários é que não forao SENHOR quem os mandara, mas que eles se destacam por iniciativa própria, pelo que as suas predições não se realizarão. Era, pois, aí que residia a falsidade. Falavam em nome do SENHOR quando, afinal, Ele não lhes tinha ordenado que o fizessem. De tudo isto se depreende que a sinceridade não basta; só a inspiração divina é que faz de alguém um profeta.
É impossível dizer se Nabucodonosor tinha recebido um aviso direto do descontentamento que grassava, ou apenas boatos, mas o certo é que Zedequias foi intimado a avistar-se com ele e a descrever as condições na sua pátria. O seu regresso implica que deu garantias de fidelidade. É pena que, ao que parece, ele não tivesse a coragem e a força moral para resistir à influência de conspiradores pró-egipcistas como Ananias e os seus confederados. Jeremias instava constantemente com o rei para que permanecesse fiel ao seu compromisso, mas quando Hofra se tornou faraó em 589 A C., sucedendo a Psamatique II, a influência egípcia na corte acentuou-se ainda mais e, em resultado de tramas urdidas em segredo, Zedequias foi finalmente induzido a faltar à sua palavra para com Nabucodonosor. O Egito foi lento no seu socorro, e o monarca babilônio tornou a pôr cerco a Jerusalém em 587 A. C. Por fim, apareceu o exército egípcio e os babilônios levantaram o cerco temporariamente. Foi nessa altura que Jeremias foi preso como desertor que procurava fugir para os caldeus (ver Jr 37.11-15).
A repetição do assédio parece ter provocado uma crise. Jeremias tinha a certeza de que a sua intuição provinha de Deus, de que Ele lhe revelara os Seus propósitos de transformar Babilônia no instrumento da Sua vontade. A confiança no Egito, portanto, só poderia abrir caminho à tragédia e ao exílio. Além disso, os inimigos do profeta serviam-se do nome do SENHOR para apóiar a sua política pró-egipcista. Por conseguinte, afirmavam que a atitude e as palavras de Jeremias enfraqueciam a vontade nacional de combater. Esta luta revela-se de forma crucial na pessoa de Zedequias, que se erguia entre as duas facções, sendo atraído ora para um dos partidos, ora para o outro. Costuma-se dizer que Zedequias era um fraco, incapaz de tomar uma decisão e enfrentar as conseqüências. Percebe-se que Jeremias não o conseguiu influenciar de forma a fazê-lo manter-se firme no seu juramento de fidelidade para com Nabucodonosor. A batalha foi ganha pelos falsos profetas e Zedequias arriscou a sua sorte, mas pagou amargamente a sua decisão e delongas. O Egito revelou-se uma cana quebrada; o segundo cerco foi coroado de êxito, os babilônios comportavam-se de forma desapiedada e, com grande desgosto seu, Jeremias assistiu à amarga realização da sua profecia.
Este livro dá-nos pormenores referentes à vida de Jeremias até à sua partida forçada para o Egito. Depois, abatem-se as trevas sobre o profeta, atenuadas, se porventura o são, apenas por vagas tradições. Nada há que permita chegar a conclusões definitivas quanto à sua sorte. Segundo uma tradição cristã, alguns cinco anos depois da queda de Jerusalém, foi lapidado em Tahpanhes pelos judeus, que, mesmo então, se recusavam a comungar na sua visão e na sua fé.
O Que Podemos Aprender Com O Livro De Jeremias
Politicamente, como vimos, o profeta perdeu, mas espiritualmente obteve retumbante vitória. Com Amós e Oséias, confiava em como, apesar de a idolatria e a infidelidade ao SENHOR acarretaram necessariamente o castigo, Israel e Judá não seriam destituídos definitivamente da graça de Deus. Com esses profetas, comungava também na fé que o exílio como disciplina seria, não totalmente trágico, mas uma experiência corretiva. O estado como estado estava condenado, mas a fé no SENHOR e a fé do SENHOR no Seu povo escolhido permaneceriam e sobreviveriam àquele choque crucial.
Viu também que o antigo concerto centralizado no templo e no seu cerimonial era ineficaz. Assim, acabou por descortinar que O SENHOR escreveria um novo concerto no coração do “remanescente”, através do qual a religião vital se manteria dinâmica e seria um veículo de bênção para além das fronteiras da nação.
Quando o livro da Lei encontrado por Hilquias nas ruínas do templo provocou a reforma do reinado de Josias em 621 A. C., parece evidente que, de princípio, Jeremias vibrou no mesmo entusiasmo que o monarca, emprestando a este a sua influência e auxílio. Parece igualmente evidente, porém, que, mais tarde, a sua confiança nesse avivamento começou a enfraquecer, considerando-o o profeta demasiado fácil e superficial para satisfazer os requisitos do SENHOR. A grande necessidade era de uma mudança de coração, só possível num povo que depositasse a sua fé tão-somente no SENHOR. Ora, a geração de Jeremias recusava-se a conceder essa centralidade de fé.
Muitos comentadores têm afirmado que Jeremias, com outros profetas, se opunha ao ritual de sacrifícios, considerando-o algo que não fora ordenado pelo SENHOR e que Lhe repugnava. Todavia, a atitude de Jeremias será melhor interpretada se nós descortinarmos a lição de que, sempre que um sacrifício não constitui um verdadeiro índice da adoração e arrependimento do indivíduo, então esse sacrifício não terá valor, sendo, portanto, contrário ao desejo e vontade do SENHOR. Quando muito, um sacrifício só poderia ser um meio para atingir o fim espiritual de um regresso contrito ao Senhor, jamais podendo constituir um fim suficiente em si.
O Autor
Trata-se de um problema muito complexo que não pode ser eficazmente abordado numa breve introdução como esta. Em Introduction to the Old Testament, de E. J. Young, encontrar-se-á formulada a posição conservadora acompanhada de um sumário das várias correntes críticas. O próprio livro diz que Baruque, o escriba, escreveu as profecias que Jeremias pronunciou (ver especialmente Jr 36.32), e declara que “ainda se acrescentaram a elas muitas palavras semelhantes”. Duma maneira geral, Baruque parece ter sido fiel amanuense de Jeremias e, note-se, acompanhou-o até ao Egito (Veja: Jr 43.6).
As próprias profecias não vêm em ordem cronológica, o que pode causar confusão numa mentalidade ocidental, habituada a encarar tais problemas de uma maneira lógica. Em The New Bible Handbook, de G. T. Manley, o leitor encontrará um esquema das datas prováveis correspondentes aos vários capítulos. O problema resulta ainda mais complicado por haver grandes diferenças entre o texto hebraico e o dos Setenta deste livro, fenômeno que se verifica mais nele do que em qualquer outro. Estas diferenças não dizem respeito apenas às palavras mas afetam a ordem de apresentação do conteúdo. Para uma breve análise das discrepâncias e uma hipótese de explicação, ver Introduction to the Old Testament, de E. J. Young, obra a que já se fez referência. No corpo do comentário, apontam-se sempre os passos em que a versão dos Setenta parece derramar luz sobre o texto hebraico.
Quem Era Jeremias
Jeremias era, de fato, um homem de Deus, sensível a toda a influência espiritual, suscetível de profunda emoção, dotado de visão clara e critério cristalino. Não podia ser comprado nem cavilosamente convencido. Seguia o caminho traçado pelo seu espírito, este sempre apoiado no sentimento de adoração que vivia dentro dele. Foi um homem de Deus do princípio ao fim e, portanto, um patriota fiel até à tragédia. Não era cego para o pecado e loucura do seu povo. Descortinou com profunda amargura o nexo férreo entre o pecado e o castigo, e previu o exílio como uma punição inevitável e irrevogável, a não ser que se verificasse uma conversão. Foi para a provocar que despendeu sem reservas todo o seu esforço. Essencialmente, foi um mediador impelido pelo patriotismo e pela fé em Deus. Daí a veemência das suas emoções e mensagens, ora contra o seu povo, ora intercedendo junto do Senhor. Daí também o seu isolamento, a sua agonia de espírito, os seus cruciais conflitos íntimos. A sua paixão iluminava-lhe os passos, o que facilitou a sua tarefa, embora tornando-a desagradável. Viu a condenação, mas não a tragédia final. Tanto Israel como Judá tinham um futuro em Deus, o Qual seria a sua justiça. Haveria um novo concerto. Em Deus leu promessas, não futilidade, pelo que “ficou firme como vendo o invisível”. Neste vulto descarnado, clamante, vemos o que Deus ousa pedir ao homem, e o que um homem assim pode dar. A descoberta do Jeremias autêntico pode bem constituir o renascimento de quem o descobre.
É importante você saber…
MÊNFIS
Como outros sítios arqueológicos do antigo Egito, a cidade de Mênfis é conhecida sobretudo pela escavação de suas necrópoles, que proporcionam descobertas mais surpreendentes que a própria cidade.
Mênfis era capital do antigo Egito durante o terceiro milênio anterior à era cristã. Suas ruínas estão localizadas ao sul do delta do Nilo, a cerca de 25km do Cairo. Acredita-se que a cidade tenha sido fundada em 2925 a.C., com o nome de Anbu-hedj (“muros brancos”), por Menés, o faraó que supostamente unificou as regiões do alto e baixo Egito. Em meados do terceiro milênio, Mênfis tornou-se importante centro político e religioso, com um complexo arquitetônico em que se destacavam o palácio real e o grande templo do deus local, Ptah. Depois de Menés, faraós das III e IV dinastias edificaram em Mênfis monumentos grandiosos, entre os quais a pirâmide construída em Saqqarah pelo famoso arquiteto Imhotep, no reinado do faraó Djoser.
