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Profetas Menores

Significado da expressão “profetas menores”
Embora os dezessete livros proféticos do Antigo Testamento sejam o “continente obscuro da Escritura”, as pessoas têm ainda menor familiaridade com os doze profetas menores como um todo do que com os cinco profetas maiores. Estes doze livros se tornaram conhecidos como Profetas Menores no final do quarto século d.C., não porque foram considerados menos importantes ou menos inspirados, mas porque são geralmente menores do que os cinco Profetas Maiores, especialmente os livros de Isaías e Jeremias. Suas mensagens são mais sucintas do que as dos Profetas Maiores, mas igualmente poderosas.
Antes do tempo de Cristo, estes doze livros foram reunidos em um só rolo, coletivamente conhecidos como “Os Doze”. Sua extensão combinada (sessenta e sete capítulos) é aproximadamente igual à de Isaías. A única importância cronológica da ordem dos Profetas Menores na Bíblia portuguesa é que os seis primeiros foram escritos antes dos seis últimos.
Os Profetas Menores, de Obadias a Malaquias, cobrem quatro séculos de história através dos Impérios Assírio, Babilônico e Persa. Três foram profetas do reino do norte (Jonas, Amós, Oséias). Seis foram profetas do Reino do Sul (Obadias, Joel, Miquéias, Naum, Sofonias e Habacuque). Embora todos os profetas menores sejam nomeados, muito pouco se conhece da maioria deles. Seus antecedentes e personalidades são completamente diversos, mas os quatro temas proféticos básicos se encontram em todos eles.
Significado do nome de cada profeta
Quase invariavelmente o nome de cada profeta tem um significado que se harmoniza de maneira extraordinária com a sua mensagem. Essa “coincidência” providencial tinha um significado genuíno na opinião dos hebreus antigos, para quem os nomes eram muito importantes. Com muita freqüência, Deus usou nomes para transmitir mensagens.
Disposição de acordo com a cronologia
Embora os Profetas Maiores estejam dispostos em ordem cronológica, os Menores não têm essa disposição. Não há acordo entre os comentadores (talmúdicos ou modernos) quanto ao verdadeiro objetivo da ordem canônica. Os primeiros seis são cronologicamente anteriores aos últimos seis, e estes últimos estão em ordem cronológica. Mas a ordem dos primeiros seis é um enigma, exceto pelo fato de que todos eles tratam do período anterior ao cativeiro do norte. Oséias pode ter sido posto em primeiro lugar devido ao seu comprimento, mas a disposição dos outros nada tem que a ver com tamanho.
Disposição de acordo com tema fundamental
Entre cronologia e estilo, este último tem geralmente primazia (por exemplo, Epístolas do Novo Testamento), especialmente para os hebreus que tinham um conhecimento profundo da sua história pelos Livros Históricos. Era o povo da aliança e o tema aliança aparecia em larga escala em toda a sua literatura. Poderemos deduzir que a ordem dos livros seja motivada pela ênfase do caráter divino e pelo tema da aliança.

O LIVRO DE OSÉIAS
Esboço do Livro
Título (1.1)
I. O Casamento de Oséias Ilustra a Infidelidade de Israel, e a Rejeição e Restauração da Nação (1.2—3.5)
A. O Casamento com Gomer (1.2)
B. O Nascimento dos Três Filhos (1.3-9)
C. Profecia da Restauração (1.10—2.1)
D. Gômer Como Símbolo de Israel (2.2-23)
1. O Adultério de Israel (2.2-5)
2. O Juízo Divino (2.6-13)
3. Deus Promete a Restauração de Israel (2.14-23)
E. A Redenção de Gomer (3.1-5)
II. A Mensagem de Oséias Descreve a Infidelidade, Rejeição e Restauração de Israel (4.1—14.9)
A. O Adultério Espiritual de Israel (4.1-19)
B. O Juízo Divino Sobre Israel (5.1-14)
C. O Arrependimento Insincero de Israel (5.15—6.3)
D. O Registro dos Pecados de Israel (6.4—8.6)
1. Violação do Concerto (6.4-10)
2. Recusa em Confiar em Deus, e Obedecê-lo (6.11—7.16)
3. Servir a Falsos Deuses (8.1-6)
E. A Predição do Juízo de Israel (8.7—10.15)
1. Será Devorada pelas Nações (8.7-14)
2. A Prosperidade Evaporará (9.1-9)
3. A Madre se Tornará Estéril (9.10-17)
4. A Nação Será Destruída (10.1-15)
F. O Amor Persistente de Deus por Israel (11.1-11)
G. Repetição dos Pecados de Israel (11.12—12.14)
H. O Cuidado Passado de Deus e Sua Ira Presente (13.1-16)
1. A Idolatria de Israel (13.1-3)
2. O Cuidado Divino no Êxodo (13.4-6)
3. O Plano Divino em Destruir Israel (13.7-13)
4. O Plano Divino para a Restauração Final de Israel (13.14)
5. Insistência na Destruição Iminente de Israel (13.15,16)
I. Deus Promete Restaurar Israel (14.1-9)
1. A Chamada ao Arrependimento (14.1-3)
2. A Promessa de Bênçãos Abundantes (14.4-9)
1.1. Autor
Oséias, cujo livro se encontra no início do rolo dos doze profetas, marca um novo estágio na profecia hebraica, pois ele é o primeiro ou um dos primeiros profetas a pôr em forma escrita as suas profecias. E a profecia escrita não poderia desejar para seu início um livro mais nobre.