Durante a VI dinastia, o faraó Pepi I mandou construir a pirâmide Men-nefer, de que derivou o nome atual da cidade. Embora tenha visto sua importância decair à medida que Heliópolis progredia, Mênfis manteve seu prestígio até o médio império (entre 1938 e 1600 a.C., aproximadamente), graças à condição de centro religioso. Após um longo período de crises, marcado pela invasão dos povos hicsos, a cidade experimentou uma nova fase de prosperidade e provavelmente se tornou segunda capital do Egito ou capital do norte do país. O templo dedicado a Ptah passou a ser o local de culto preferido dos faraós e foi ampliado por Tutmés I e Tutmés IV.
Na XIX dinastia, os faraós fixaram residência no delta do Nilo, mas mantiveram o esplendor de Mênfis, com a construção de estátuas colossais e do templo do Serapeum, dedicado ao deus Ápis. Na dinastia seguinte, a unidade do Egito começou a desmoronar novamente, mas foi restabelecida pelo rei Piankhi, da Núbia, que conquistou o Egito no século VIII a.C. Um século mais tarde, os assírios começaram a destruir a cidade, processo que foi continuado por invasores persas e gregos. Com Alexandre o Grande a cidade transformou-se num centro de planejamento para a construção de Alexandria, cidade que pôs fim à hegemonia de Mênfis.
A cidade recuperou seu antigo caráter cosmopolita na época ptolomaica e foi mais tarde transformada pelos romanos numa próspera capital de província. Mênfis começou a decair com a ascensão do cristianismo, quando fanáticos religiosos destruíram o pouco que restava dos templos, e recebeu o golpe de misericórdia com a ocupação muçulmana. As ruínas da cidade foram utilizadas na edificação de outras construções em áreas vizinhas, entre as quais Fustat, que deu origem à cidade do Cairo. Esquecida durante séculos, Mênfis começou a ser recuperada em meados do século XIX, com as escavações arqueológicas.
Jr-5.27
gaiola. Sem dúvida, isto é uma referência à uma armadilha ou gaiola armada, como o Dr. Blayney traduz, na qual caçadores colocam várias aves amansadas para atrair outras aves para a armadilha que lhes foi armada.
Fonte: ©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.
LAMENTAÇÕES
INTRODUÇÃO
Título
O título mais completo, “As Lamentações de Jeremias” é encontrado nos manuscritos gregos e na Septuaginta. Mas o Talmude e os escritores rabínicos se referem a ele simplesmente como “Lamentações” (qinoth) ou como “Como!” (’ ekhah), a palavra inicial no hebraico.
Sua Posição Na Bíblia
Consoante o título mais longo, a Septuaginta coloca o livro imediatamente após as profecias de Jeremias, tal como em nossas versões portuguesas. Na Bíblia hebraica esse livro não é encontrado entre os livros proféticos, mas ocupa a posição média entre os Rolos Festivos (Megilloth) que seguem imediatamente os três livros poéticos da Hagiógrafa, ou seja, a terceira divisão do cânon hebreu. Cada um dos Megilloth era lido por ocasião de uma festividade anual, sendo que o livro de Lamentações era lido no nono dia de Ab (cerca de meados de julho), aniversário da destruição do templo por Nabucodonosor, rei da Babilônia. No Talmude, os livros poéticos e o Megilloth aparecem rearranjados numa ordem que parece ser a ordem cronológica, a saber, Rute, Salmos, Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cantares de Salomão, Lamentações, Daniel, Ester, etc.
Autor E Data Da Composição
A tradição que Jeremias compôs esses poemas recua até à posição e ao título do livro na Septuaginta, onde é introduzido mediante as palavras: “E sucedeu, após Israel ter sido levado cativo, e Jerusalém ter ficado desolada, que Jeremias se assentou a chorar, e lamentou com esta lamentação por causa de Jerusalém e disse…”. Também é asseverado no Targum Siríaco e no Talmude (Baba Bathra) que: “Jeremias escreveu seu próprio livro, Reis, e Lamentações”. Em 2Cr 35.25 é feita referência às lamentações desse profeta por causa da morte do rei Josias, e ali se acha escrito que tal lamentação foi registrada e ficou como “estatuto em Israel”; com isso cfr. Lm 4.20 e Lm 2.6. Porém, nosso presente livro gira não tanto em torno da morte de um rei como em torno da destruição de uma cidade, e Lm 4.20 com igual justiça poderia referir-se a Zedequias, a despeito de sua falta de dignidade (cfr. o sentimento em 2Sm 1.14,21). Não obstante, na qualidade de profeta chorão (ver Jr 9.1; Jr 14.17-22; Jr 15.10-18, etc.), Jeremias bem poderia ser concebido como autor, igualmente, do livro de Lamentações, não fosse o fato de existirem certas dificuldades para que se aceite essa opinião. O estilo é muito mais elaborado e artificial que o do próprio livro de Jeremias e, nos capítulos 2 e 4, é mais parecido com o estilo de Ezequiel. O capítulo 3 faz lembrar Sl 119 e 143. A atitude para com os poderes estrangeiros, subentendida em Lm 4.17, certamente não é a do “colaboracionista” Jeremias e não reflete a própria experiência do profeta.
Por conseguinte, muitos consideram que o autor do livro de Lamentações tenha sido um contemporâneo mais jovem de Jeremias, o qual, à semelhança dele, fora testemunha ocular das entristecedoras calamidades que sobrevieram a Jerusalém por ocasião da captura efetuada pelos exércitos de Babilônia em 587-586 a.C. Outros consideram os capítulos 2 e 4 como obra de uma testemunha ocular (note-se a preocupação do escritor pelo destino das crianças, em Lm 2.11-12,19-20; Lm 4.4-10), cerca de 580 a.C., aos quais foram então adicionados, talvez originados em fontes diferentes, o lamento nacional do capítulo primeiro, o lamento pessoal do capítulo 3, e a oração do capítulo 5. A data desse material pode ser fixada em cerca de 540 a.C. Alguns, porém, preferem datar a coleção inteira como pertencente a período bem posterior, fazendo o livro referir-se ao cerco de Jerusalém, em 170-168 a.C., por Antíoco Epifânio, ou mesmo em 63 a.C., por Pompeu; porém, isso é altamente improvável. Em favor da data tradicional que é o período do exílio temos a nota de desânimo, de princípio ao fim do livro, que sugere um tempo antes do levantamento de Ciro, o persa. Há também o fato que esse período particular da história da Babilônia é notório por seus hinos fúnebres em memória de cidades caídas. Existem inscrições cuneiformes nas quais “a filha de…” é exortada a lamentar sua sorte (cfr. Lm 2.1). Essa técnica, portanto, pode ter sido aprendida pelos judeus, no exílio.
Composição
Os comentadores rabínicos se referem aos “sete acrósticos” e pode ser observado de imediato que cada capítulo tem vinte e dois versículos, que correspondem ao número e à ordem das letras no alfabeto hebraico, fazendo exceção o capítulo 3, que possui sessenta e seis versículos, no qual cada letra sucessiva conta com três versículos dedicados à mesma, em lugar de um versículo. Diz-se que esse arranjo alfabético tem o propósito de mostrar que “Israel pecou de álefe a tau”, isto é, como diríamos, de A a Z, assim como em Sl 119 a implicação é que a lei deve merecer a atenção e o desejo totais do homem. No capítulo 5, entretanto, não são empregadas as letras do alfabeto em ordem sucessiva ainda que alguns eruditos afirmem que esse deve ter sido o caso, originalmente.
Os quatro primeiros poemas fazem uso do ritmo desigual, conhecido como canto fúnebre (qinah), isto é, Lm 3.2, e que também se encontra no livro de Jeremias.
É importante você saber…
ISHTAR. “Rainha das determinações divinas, luz radiante, mulher doadora da vida, amada do céu e da terra, a suprema.” Esse trecho, de um hino a Ishtar, retrata uma deusa que era sempre representada como jovem, bela e impulsiva, de temperamento contraditório: honesta e trapaceira; alegre e chorosa; a que ateia o fogo e o apaga. Ishtar era o nome pelo qual os acádios e, posteriormente, os assírio-babilônios chamavam a deusa suméria Inanna, personificação do planeta Vênus. Era a deusa principal tanto no panteão sumério quanto no acádico. Tem atributos idênticos aos da deusa fenícia Astartéia, aos de Afrodite, na Grécia, e aos de Vênus, em Roma. A mitologia em torno de Inanna-Ishtar é extremamente complexa, devido ao sincretismo dos panteões sumério e acádico. Segundo uma dessas tradições, ela é a filha do deus-céu An; segundo outra, descende da deusa-lua Nanna-Sin e é irmã do deus-sol Utu-Shamash. Seu nome foi também associado a diferentes maridos: Zabada de Kish, Ashur, An e Dumuzi (ou Tammuz). Da literatura cuneiforme dos acádicos e sumérios emergem diversas imagens de Inanna-Ishtar: ora é deusa do amor e da sexualidade, ora deusa da guerra, da chuva e do trovão e, mais tarde, a própria rainha do Universo.
BABILÔNIA
A capital da Mesopotâmia foi famosa por seu poderio e esplendor cultural e por seus belos edifícios e construções monumentais, entre elas os jardins suspensos, uma das sete maravilhas do mundo antigo.
Fundada pelos acadianos (ou acádios) fora da zona de poderio sumério, a Babilônia ficava às margens do Eufrates, ao sul da futura Bagdá. Na origem, foi uma colônia comercial dentro do âmbito econômico sumério; mas, graças ao intenso tráfico mercantil e a sua estratégica posição geográfica, transformou-se, depois da queda da Suméria, em cidade independente e próspera, capaz de impor seu poder sobre o resto da Mesopotâmia, antes da era cristã.
No começo do segundo milênio a.C., vários povos de origem semita, procedentes do oeste, estabeleceram-se na Babilônia. Um desses povos foi o amorreu (ou amorrita, amorreano), que levou a Babilônia a seu máximo poder imperial, comparável apenas ao que conseguiu posteriormente com os caldeus.
O nome Babilônia parece proceder do acádico Bab-ilu, que significa “porta de Deus”. A cidade sagrada, descrita pelo historiador grego Heródoto no século V a.C., foi descoberta por arqueólogos alemães no fim do século XIX da era cristã. Espalhava-se em torno do Eufrates e era protegida por altas muralhas, nas quais se abriam diversas portas de acesso. Dessas portas só se conservaram sete, entre as quais se destaca a de Ishtar.
A cidade possuía numerosos palácios e templos, construídos sobre terraços de terra batida ou de adobe. Os palácios eram grandes edifícios com muitos aposentos, dispostos em torno de um pátio central e adornados com jardins, entre os quais se destacavam os chamados jardins suspensos, construídos em terraços sobre salas com tetos de pedra.
Em meio aos edifícios dessa monumental cidade, os de caráter religioso sobressaíam pela imponência e elevado número. O principal era o grande templo dedicado a Marduk, Esagila (“casa de teto alto”), decorado com ouro e pedras preciosas. Ao norte desse ficava o Etemenanki (“templo dos alicerces do céu e da terra”), templo escalonado que possivelmente seria a torre de Babel citada na Bíblia.
Dinastia amorrita. O fundador da dinastia real amorrita foi Sumu-abum, que governou de 1894 a 1881 a.C. Seus sucessores ampliaram os domínios da Babilônia mediante uma política de pactos e alianças com as cidades mais poderosas e ricas do território.
Na primeira metade do século XVIII a.C., Hamurabi empreendeu a conquista da Mesopotâmia e criou o primeiro império babilônico. O caráter desse rei, conforme documentos que chegaram até nós, mostra traços de um homem astuto, prudente, diplomático, alheio a impulsos passionais e, fundamentalmente, grande conhecedor de sua época. Político hábil, Hamurabi conseguiu consolidar seu estado, alternando conquistas militares com reformas legislativas internas.
Quando Hamurabi subiu ao trono, o reino babilônico limitava-se a noroeste com a Assíria, ao norte com a região de Eshnuna e a leste e sudeste com os domínios de Larsa. O monarca tornou a Babilônia potência hegemônica da Mesopotâmia. Aproveitando a morte de seu inimigo assírio Shamsi Adad I, enfrentou e venceu o rei de Larsa, Rim-Sin, arrebatando seus domínios. Depois combateu encarniçadamente e derrotou uma coalizão de povos e cidades (elamitas, assírios, gutis). Dessa forma a Mesopotâmia tornou-se submissa ao poder babilônico e Hamurabi reuniu sob sua autoridade toda a região compreendida entre o golfo Pérsico e o rio Habur. Estadista inteligente e civilizado, não se impôs de modo arbitrário ou violento, conservando os monarcas derrotados, na qualidade de vassalos, em seus respectivos tronos.
Hamurabi foi o primeiro legislador conhecido da história. Deu impulso à organização judicial e ao trabalho legislativo. O famoso Código de Hamurabi, baseado na lei de talião, indica a preocupação do monarca em estender o direito sumério a todos os povos que habitavam os territórios do império.
Com a morte de Hamurabi, a unidade mesopotâmica desapareceu. Seu filho Samsu-iluna combateu as sublevações de Elam, Suméria e Assur e enfrentou as invasões de povos como os hurrianos e os cassitas. Estes últimos, repelidos depois de uma primeira tentativa de colonização, penetraram depois lentamente em território babilônico.
Apesar dos denodados esforços de Samsu-iluna para manter o império do pai, a unidade política se desintegrou. Alguns de seus descendentes, como Ammiditana e Amisaduqa, conseguiram esporádicas vitórias sobre as cidades rivais, mas com Samsuditana o poderio babilônico decaiu por completo. Apesar disso, a cidade continuou sendo um centro cultural, artístico e comercial de primeira ordem, para onde acorriam viajantes e peregrinos de todo o Oriente Médio.
Em 1595, o rei hitita Mursilis I atacou a Babilônia. A cidade foi arrasada e incendiada e seu rei, o último da dinastia amorrita, morreu na luta.
Dinastia cassita. No início do século XVI a.C., os cassitas, procedentes dos montes Zagros, ocuparam a Babilônia e introduziram o cavalo e o carro como armas de guerra. Não conheciam a escrita mas aceitaram e assimilaram a superior cultura babilônica. Agum II soergueu o estado. Conquistou Eshnuna, dominou Assur, submeteu os gutis e estendeu seu poder do Eufrates à cordilheira dos Zagros. Seus descendentes consolidaram o reino no terreno econômico, graças ao comércio, embora no aspecto político a Babilônia se tenha conservado apenas como mais um estado dentro do universo mesopotâmico.
A partir da segunda metade do século XIV a.C., os assírios começaram a intervir na política interna da Babilônia, atraídos por sua prosperidade. Depois do reinado de Burnaburiash II, que conseguiu manter a estabilidade política na cidade, as relações com a Assíria começaram a deteriorar-se. O rei assírio Salmanasar I iniciou uma política expansionista e, ao norte da Babilônia, os hititas também pretenderam imiscuir-se nos assuntos internos do império. Sob o reinado de Kashtiliash, a paz, que já durava três séculos, foi interrompida pela invasão de Tukulti Ninurta I, em 1234 a.C., que arrasou a próspera cidade, destruiu seus templos e palácios e prendeu seu rei.
Crises no império assírio — assassinato de Tukulti Ninurta I –, e no reino hitita — agressões externas — deram ao rei babilônico Adad-shun-natsir a oportunidade para reconstruir seu maltratado império e submeter o estado assírio. Depois de um período de paz, em que Meli-Shipak devolveu a prosperidade à Babilônia, os elamitas invadiram e saquearam a cidade, em 1153 a.C, levando para Susa a famosa pedra do Código de Hamurabi.
O novo império babilônico. O fim do período cassita anunciou uma época obscura para a Babilônia, dominada sucessivamente por elamitas e assírios até o século VII a.C., quando os caldeus ascenderam ao poder. O fundador da dinastia caldéia foi Nabopolassar (reinou de 626 a 605), que, inspirado pelos deuses locais, Marduk e Nabu, empreendeu uma política expansionista orientada para a recuperação do antigo poderio da Babilônia. Nabopolassar, auxiliado pelo rei meda Ciaxares, moveu uma campanha contra Assur, que pretendia dominar o território mesopotâmico. Depois da vitória, os dois monarcas partilharam as terras conquistadas, e a Babilônia pôde reconstruir seu antigo império. Em seguida, Nabopolassar ordenou a conquista da Síria a seu filho Nabucodonosor, que, depois de cruzar rapidamente o Eufrates, destruiu Carchemish, conseguindo para a Babilônia a maior parte da Síria e da Palestina, anteriormente em poder dos egípcios.
Após a morte do pai (605 a.C.), Nabucodonosor II assumiu o trono. Durante seu reinado (604-562), empreendeu várias campanhas militares que lhe renderam avultados butins e glória pessoal. Uma sublevação do reino de Judá obrigou-o a manter uma guerra cruenta que durou de 598 a 587 a.C., ano em que destruiu Jerusalém e deportou milhares de judeus (o “cativeiro da Babilônia” mencionado no Antigo Testamento).
Nos anos seguintes, Nabucodonosor promoveu um intenso trabalho de reconstrução, reparando as cidades devastadas pela guerra. Com sua morte (562), sucederam-se as lutas internas pelo trono. Nabonido conseguiu o poder em 555 e governou até 539, mas, como não era de estirpe real, encontrou férrea oposição entre os sacerdotes de Marduk e alguns comerciantes ricos, que lideraram uma sublevação, com o apoio do rei persa Ciro II. Derrotado e prisioneiro dos persas, Nabonido foi, no entanto, tratado com moderação por Ciro, que lhe concedeu o cargo de governador de uma região da Pérsia.
Decadência. A queda da Babilônia em 539 a.C. e sua incorporação ao império persa acarretou o fim da Mesopotâmia como região histórica independente.
Sob o domínio dos persas aquemênidas, a cidade manteve seu esplendor. Em 522 a.C., Dario I sufocou uma revolta popular; mais tarde, Xerxes reprimiu outra insurreição e ordenou a destruição da estátua de Marduk, símbolo religioso da Babilônia. Alexandre o Grande a conquistou em 331 a.C. e, depois de reconstruir alguns de seus monumentos, morreu no palácio de Nabucodonosor, quando voltava da Índia. Durante a época selêucida, a cidade decaiu rapidamente, até desaparecer.
Cultura e sociedade. Os babilônios estenderam seus conhecimentos a todos os ramos do saber, mas se destacaram principalmente pelas grandes descobertas matemáticas e astronômicas. Também cultivaram as artes e as letras com singular mestria. A epopéia de Gilgamesh, obra-prima da literatura babilônica, é um poema cujas primeiras compilações remontam a 2500 a.C.; misto de epopéia e alegoria, seus personagens principais são Enkidu e Gilgamesh. O primeiro representa a passagem do estado natural ao civilizado, enquanto Gilgamesh simboliza o herói que busca a imortalidade. O dilúvio universal também aparece mencionado nesse poema, quando Gilgamesh encontra Utnapishtim, o Noé babilônico, que lhe descreve a técnica de fabricação da nave que, a conselho de Ea, construiu para salvar-se do cataclismo. Outro poema épico conhecido é o Enuma elish (Quando no alto…), que trata da origem do mundo.