Parece que o profeta era nativo do reino do norte. De qualquer modo, parece que ele era bem versado com sua geografia e os detalhes de sua vida política, religiosa e social. A parte principal e mais volumosa do livro é notável por seu interesse no reino de Israel; as referências à nação irmã do sul são escassas. Seu ministério como profeta foi prolongado; e sobre isso, a lista de reis que aparece no começo do livro é evidência suficiente. Por qual razão o profeta deu início à sua lista dando primeiramente os nomes dos reis de Judá, é algo difícil de dizer. Talvez ele assim tenha feito a fim de demonstrar seu respeito à linha legítima e davídica de reis, que governavam em Jerusalém (cf. 8.4). Com toda a probabilidade seu ministério principal se estendeu desde os últimos dias do reinado de Jeroboão II (782-741 a.C.) até à queda de Samaria (722 a.C.).
1.2. Conteúdo
O conteúdo do livro serve de espelho para as condições políticas, sociais e religiosas que prevaleciam em Israel nos dias do profeta. As últimas décadas da vida do reino do norte foram marcadas por uma frenética e insensata alteração na orientação -agora cortejando o favor da Assíria, em seguida tentando subornar o Egito. Em lugar de depositarem sua confiança em seu Deus, os líderes da nação tentaram salvar o país por meio de esquemas políticos que, pela própria natureza das coisas, estavam destinados a conduzir ao desastre.
Os líderes religiosos do povo mostraram ser igualmente indignos. A forma de religião que prevalecia nos dias de Oséias era um amálgama de adoração a Jeová com a religião idólatra de Canaã. Nessa mistura, de Jeová era retido apenas o nome; o ritual era tirado inteiramente das práticas corruptas da adoração a Baal. Essa adoração exercia um efeito corruptor sobre o povo, visto que estava intimamente ligado a atos de grosseira imoralidade. A situação se agravava ainda mais pelos sacerdotes, cuja única preocupação era promover seus próprios interesses materiais, o que não hesitavam em fazer encorajando o povo a permitir-se cair em seus pecados, assim aumentando as rendas dos sacerdotes mediante as ofertas pelo pecado.
Sob tais condições, não é de estranhar que os padrões morais, e religiosos do povo estivessem tão baixos. Um quadro vívido, embora patético, sobre esse estado de coisas, é dado na parábola transmitida pela tragédia da vida em família de Oséias. O profeta se casara com uma Jovem que, com a passagem do tempo, mostrou-se infiel. Os nomes que o profeta deu aos filhos de sua esposa são sinais da agonia crescentemente aguda pela qual ele passava. A despeito de toda a sua perversidade, entretanto, e embora seu pecado a tivesse levado a ser a concubina-escrava de outro homem, o profeta a reclamou como sua legítima esposa, e sua atitude para com ela, depois disso, é um belo equilíbrio de amorosa ternura e severo julgamento. Tal é o conteúdo de seu livro. Passagens de ternura sem paralelo e de duro julgamento estão mescladas mutuamente a fim de demonstrar os sentimentos de Deus para com Seu povo em desobediência. O tema em redor do qual gira a mensagem inteira da profecia é a queixa de Deus de que Seu povo é falto de conhecimento; e por esse termo devemos entender não simplesmente algum conhecimento teórico, mas um contato íntimo e caloroso do coração do povo com o amoroso coração de Deus.