A religião babilônica compreendia um grande número de deuses que, venerados nos templos, em muitos casos se assemelhavam aos homens. Para os babilônios, o homem foi criado por Marduk, a sua imagem, com barro e seu próprio sangue. O templo era a morada da divindade, enquanto o zigurate (torre) era o lugar destinado ao culto. Cada templo era administrado pelo sumo sacerdote, que, ajudado por sacerdotes menores, magos, adivinhos e cantores, devia prestar contas ao rei, representante do deus Marduk.
A sociedade babilônica tinha estrutura piramidal, com o rei, vicário (substituto) da divindade, no topo. O poder e as riquezas do soberano tornavam-no um homem respeitado e temido. Os funcionários reais, os sacerdotes e os grandes proprietários constituíam o suporte do monarca e formavam a categoria superior dos homens livres. Os escravos eram adquiridos por compra ou como resultado de butim de guerra. Numa terceira categoria social estavam os cidadãos humildes, cuja falta de recursos lhes impedia o acesso às categorias superiores, embora fossem livres.
O homem livre podia possuir bens, terras ou dedicar-se à indústria ou ao comércio. Sua condição lhe permitia pertencer ao conselho da cidade, embora pudesse cair na escravidão se não pagasse no prazo devido as dívidas contraídas.
A família era monogâmica e a instituição matrimonial se regia por um contrato, realizado pelo marido diante de testemunhas, no qual se estabeleciam os direitos e obrigações da esposa. O chefe de família exercia a autoridade e dispunha de total independência no manejo dos bens. Todas essas normas, contidas no código legislativo de Hamurabi, consolidaram a sociedade de forma estável e duradoura.
Com o fim da próspera civilização babilônica, a Mesopotâmia deixou de ser terra de grandes impérios e converteu-se em objeto de conquistas das novas potências do mundo antigo. Sua cultura exemplar e sua organização legal são comparáveis ao brilho mais tarde alcançado por Atenas e Roma.
O PROFETA EZEQUIEL
INTRODUÇÃO
O QUE OCORRE QUANDO UM SER HUMANO MORRE?
Ocorrem vários processos a partir do momento que uma pessoa morre ater chegar ao estado de ossos secos. Eles obedecem, de uma forma resumida, a seguinte ordem:
1º) ABIOTICOS (SEM VIDA) – São fenômenos que ocorrem logo após a morte. Observamos as seguintes características: insensibilidade a dor, calor ou temperatura; imobilidade; fácies hipocratica (uma face característica do morto, sem expressão); falta de respiração e circulação do sangue; resfriamento do corpo.
2º) PUTREFAÇÃO – É a fase quando as bactérias se reproduzem e destroem os órgãos do corpo. Ela apresenta duas subfases: a GASOSA onde ocorre intensa formação de gases, inchando o corpo. Fica parecendo um balão. E tem a COLIQUATIVA em que o corpo perde a forma porque os órgãos vão sendo destruídos e não dá mais para distinguir o que é coração, rins, fígado, etc. Vira uma massa disforme.
3º) ESQUELETIZAÇÃO – É a destruição total dos órgãos, mistura do que resta deles com a terra sobrando apenas os ossos.
Ezequiel viu um exercito em estado de esqueletização. Mas quando e como eles morreram?
O PECADO E A MORTE
O povo de Israel estava exilado quando Ezequiel teve a visão do vale dos ossos secos. Os ossos representava a sua situação espiritual e política naquele momento, mortos e sem esperança. Essa historia não começou no exílio. Deus os alertou para os perigos do pecado (Dt 30:15,19,20), quando fez o pacto com o povo. A obediência a Ele geraria vida, a desobediência (pecado), levaria a morte. O povo preferiu desobedecer e se transformou no que Ezequiel viu. É isso mesmo o que o pecado faz conosco (Tg 1:15).
Sua ação é parecida com a da morte física, observem:
1º) ABIOTICOS (SEM VIDA) – O pecado nos afasta de Deus e com isso, retira de nós a “vida” (Sl 36:9). Os sintomas são a perda da consciência (Não ouvimos mais o Espírito Santo), frieza nos relacionamentos, insensibilidade com as mazelas do próximo, imobilidade entre outros.
2º) PUTREFAÇÃO – fase GASOSA: Com a “vida” fora, o nosso ego cresce, ocupa todo o nosso corpo. É só tamanho, porque se examinarmos por dentro é só podridão. Fase COLIQUATIVA: Nos envolvemos tanto com o pecado e nos afastamos de Deus, que não diferenciamos mais nada, não distinguimos entre o certo e o errado. Nosso caráter vira uma grande massa disforme.
3º) ESQUELETIZAÇÃO – Depois de “sugar até os ossos”, tudo de bom que temos, o que sobra de nós é a ossada seca. Esse é o “fundo do poço”.
Mas acaba assim? Claro que não!
A RECONSTRUÇÃO
Ezequiel, por ordem de Deus, profetiza (prega) para os ossos. De repente os ossos começam a se juntar. Aparecem tendões, músculos, a pele recobre o corpo e a vida retorna. São novos seres humanos.
Esse texto nos leva a pensar nas seguintes afirmações:
1º) Pecado (desobediência a Deus) e morte espiritual vem no mesmo “pacote”. Escolhemos aquele, fatalmente receberemos esta.
2º) Só Deus tem poder para reconstruir a nossa vida a partir dos “ossos secos” que o pecado nos reduz, através do sacrifício de Jesus. E o melhor de tudo: ESTA OPORTUNIDADE ESTÁ DISPONÍVEL PARA QUALQUER UM DE NÓS!

ANALISANDO O CONTEXTO HISTÓRICO
O contexto histórico do livro de Ezequiel é a Babilônia durante os primeiros anos do exílio babilônico. Nabucodonosor, rei caldeu, destruiu Jerusalém, incendiou o templo e saqueou a riqueza que ali havia, levando cativos os judeus de Jerusalém para a Babilônia em três etapas:
(1) em 605 a.C., jovens judeus escolhidos foram deportados para Babilônia, entre eles Daniel e seus três amigos;
(2) em 597 a.C., 10.000 cativos foram levados à Babilônia, estando Ezequiel entre eles; e
(3) em 586 a.C. as forças de Nabucodonosor destruíram totalmente a cidade e o templo, e a maioria dos sobreviventes foi transportada à Babilônia. O ministério profético de Ezequiel ocorreu durante a hora mais tenebrosa da história do AT: os sete anos que precederam a destruição, em 586 a.C. (593-586 a.C.), e os quinze anos seguintes (586-571 a.C.).
É relatado a atividade do profeta Ezequiel durante o exílio na Babilônia, que dirige suas mensagens a seus compatriotas cativos e também ao povo hebreu que ainda reside na Palestina. Ambos os grupos permaneceram obstinados e impenitentes, mesmo depois da captura de Jerusalém levada a cabo pelo rei babilônio Nabucodonosor, e do exílio de Joaquim, rei de Judá, que levou para Babilônia as pessoas preeminentes do país e os tesouros da casa de Deus e da casa do rei. Entre os cativos se achavam a família do rei e os príncipes; os valentes, poderosos; os artífices e construtores; uma considerável parte da população e Ezequiel, filho de Buzi, o sacerdote (2 Re 24:11-17; Ez 1:1-3), no ano de 597 a.C. Pesarosos, estes israelitas exilados haviam completado a sua cansativa jornada, de uma terra de colinas, fontes e vales para uma de vastas planícies. Moravam então junto ao rio Quebar, no meio dum poderoso império, cercados de um povo de costumes estranhos e de adoração pagã. Portanto, Deus atribuiu a Ezequiel a tarefa de denunciar a casa rebelde de Israel e predizer a destruição de Jerusalém e a deportação de um número ainda maior. Seis anos depois de Ezequiel haver começado a pregar, suas palavras se cumpriram. No ano de 586 a.C., Nabucodonosor destruiu Jerusalém e levou cativos para a Babilônia quase todos os sobreviventes. Mas, a despeito da infidelidade de Israel, Deus mostrou-se misericordioso. Ezequiel recebeu instruções no sentido de proclamar as boas-novas de que o exílio terminaria e Israel recuperaria sua posição de instrumento da salvação de Deus para todos os homens.
Nabucodonosor permitiu que os israelitas tivessem as suas próprias casas, servos, e que praticassem o comércio. (Ez 8:1; Jr 29:5-7; Es 2:65) Se fossem diligentes, poderiam prosperar. Cairiam nos laços da religião e do materialismo babilônicos? Continuariam rebeldes contra Deus? Aceitariam o seu exílio como disciplina procedente dele? Haviam de enfrentar novas provações na terra de seu exílio.
Durante esses anos críticos que culminaram na destruição de Jerusalém, Deus não privou a si nem aos israelitas dos serviços de um profeta. Jeremias atuava na própria Jerusalém, Daniel na corte de Babilônia e Ezequiel era o profeta para os exilados judeus em Babilônia. Ezequiel era tanto sacerdote como profeta, distinção que gozava também Jeremias e, mais tarde, Zacarias. (Ez 1:3) Do começo ao fim de seu livro dirige-se mais de 90 vezes a ele como “filho do homem”, um ponto importante quando se estuda a sua profecia, porque, nas Escrituras Gregas, Jesus também é chamado de “Filho do homem” cerca de 80 vezes. (Ez 2:1 ;Mt 8:20)
OCASIÃO HISTÓRICA, DATA E AUTORIA
Esses três problemas estão ligados no que diz respeito a este livro. O livro foi composto principalmente na primeira pessoa e propõe ter sido escrito pelo profeta Ezequiel, que é identificado como um dos exilados judeus deportados em companhia do rei Joaquim, em 597 a.C. (Veja: Ez 1.1 e segs.). A narrativa é pontilhada por avanços progressivos de tempo, começando pelo quinto ano do cativeiro, 593 a.C. (Veja: Ez 1.2), e continuando até a vigésimo quinto ano do cativeiro, quando foram escritos os capítulos 40-48 (Veja: Ez 40.1; Ez 29.17 e segs., escritos no ano vigésimo sétimo do cativeiro, foram mais tarde inseridos pelo profeta, nesse ponto, por uma razão especifica; ver notas no corpo do comentário).
Até tempos recentes a autenticidade deste livro era aceita em geral; porém, no século atual, ele tem provido oportunidade de muitos eruditos demonstrarem sua engenhosidade. Seus trabalhos, por outro lado, têm servido para apresentar claramente a natureza dos problemas exibidos por esse livro e têm capacitado seus sucessores a abordarem-no com mais inteligência.
Das duas principais dificuldades que aparecem no caminho da aceitação da autenticidade de Ezequiel, a primeira pode ser tratada de modo sumário. É afirmado que este profeta, como seus antecessores, foi pregador de condenação, e nada mais. Todos os profetas pré-exílicos se declararam contra a escatologia popular de seus dias e pronunciaram apenas julgamentos contra Israel. Como, é interrogado, poderia um profeta proclamar numa ocasião a vinda de julgamento contra os pecados, e na próxima falar de maravilhosas promessas a um povo pecaminoso? Alguns mantêm, além disso que a idéia de uma era abençoada se originou na Pérsia, pelo que todas as passagens que falam dessa era devem necessariamente datar de um período posterior ao exílio, quando os israelitas estiveram em contacto com aquela nação. Segundo esse ponto de vista uma considerável porção de Ezequiel tem que ser reputada como interpolação posterior, e tal é a posição de Hölscher. Seu discípulo, von Gall, aplicou o mesmo critério a todos os profetas; o processo postulado de edições graduais dos livros proféticos, nas quais eram feitos “acréscimos” sucessivos ao texto em gerações sucessivas, evoca grande admiração em vista da engenhosidade do esquema, mas é por demais complicado para ser real. A maioria dos eruditos rejeitam a noção de que a esperança de um reino de Deus era propriedade exclusiva da nação persa; essa esperança também era indígena em Israel.
É difícil de compreender por qual motivo os profetas não poderiam ter predito uma restauração após o julgamento; não se deve inferir que viam apenas o caos em vista de suas profecias de condenação, como também não se pode dizer que Jesus via apenas a ruína para o povo escolhido, quando predisse a destruição de Jerusalém (Veja: Mc 13.2). Partindo da evidência bíblica é difícil resistir ao ditado de Gressmann: “Renovação mundial necessariamente se segue à catástrofe mundial”. O próprio Ezequiel provê a melhor resposta para essa questão: “Como pôde um profeta ligar ameaçar com promessas para que essa combinação surtisse algum efeito sobre os seus ouvintes?” À parte do desenvolvimento observável na tendência geral de sua profecia-primeiro o julgamento (1-32), e então a consolação (33-48) -ele mistura os dois elementos de tal maneira que cria um senso de vergonha no momento mesmo em que é apresentada a promessa. Ver especialmente Ez 20.42 e segs.: “E sabereis que eu sou o Senhor, quando eu vos fizer voltar à terra de Israel… E ali vos lembrareis de vossos caminhos, e de todos os vossos atos com que vos contaminastes, e tereis nojo de vós mesmos, por todas as vossas maldades que tendes cometido”. (A passagem inteira de Ez 20.33-44 deve ser cuidadosamente lida, pois aqui também se pode observar uma espécie de doutrina sobre a remanescente). Pode-se adicionar que essa posição geral está sendo adotada por um número cada vez maior de eruditos do Antigo Testamento; quanto a detalhes maiores, o estudante poderá examinar as obras padrões sobre a teologia e a escatalogia do Antigo Testamento.
A segunda consideração principal é mais importante e tem ocasionado a maior parte das teorias mais recentes a respeito do livro de Ezequiel. Apesar de que o profeta vivia na Babilônia, dirigia-se constantemente aos judeus deixados em Jerusalém. Expedia profecias simbólicas para benefício deles, as quais não obstante, não podiam ver; conhecia perfeitamente a situação deles; descrevia acontecimentos que testemunhara suceder em Jerusalém e suas circunvizinhanças, como, por exemplo, as idolatrias dos anciães no templo (capítulo 8), a súbita morte de um deles (Veja: Ez 11.13), a tentativa de Zedequias para escapar de Jerusalém à noite (Veja: Ez 12.3-12), o fato de Nabucodonosor ter consultado sortes em encruzilhadas de estradas a caminho daquela cidade (Veja: Ez 21.18 e segs.) e o fato de mais tarde haver-se acampado fora de Jerusalém (Veja: Ez 24.2). Que um homem que vivia na Babilônia pudesse testemunhar acontecimentos dessa ordem em lugar tão remoto como Jerusalém parece falta de bom senso para uma época científica como a nossa; por conseguinte, alguns argumentam que deve ser procurada alguma outra solução. Ou Ezequiel realmente vivia em Jerusalém, e não na Babilônia, e seu livro encorpora suas profecias genuínas com as de um redator posterior que se dizia viver como exilado (conforme opinião de Herntrich); ou a situação inteira é fictícia e a obra é comparável aos escritos apocalípticos pseudônimos do judaísmo posterior, e pertenceria, em realidade, à época de Alexandre (segundo opinião de Torrey). Dessas duas alternativas dificilmente alguém leva a sério a segunda, mas a primeira merece considerável atenção e é aceita por Oesterley (Introduction to the Old Testament, págs. 324-325). Cooke, entretanto, é o porta-voz dos sentimentos de muitos críticos ao dizer que é tão difícil acreditar num redator altamente imaginário como aceitar as declarações contidas no texto (I. C. C., pág. 23). Conseqüentemente, ele aceita a autenticidade do livro nos seus aspectos principais; e o consenso da erudição moderna está de seu lado. Guillaume tem, além disso, relacionado esse extraordinário dom de segunda vista possuído por Ezequiel a outros fenômenos semelhantes do Antigo Testamento, e até mesmo no moderno mundo beduíno. Mediante suas pesquisas ele nos tem capacitado a compreender melhor um tipo de mente que tem pouco em comum com a moderna civilização ocidental (Prophecy and Divination; ver especialmente as págs. 155-158). Se essa controvérsia não tiver servido para outro propósito, portanto, do que de destacar o caráter verdadeiramente extraordinário de Ezequiel, mesmo assim não terá sido vã.
Ezequiel, pois, ministrou para sua nação, tanto para aquela porção que estava no exílio como para aquela outra que permaneceu na pátria. Ele era contemporâneo mais jovem de Jeremias; e, a julgar pelos ecos do profeta mais idoso no livro de Ezequiel, aquele deve ter mantido considerável contacto com este.
TEOR DO LIVRO
Conforme demonstra o esboço do conteúdo (ver adiante), o livro foi construído segundo um plano claramente definido, e o escritor aderiu firmemente aos assentos de cada seção. Após a visão introdutória dos capítulos 1-3, Ezequiel se concentra quase exclusivamente em desnudar a iniqüidade de seu povo. Sem dó arrasta seus pecados para debaixo da luz e pronuncia contra eles o julgamento de Deus. Por meio de ações simbólicas, parábolas, oratória inflamada e declarações lógicas ele reitera seu tema que versa sobre a iniqüidade da nação e sobre sua inevitável destruição. A repetição da denúncia e da ameaça de condenação é tão constante a ponto de fazer o leitor recuar horrorizado, especialmente em vista do fato que, enquanto que outras obras proféticas iluminam suas ameaças com promessas, este elemento falta quase inteiramente na primeira seção do livro de Ezequiel. E quando ele permite que brilhe algum raio de esperança, este usualmente se torna vermelho como fogo, pelo que a restauração referida se torna algo vergonhoso e não algo que causasse alegria (ver, por exemplo, Ez 16.53-58; Ez 20.43-44). Nisso, como também em outros aspectos, Ezequiel mostra afinidades com o autor do livro de Apocalipse, pois ambas as obras exibem, como nenhum outro em seus respectivos Testamentos, o insaciável terror da ira de Deus.
A segunda seção (capítulos 25-32) limita-se aos oráculos dirigidos centra as noções circunvizinhas de Israel, tanto os estados vassalos que assaltaram os judeus em sua hora de amargura como as grandes nações da época. Aqui a imaginação poética de Ezequiel sobe a seu clímax; são-nos dados alguns dos quadros falados mais vividos do Antigo Testamento em seus oráculos contra o príncipe de Tiro e o Faraó do Egito. É curioso que Ezequiel faça silêncio quanto ao destino da Babilônia, o principal poder destruidor de Jerusalém. Alguns acreditam que, visto que essa nação deve ter necessariamente figurado nas profecias condenatórias de Ezequiel, que a Babilônia deve aparecer aqui sob o símbolo de Gogue, na profecia dos capítulos 38 e 39. Não obstante, não existe no texto a menor indicação dessa possibilidade, e tudo parece apontar contra tal identificação. Pode-se sentir que, à semelhança de Jeremias, Ezequiel considerava Nabucodonosor como um servo do SENHOR, e assim considerava suas ações como divinamente ordenadas; diferentemente de Jeremias, porém, Ezequiel não recebeu qualquer palavra subseqüente a respeito da Babilônia, e por isso deixou a questão nas mãos de Deus.