1.3. A teologia de Oséias
Oséias concentra sua atenção na relação de Deus com Israel. Enquanto Amós está preocupado com a soberania divina com o interesse de Jeová por outras nações, a abordagem de Oséias é uma preocupação exclusiva com a relação de Israel com Deus pertinente ao concerto. “A nação abandonou seu marido Yahweh, e desempenhou o papel de meretriz quando colocou sua confiança nos baalins. […] O pecado não é definido de forma legalista; […] para ele, a essência do pecado de Israel é confiar em qualquer ser ou coisa que exclua Deus na busca de direção e sustento de vida”. (DENTON, 1956, p. 1.119). Por isso, o profeta censura severamente toda forma de idolatria.
A interpretação que Oséias faz da história de Israel prende-se em torno da idéia do amor divino e do conhecimento de Deus. Por trás da figura da paternidade e do casamento estão duas palavras hebraicas usadas por Oséias: ‘ahab e chesed. A primeira é o equivalente hebraico do termo amor, usado para referir-se ao amor humano, quer puro ou impuro. A segunda (chesed) é a palavra traduzida em 2.19 por “benignidade” (RC; ECA; ARA), “amor” (BV; NTLH; NVI) e “amor firme” (RSV). Também significa “amor de concerto”, “amor-concerto”, ou seja, o amor ligado ao concerto. Quando usada em relação a Deus é o equivalente hebraico de “fidelidade” e quando usada em relação ao homem desdobra-se no sentido de “devoção, religiosidade, lealdade”. A palavra ‘ahab é considerada a mais restrita das duas, ao passo que chesed é a mais nobre. Entretanto, há ocasiões em que ‘ahab tem seus termos de elevada nobreza e dignidade. A palavra ‘ahab é empregada para denotar o “amor-eleição” de Deus e forma a base do concerto. Indica a ação redentora do Senhor na história e na escolha de Israel como seu povo.
Havia duas questões que a lei não podia responder acerca de si mesma. A primeira dizia respeito à razão para seu próprio estabelecimento. A única resposta achava-se no amor (‘ahab) de Deus. O “amor-eleição” de Jeová por Israel era a base e a causa única da existência do concerto entre Deus e
Israel. De fato, se não fosse pelo “amor-eleição” de Jeová nunca teria havido concerto e, por conseguinte, Israel. Também de acordo com o concerto, era a contínua obediência de Israel a Deus que tornava possível sua existência.
Mas, e se Israel fosse desobediente? A lei não tinha resposta! Só o amor fiel de Deus poderia oferecer uma solução. Isto nos proporciona a segunda síntese entre a lei e o amor no livro de Oséias. Esta vinculação está ilustrada graficamente pela relação dele com sua esposa adúltera. O amor de Deus atinge o ápice da expressão quando Jeová brada: “Como te deixaria, ó Efraim? Como te entregaria, ó Israel?” (11.8). Oséias usa constantemente a palavra chesed (amor) para denotar a atitude de Jeová pertinente ao concerto. Portanto, ‘ahab é a causa do concerto e chesed é o meio de sua continuação. Assim, chesed seria a atitude expressa para com o concerto da parte de Deus e de Israel. (ADAMSON, 1956, p. 764).
Na progressão da idéia de amor em Oséias há três pontos importantes a destacar. Primeiro, o amor é a base do concerto. Segundo, ele é a resposta ao concerto quebrado e à existência continuada de Israel. Terceiro, a “firmeza” ou a “fidelidade” é o elemento central no amor. Portanto, a base do concerto é o amor e não a lei. Mas a santidade de Deus ainda exige que a lei -a essência do seu amor e concerto -seja guardada e que o transgressor seja excluído da comunhão divina.
Mesmo que haja o amor (chesed) de Deus por Israel, tem de haver um chesed ao Senhor proveniente de Israel. É uma relação recíproca. Deus inicia esse amor e Israel, agradecidamente, retribui. Este é o sentido no qual o amor (‘ahab) é usado de uma forma inferior para uma superior, o sentido de amor humilde e obediente. O amor do homem por Deus no Antigo Testamento está baseado no amor do Senhor pelo homem.
A relação não está elaborada de forma sistematizada, mas ela existe. Se Israel precisava ser grato a Deus por sua eleição, muito mais agradecido precisava ser pelo amor firme e pela fidelidade do Senhor depois de ter quebrado o concerto com Ele.
Assim, vemos que o pano de fundo do concerto entre Jeová e Israel é a graça, não a lei. Poderíamos dizer que a lei, como expressão da santidade de Deus, forneceu a essência do seu amor (chesed) e, portanto, do concerto com seu povo.