O ponto principal do ministério de Ezequiel foi ocasionado pela chegada de um mensageiro enviado de Jerusalém, anunciando a queda da cidade (Veja: Ez 33.21). Em face do consistente ceticismo do povo para com sua pregação, esse acontecimento constituiu a confirmação divina a seu ministério. Daí por diante o povo se reunia para ouvi-lo (Veja: Ez 33.30). Agora ele estava livre para entregar-se à tarefa de reabilitar a nação espalhada, e isso forma o tema dos capítulos 33-37.
Desde muito tem sido motivo de perplexidade o fato que, após a restauração da nação na era messiânica, Ezequiel tenha falado sobre um novo levante de poderes estrangeiros contra Israel (38 e 39). Existem, não obstante, razões convincentes por detrás desse ensino, e não podemos ver qualquer necessidade de negar sua autoria a Ezequiel. Ver as notas introdutórias a esses dois capítulos, no corpo do comentário.
A conclusão do livro (40-48) é o produto de uma mente devota que por longo tempo e afetuosamente ponderou a respeito da adoração de Israel em sua vindoura era de bênção. Somos aqui fortemente relembrados que Ezequiel era ao mesmo tempo um sacerdote e um profeta. Nessa qualidade, ele combinava em si mesmo as duas grandes correntes da tradição de Israel. Numa terra purificada de toda impureza, é exibida a adoração ideal num templo ideal a ser observada por um povo ideal.
PECULIARIDADES
Duas características da personalidade de Ezequiel já têm sido mencionadas, a saber, a vivacidade de sua imaginação e seus poderes sem paralelo de telepatia, clarividência e prognóstico. Essas coisas se combinavam com um senso avassalador sobre a transcendência de Deus que pode produzir passagens de literatura que, de muitos modos, parecem estranhas para a mente moderna, mas que são ricamente recompensadoras para o investigador. Por exemplo, quantos são os que têm ficado tão perplexos pelo relato de Ezequiel sobre sua visão inaugural, no capítulo primeiro, a ponto de não continuarem a leitura de seu livro? No entanto, uma vez compreendido esse capítulo fica percebido que ele é altamente significativo e dotado de grande valor espiritual, como os próprios judeus reconheciam. (Uma afirmação do Mishnah registra que a Carruagem, isto é, Ez 1, e a Criação, isto é, Gn 1, são dois particulares que devem ser expostos apenas para uma pessoa prudente; Ag 2.1, citado por Cooke, pág. 23). Observações semelhantes poderiam ser feitas no tocante a muitas passagens obscuras e negligenciadas de Ezequiel.
Em certas direções Ezequiel foi o pioneiro de movimentos de pensamento que estavam destinados a se desenvolverem como características do judaísmo posterior. Ele foi o primeiro a declarar, com clareza dogmática, a verdade da obrigação individual. Mediante a freqüência de suas visões e a natureza de êxtase de muitas de suas afirmações, e especialmente mediante suas profecias concernentes a Gogue e o reino futuro, ele moldou um tipo de profecia que, no tempo devido, conduziu ao movimento apocalíptico. Ezequiel, pois, é a ponte entre a profecia e o apocalipse. Além disso, devido a seu treinamento sacerdotal ele se sentia naturalmente mais interessa do na adoração do que no evangelismo; conseqüentemente, o espírito missionário, tão evidente nos últimos capítulos, de Isaías está quase totalmente ausente nos escritos de Ezequiel. Em todas essas questões, a saber, a obrigação individual, a profecia apocalíptica e o esquecimento dos gentios na contemplação de reino de Deus, o judaísmo foi muito além de Ezequiel e, em certas direções produziu, realmente, uma caricatura de seu ensinamento. (Ver, por exemplo, as anotações introdutórias ao capítulo 18, no corpo do comentário). É injusto, todavia, culpar Ezequiel desses desenvolvimentos infelizes, como é injusto culpar Daniel por causa das puerilidades de alguns escritos apocalípticos, ou culpar o apóstolo Paulo por causa da doutrina da predestinação à condenação. Onde Ezequiel e Daniel fizeram silêncio, ou quando muito, se mostraram implícitos, o judaísmo se tornou explícito e exagerado, tal como a lógica de algumas pessoas as leva até uma posição que a maioria dos crentes cristãos acredita seria rebatida por Paulo. É infeliz em alto grau, por conseguinte, que muitos eruditos bíblicos depreciem Ezequiel como retrógrado em sua doutrina. Pelo contrário, seu livro faz importantíssima contribuição, na providência de Deus, para o desdobramento da revelação de Deus na Bíblia. Precisa ser estudado com maior simpatia do que alguns estudiosos modernos estão presentemente inclinados a fazê-lo.
Finalmente, poderia ser talvez mencionado que em alguns lugares o texto de Ezequiel tem sofrido muito devido à transmissão do texto. Indicar cada uma dessas dificuldades exigiria mais espaço do que é permitido num comentário desta extensão. Somente as correções mais importantes tem sido salientadas na exposição. Ao estudante interessado é recomendado um utilíssimo comentário, por G. A. Cooke, no I. C. C. Apesar de que em alguns respeitos ultrapassa na questão de conjetura além do que os eruditos conservadores geralmente permitiram, tal comentário é caracterizado em seu corpo principal pelo menos por uma recomendável sobriedade de julgamento. Este escritor não tem hesitado em aproveitar dele freqüentemente.
INDOMÁVEL CABEÇA DURA / FACE INFLEXÍVEL
Ezequiel tem sido considerado, com freqüência, uma pessoa severa, insensível. Tem-se dito que é impessoal, indiferente a seus ouvintes, e só lhe preocupa a vindicação da glória de Deus, mesmo na proclamação da misericórdia. Conquanto seus sentimentos não aflorem à superfície, como no caso de Jeremias, a afirmativa de que ele não é compassivo equivaleria a ir além das evidências. Os atos simbólicos que ele executa e as visões que recebe não são, em essência, diferentes dos que os outros profetas registram.
A partir de anotações biográficas deixadas por Ezequiel, podemos deduzir que tipo de pessoa era.
O Senhor lhe disse: “Mas eu tornarei a tua face tão inflexível como a deles (a face dos israelitas) e a tua fronte tão inflexível como a sua. Farei a tua fronte semelhante ao diamante que é mais duro do que uma rocha” (Ez 3, 8-9).Tão inflexível que foi capaz de suportar, sem nenhum sinal de aflição, a dor pela morte da esposa, “o desejo dos teus olhos” lhe foi tirado de um golpe, enquanto realizava sua missão por ordem de Deus, no dia em que Nabucodonosor começou o seu cerco final de Jerusalém. (24:2,18). Enfim, um indomável cabeça-dura, capaz das ações mais incompreensíveis para chamar a atenção de seu povo para as mensagens do seu Senhor. Agia de maneira muito estranha, como quando, para expiar as culpas dos reinos de Israel e de Judá, ficou deitado por 390 dias sobre o lado esquerdo e 40 dias sobre o direito. Para evitar a tentação de se mover, amarrou-se com cordas. Imaginem a reação dos deportados quando viam esse profeta manter-se obstinadamente naquela posição estranha e, além disso, tomar aquele tipo de refeição, obedecendo às ordens de Deus: “Este alimento tu o comerás sob a forma de pães de cevada, assados à vista deles com excrementos humanos secos” (Ez 4, 12).
Conclusão
O caráter de Ezequiel como escritor e poeta é admiravelmente descrito pelo hábil Bispo Lowth da seguinte maneira: “Ezequiel é bem inferior em elegância do que Jeremias. No que diz respeito à sublimidade, porém, Ezequiel não é sobrepujado nem mesmo por Isaías. Mas sua sublimidade é de um tipo totalmente diferente. É profundo, incisivo, trágico. Seus sentimentos são de ânimo, entusiasmo, inflamação e cheios de indignação. As imagens usadas são múltiplas, grandiosas, assustadoras. Sua linguagem é grandiosa, austera, rude, e, às vezes, indelicada. Repetições são comuns, não para dar graça ou elegância ao texto, mas por causa da veemência e indignação do profeta. Todos os assuntos são abordados com diligência. Dificilmente deixa de proceder assim, mas atém-se aos assuntos. Por isso fica clara a conexão entre um assunto e outro. Em outros aspectos, talvez Ezequiel seja excedido por outros profetas. Porém, nas peculiaridades da composição, provindas de seus dons naturais-a força, o ímpeto, a seriedade e a grandeza-nenhum dos escritores sacros é superior a Ezequiel. Seu estilo é bastante perspicaz. A obscuridade se deve à natureza dos assuntos. Visões (como por exemplo as de Oséias, Amós e Zacarias) são forçosamente obscuras e confusas. A maior parte de Ezequiel, especialmente a parte do meio do livro, é poética, se considerarmos a natureza da linguagem.” O arcebispo Newcome observa com razão: O profeta não deve ser considerado simplesmente um poeta, ou um moldureiro das visões majestosas e impressionantes, que ele descreveu; deve ser considerado um instrumento nas mãos de Deus, que houve por bem revelar-se durante um longo e sucessivo período de tempo, não apenas em diversas partes que constituem um todo magnífico e uniforme, mas também de diversas maneiras, entre as quais pela voz, por sonhos, por inspiração e por visões claras ou enigmáticas. “Ezequiel é um grande poeta, cheio de originalidade. E, na minha opinião, se alguém o censurar como ele fosse apenas um imitador de profetas antigos, nunca pôde sentir o poder dele. Em geral, ele não deve ser comparado com Isaías e o restante dos profetas antigos. Aqueles são grandes; Ezequiel também é. Aqueles possuem o seu estilo poético; Ezequiel possui o seu.” Para justificar o seu carácter, o sábio prelado se atém às particularidades e dá alguns exemplos adatados, não somente claros, fluentes e tensos, mas sublimes. Ele conclui suas observações sobre o estilo, afirmando ser da opinião que “o estilo expressa a época antiga da linguagem e composição hebraicas (como tem sido alegado); é um estilo firme e vigoroso, e deveria induzir-nos a definir a sua infância e maturidade com a melhor atenção.” Como profeta, Ezequiel nunca deve ser elevado à uma posição muito elevada. Mas poucos profetas deixaram um tesouro mais valioso para a igreja do que Ezequiel. É verdade, ele é obscuro em várias partes, mas isso é resultado da natureza dos assuntos tratados ou dos eventos profetizados, que ainda estão para se cumprir. Quando o tempo remover a névoa do futuro, gerações posteriores perceberão a sabedoria celeste com que este profeta negligenciado falou. No entanto, uma grande parte do livro de Ezequiel não é obscura, mas extremamente edificante. Ele predisse de maneira acurada e minuciosa a sorte e a condição de várias nações e cidades. Nada pode ser mais interessante do que observar o cumprimento exato destas profecias nos relatos fornecidos por historiadores e viajantes. O profeta usa o elegante símbolo de um novo templo a ser construído, um novo culto a ser introduzido e uma Nova Jerusalém a ser edificada, destinando-se a terra às doze tribos. Com isso pode-se descobrir a grande extensão e glória da igreja do Novo Testamento.
O PROFETA DANIEL
A História De Sundar Singh
O mundo dele se desmoronou quando ele tinha catorze anos de idade e sua mãe mor reu. Sem esperança e desanimado, ficou com raiva do mundo. No seu desespero, comprou uma Bíblia cristã para poder arrancar página por página e jogá-la no fogo.
Depois, profundamente abatido, entrou no seu quarto e ficou lá durante vários dias. Uma noite orou com todo o fervor: “Oh, Deus – se é que Tu existes – revela Te a mim esta noite.” O expresso de Ludhiana para Lahore passaria às cinco da manhã, e ele decidiu que se Deus não Se revelasse até então, ele iria aonde o trem passava e colocaria a cabeça nos trilhos para pôr um ponto final na situação. E orou a noite inteira.
Durante a noite, o Senhor apareceu Lhe e disse: “Por que me você Me persegue? Lembre se que Eu dei a Minha vida por você na cruz.”
Quinze minutos antes das cinco, ele saiu do seu quarto correndo para ir acordar o pai. Contou-lhe que havia visto uma visão de Jesus e que agora era cristão!
O pai respondeu:
– Você deve estar louco! Vem me acordar para dizer que é cristão; e não faz nem três dias você queimou o livro cristão!
Sundar endireitou se, olhando para as mãos.
– Foram estas mãos que fizeram isso. Nunca mais, até ao dia em que eu morrer, conseguirei limpá-las desse pecado! – depois voltando se para o seu pai disse, – Mas até chegar esse dia, a minha vida pertence a Ele!
E assim foi.
Como ele queria ganhar a Índia para Cristo e como havia muitos preconceitos contra tudo o que fosse ocidental, ele adotou o traje amarelo de sadhu e o usou até morrer.
O sadhu, Sundar Singh, também tinha um grande desejo de evangelizar o Tibete e era um aventureiro inato. Durante o resto da sua vida, quase todos os verões ele conseguiu de alguma forma chegar ao Tibete, embora fosse alvo de perseguições freqüentes. Um verão as coisas correram especialmente mal. As encrencas começaram no dia em que atravessou as montanhas. Os aldeões lhe recusaram toda e qualquer hospitalidade. Sundar Singh quase se afogou na cor rente de um rio gelado. A comida era escassa, e foi tratado com crueldade. Lamas e sacerdotes instigavam as perseguições que os camponeses lhe faziam. Pregar Jesus no Tibete poderia facilmente representar a morte. Mas a morte não o apavorava. Sua única preocupação era ser leal ao seu Senhor.
As coisas ficaram especialmente ruins numa cidade chamada Razar. Ele começou a pregar no mercado, dormindo à noite no complexo desabrigado onde comerciantes e animais dormiam encostados uns nos outros para se esquentarem. No princípio, a sua pregação atraiu muitas pessoas curiosas. Mas, quando o principal Lama ouviu falar da pregação dele, a curiosidade das pessoas transformou se em fúria.
Uma manhã, o guarda no mosteiro agarrou o sadhu e o arrastou para um julgamento sumário. E, ao olhar para o rosto do dalai lama, sabia que poderia lhe acontecer uma das duas coisas: ou o colocariam dentro da pele molhada de um iaque, que depois costurariam e deixariam no calor do sol para secar e encolher, até o esmagar; ou seria jogado num poço profundo e seco em cima dos cadáveres daqueles que haviam sido atirados para lá antes dele, e o deixariam morrer de fome.
Escolheram o poço. O arrastaram até lá e lhe bateram até que um soco o jogou de cabeça dentro do poço. Depois ouviu a tampa sendo trancada. O fedor era medonho, pois muitos outros haviam mor rido ali.
Sundar orou para que o Senhor o libertasse, mas não fazia idéia como isso aconteceria. Como tinha um dos braços quebrados, não podia de maneira alguma subir até ao topo. Ainda que pudesse, não conseguiria sair, porque o próprio dalai lama tinha a única chave, que agora deveria estar tinindo outra vez no molho de chaves debaixo das suas vestes.
As horas passaram e viraram dias. Sundar passou três dias e três noites com aquele cheiro insuportável do poço. Então, de repente, ouviu uma chave girar na fechadura. A tampa foi aberta, guinchando com a sua dobradiça enferrujada, e ele sentiu uma corda tocar o seu rosto. No final da corda tinha uma laçada. Enfiando uma perna na laçada, segurou a corda com o braço são. Lentamente o puxaram até ao topo onde ele caiu no chão e encheu os pulmões com o ar fresco da noite. Mas quando olhou em volta, o seu libertador havia desaparecido.
Devagar e penosamente, arrastou se até ao lugar onde dormira antes. Conseguiu dormir um pouco, o que o renovou. Quando o dia nasceu, tomou um banho para se livrar do cheio da morte e voltou ao mercado para pregar!
Uma hora depois, voltou a ser preso por monges furiosos. O dalai lama o inter rogou vezes sem conta. Quem o havia ajudado a escapar? Foi homem ou mulher? E, fosse quem fosse, como é que ele ou ela havia conseguido a chave? Essa era a grande questão. Só havia uma chave e deveria estar na posse do lama. O lama afastou as vestes, levantou se e pegou no molho de chaves preso na cor rente.
– Só existe uma chave para o poço. Deveria estar aqui. Quem a roubou para libertar você? Como…
De repente, ficou apavorado, e virou se para os monges, furioso, mas com medo:
– Levem este homem embora… para longe desta cidade… soltem no… e nunca mais permitam que ponha os pés em Razar!
A chave do poço ainda se encontrava no seu molho de chaves!
Sundar confiava em Deus para tudo: proteção, comida ou qualquer coisa que ele precisasse. Quando lhe perguntaram qual era o segredo da sua imunidade ao perigo, ele respondeu simplesmente que Deus o protegia. E era óbvio que Deus realmente o protegia, porque até animais selvagens não lhe faziam mal.
Numa ocasião ele estava na casa de um amigo, nas colinas de Simla. O jantar havia terminado e os dois se sentaram tranqüilamente na varanda. Quando pararam de conversar por um pouco, Sundar levantou se e atravessou calmamente o gramado em direção às árvores da floresta que rodeavam o jardim. Ficou ali olhando para as luzes das aldeias no outro lado do vale.
De repente, ainda na varanda, o seu amigo ficou tenso e levantou se de um pulo, aterrorizado com o que viu. Saindo lentamente de entre as árvores apareceu um leopardo. Parou, olhou por um momento para o sadhu imóvel e depois começou a avançar para ele. O amigo não se atreveu a gritar com medo que isso fizesse o animal dar o bote. Mas também não podia ficar calado. Sundar virou se calmamente, viu o animal e estendeu a mão para ele. O leopardo levantou se, avançou e ficou do lado de Sundar, que afagou a sua cabeça como se fosse um animal de estimação. O amigo descontraiu se. Não havia necessidade de temer. Nunca tinha havido. O leopardo ficou ali, levantando a cabeça para Sundar de vez em quando. E quando o sadhu veio para casa, o robusto leopardo desapareceu por entre as árvores.
Será que o Deus a quem nós servirmos não seria capaz de operar um livramento igual ou superior a este, também por nós?
Como esta história, que é verdadeira, o profeta Daniel também tem as suas histórias de livramento e de bênçãos. E é este Livro que iremos estudar agora.
INTRODUÇÃO AO LIVRO DO PROFETA DANIEL
SUA POSIÇÃO NA BÍBLIA
Na Bíblia hebraica o livro de Daniel se encontra na terceira divisão, os Hagiographa, e não na segunda, na qual aparecem os livros proféticos. A razão disso não é que Daniel tenha sido escrito depois dos livros proféticos. Em algumas listas, pode-se observar, Daniel é incluído na segunda divisão do “cânon”. Entretanto, o motivo pelo qual Daniel veio a ser colocado na posição que atualmente ocupa depende da posição de seu escritor na economia do Antigo Testamento.
Os autores dos livros proféticos eram homens que ocupavam a posição técnica de profeta; isto é, eram homens especialmente levantados por Deus para servir de mediadores entre Deus e a nação, declarando ao povo as palavras idênticas que Deus lhes tinha revelado. Daniel, porém, não foi profeta nesse sentido restrito e técnico. Foi antes um estadista na corte de monarcas pagãos. Na qualidade de estadista, possuía realmente o dom profético, embora não tenha ocupado o ofício profético, e é nesse sentido, aparentemente, que o Novo Testamento o chama de profeta (Veja: Mt 24.15). Portanto, Daniel foi estadista, inspirado por Deus para escrever o livro que tem seu nome, pelo que também esse livro aparece no “cânon” do Antigo Testamento na terceira divisão, entre os escritos de outros homens inspirados que não ocuparam o ofício profético.
A INTENÇÃO DO LIVRO
No monte Sinai, no deserto, o Deus do céu e da terra depositou Sua afeição de modo peculiar sobre Israel, escolhendo essa nação para ser Seu povo e declarando que Ele seria seu Deus. Dessa maneira entrou em relação de concerto com Israel, manifestando tal relação por um poderoso ato de livramento. Seu propósito para com essa nação era que ela fosse um “reino de sacerdotes” e que Deus fosse seu governante. Assim foi estabelecida a teocracia (governo de Deus). Israel deveria ser uma nação santa, uma luz para iluminar os gentios e dar testemunho do conhecimento salvador do verdadeiro Deus a todos.
Israel, todavia, não foi fiel a esse alto propósito. Depois que já se achava por algum tempo na Terra Prometida, exibiu insatisfação com os princípios fundamentais da teocracia ao solicitar um rei humano, para que fosse semelhante às nações ao seu derredor. Em primeiro lugar lhe foi dado um homem mau como rei, e então um homem segundo o próprio coração de Deus. Davi, entretanto, era homem de guerra, pelo que não foi senão durante o reinado pacífico de Salomão que o templo, o símbolo externo do reino de Deus, foi edificado. Após a morte de Salomão rebelaram-se as tribos do norte, renunciando às promessas da aliança. Dessa ocasião em diante, tanto nos reinos do norte como do sul, a iniqüidade passou a caracterizar o povo, pelo que Deus anunciou Sua intenção de destruí-los (cfr. Os 1.6; Am 2.13-16; Is 6.11-12, etc.). Os instrumentos que o Deus soberano empregou para realizar Seu propósito de fazer ponto final na teocracia foram os assírios e babilônios. Sob o poder dessas nações o povo teocrático foi levado em cativeiro, e o exílio ou período de “Indignação” foi iniciado (Veja: Is 10.25; Dn 8.19). O próprio exílio foi seguido por um período de expectativa e preparação para a vinda do Messias. Foi revelado que um período de setenta vezes sete tinha sido determinado por Deus para a materialização da obra messiânica (Veja: Dn 9.24-27). O livro de Daniel, um produto do exílio, serve para mostrar que o próprio exílio não seria permanente. Pelo contrário, a própria nação que havia conquistado Israel desapareceria da cena da história para ser substituída por outra e, de fato, por três outros grandes impérios humanos. Enquanto esses impérios estivessem em existência, entretanto, o Deus do céu erigiria outro reino que, diferentemente dos reinos humanos, seria ao mesmo tempo universal e eterno. O propósito de Daniel, por conseguinte, é ensinar a verdade que, embora o povo de Deus esteja escravizado em uma nação pagã, o próprio Deus é seu soberano e aquele que em última análise dispõe dos destinos, tanto dos indivíduos como das nações.
Essa verdade é ensinada por meio de um rico uso de símbolos e comparações, e o motivo dessa característica se encontra no fato que as revelações feitas a Daniel tiveram a forma de visão. O livro de Daniel, pois, pode assim ser chamado de obra apocalíptica, mas se eleva muito acima dos apocalipses pós-canônicos. A única obra que pode com justiça ser-lhe comparada é o livro neo-testamentário do Apocalipse. Essencialmente, Daniel exibe as qualidades de um livro verdadeiramente profético e suas comparações são usadas tendo em vista um propósito didático.
QUEM ESCREVEU
O livro de Daniel é um produto do exílio e foi escrito pelo próprio Daniel. Pode-se notar que Daniel fala na primeira pessoa do singular e assevera que as revelações foram feitas a Ele (Veja: Dn 7.2,4 e segs.; Dn 8.1 e segs. Dn 8.15 e segs.; Dn 9.2 e segs. etc.). Visto, entretanto, que esse livro forma uma unidade, segue-se que o autor da segunda porção (capítulos 7 a 12) deve também ter composto a primeira (capítulos 1 a 6). O segundo capítulo, por exemplo, é preparatório para os capítulos 7 e 8, que desenvolvem seu conteúdo de modo mais completo e claramente o pressupõem. As idéias do livro refletem um ponto de vista básico e essa unidade literária tem sido reconhecida por eruditos de diferentes escolas de pensamento. O livro de Daniel reflete ambientes babilônicos e persas, e as alegadas objeções históricas (que serão discutidas no comentário) não são realmente válidas. Finalmente, uma aprovação indireta à autenticidade do livro parece encontrar-se nas seguintes passagens do Novo Testamento: Mt 10.23; Mt 16.27 e segs.; Mt 19.28; Mt 24.30; Mt 25.31; Mt 26.64.
Na Igreja Cristã tem sido tradicionalmente mantido, devido às reivindicações do próprio livro, que o Daniel histórico foi seu autor. A primeira dúvida conhecida a ser lançada sobre esse ponto de vista veio da parte de Porfírio de Tiro (nascido cerca de 232-233 A. C.), um vigoroso oponente do Cristianismo, que sustentava que essa obra era produto de um judeu que vivera no tempo dos macabeus. Durante os séculos XVIII e XIX, particularmente este último, a opinião de Porfírio parece ter ocupado posição proeminente no mundo erudito. Foi largamente mantido que o livro de Daniel fora escrito por um judeu desconhecido, que vivera no tempo de Antíoco Epifanes. Os motivos para tal opinião eram a notável exatidão pela qual aquele período é descrito em Daniel, as supostas inexatidões históricas no livro, e a alegada linguagem mais recente empregada na composição da profecia. Algumas vezes, igualmente, podia-se verificar uma atitude de aversão para com o caráter sobrenatural do livro, o que evidentemente tinha levado certos homens a procurarem negar seu autêntico caráter profético. Recentemente, contudo, talvez principalmente como resultado do estudo de Hölscher (“Die Entstehung des Buches Daniel”, em Theologische Studien und Kritiken, XCII, 1919, págs. 113-138), tem sido mais evidente a tendência de reconhecer a antigüidade de muito material básico em Daniel. Mas até hoje é mantido-erroneamente, segundo acreditamos-que o livro, em sua presente forma, vem desde o segundo século A. C., mas que muito de seu material, particularmente na primeira porção, é muito mais antigo.
Será útil considerar de passagem algumas das objeções históricas que têm sido levantadas contra o livro de Daniel.
Em primeiro lugar é alegado que o uso do termo “caldeu” deixa entrever uma era posterior ao século VI A. C. No livro de Daniel esse termo é empregado num sentido étnico para denotar uma raça e é igualmente usado de modo mais restrito para indicar uma classe particular, a saber, os sábios. Segundo é alegado, porém, este último uso só teve origem muito depois do tempo de Daniel. Em resposta pode-se dizer que Heródoto (cerca de 440 A. C.,) fala dos caldeus como uma casta de tal modo que demonstra que assim deveria ser considerado já desde muito antes desse tempo. Mas, visto que as referências extra-bíblicas são tão poucas, não sabemos bastante para asseverar que as representações em Daniel acham-se em erro.
Também têm alguns acusado que Daniel nunca teria sido admitido no sacerdócio babilônico nem teria sido feito seu cabeça. A leitura cuidadosa da profecia, entretanto, mostra que Daniel meramente exercia autoridade política (Veja: Dn 2.48-49). Não existe evidência de que ele tenha sido admitido ou iniciado em qualquer casta religiosa. Se o livro de Daniel fosse realmente de data posterior, como poderíamos conceber que o autor posterior pintasse Daniel a entrar numa casta pagã?
Algumas vezes tem sido mantido que não há alusões extra-bíblicas referentes ao relato da loucura de Nabucodonosor, pelo que concluem que essa narrativa bíblica não é histórica. Não obstante, o historiador Eusébio cita, de Abidenus, uma descrição sobre os últimos dias de Nabucodonosor na qual a linguagem é tal que subentende que algo estranho havia ocorrido perto do fim da vida do rei. Existem algumas similaridades nesse relato com o que é exposto em Daniel. Em Berossus, igualmente (registrado na obra de Josefo, Contra Apionem, 1.20) há certo reflexo sobre o fato da loucura do rei. Deveria ser salientado, entretanto, que mesmo que não houvesse ecos extra-bíblicos sobre o fato do desvario de Nabucodonosor, por si mesmo isso não significaria que o relato bíblico não é histórico.
A objeção a ter sido Daniel autor do livro também tem sido apresentada baseada no fato que a linguagem aramaica, na qual uma porção do livro foi escrita, pertence a um período posterior ao de Daniel. Apesar de que nada existe no próprio aramaico do livro de Daniel para excluir a autoria de Daniel, parece muito provável que os caracteres aramaicos são aqueles chamados aramaico “Reich” ou “Reino”; isto é, o que foi introduzido no Império persa por Dario I. Esse fato, entretanto, exclui Daniel como autor? De maneira alguma. É perfeitamente possível que o aramaico no qual o livro de Daniel se encontra escrito seja simplesmente uma modernização do aramaico no qual o livro foi originalmente composto. A questão da autoria do livro deve ser estabelecida sobre outras bases que não a da linguagem em que foi escrito.

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