O problema do chesed de Deus e do concerto quebrado concentra-se na tensão entre a santidade e o amor divinos. Qual é o equilíbrio entre a misericórdia e a justiça? O livro de Oséias é excelente exemplo desta tensão entre a mensagem de destruição proclamada por Deus e sua misericórdia. Jeová foi constantemente fiel na sua parte do concerto, e é este elemento do amor de Deus que, no final das contas, ocasiona a solução da tensão entre seu amor e sua santidade. Deus mesmo ocasionaria esse arrependimento requerido por ele (12.6) e forneceria a expiação que sua santidade e justiça exigiam (Is 53). É a idéia de amor (chesed) na relação de concerto, ainda que quebrado, que se desdobra no propósito da graça no Novo Testamento. É também este elemento que proporciona o pano de fundo para a profecia do novo concerto em Jeremias e o fundamento da esperança messiânica.
O segundo elemento no livro de Oséias é o conhecimento de Deus. Esta característica surge da “comunhão” que é o resultado do “amor de concerto”. Esta comunhão no pensamento hebraico torna-se o método de conhecer Deus. Wriezen comenta: “Este conhecimento de Deus é essencialmente uma comunhão com Deus, e é também fé religiosa. É algo completamente diferente de conhecimento intelectual: trata-se de conhecimento do coração e demanda o amor do homem (Dt 6); sua demanda vital é andar humildemente nos caminhos do Senhor (Mq 6.8); é o reconhecimento de Deus como Deus, a rendição total a Deus como Senhor”. (WRIEZEN, 1961, p. 105).
Com isto em mente, podemos entender por que era tão sério o clamor de Oséias de que não havia “conhecimento” de Deus em Israel. Indica que não havia fidelidade a Deus, amor a Ele e comunhão com Ele. O profeta não se refere a um conhecimento intelectual, mas a uma relação espiritual. Wriezen demonstra esta dedução quando escreve que, no Antigo Testamento, “o conhecimento de Deus não implica numa teoria sobre a natureza de Deus; não é ontológica, mas existencial: é uma vida na verdadeira relação com Deus”. (WRIEZEN, 1961, p. 105).
A análise descrita acima destaca dois fatores sobre o “conhecimento” no Antigo Testamento. Primeiramente, é espiritual e relacional e não intelectual. Em segundo lugar, tem implicações éticas. Snaith ilustra este segundo ponto quando, ao comentar sobre 4.2, diz que “o verdadeiro chesed (amor) de Israel por Jeová implica […] fundamentalmente em conhecimento de Deus e, resultante disso, lealdade na adoração verdadeira e apropriada, junto com o procedimento adequado a respeito das virtudes humanitárias”. (SNAITH, 1946, p. 156). O fato que conhecimento é essencialmente comunhão, e que isto está baseado necessariamente na relação de concerto com Jeová, acarreta implicações éticas. Pois se o amor é o elemento básico no concerto, não pode estar separado da lei que fornece sua essência. Portanto, o conhecimento de Deus proporciona a transição entre a religião e a ética; assim se justifica o clamor profético pela justiça social e a insistência que a verdadeira religião é muito mais que a observância ritual.
É evidente que a “ética” de Israel era profundamente pessoal e estava baseada na idéia-concerto de chesed (amor), o qual está muito bem apresentado nos escritos de Oséias. Visto que seu tema principal é as relações entre pessoas e seu alvo é a união ou conhecimento no mais pleno sentido da palavra hebraica, chesed é o meio de vencer o afastamento e a desavença. Isto ocorre porque a mente hebraica via o homem, em si, como algo incompleto, alguma coisa menos que ser humano, quando fica separado da relação de concerto. Torna-se verdadeiramente autêntico apenas quando descobre sua relação com Deus e com o homem.
A reconciliação ocorre pelo amor de Jeová ao homem e pela resposta humilde do ser humano em amor. É pelo amor que o homem percebe a verdadeira essência do seu ser.
Oséias com sua teologia de amor prepara o pano de fundo para a idéia do Novo Testamento de que a existência só é percebida num relacionamento com Deus, e a vida mais completa é percebida na koinonia (comunhão de amor). O ápice é atingido nos escritos de João e, sobretudo, em 1Jo 4.16,17: “Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele. Nisto é em nós aperfeiçoado o amor” (ARA).
Nos dias de Oséias, Israel parecia incapaz de arrepender-se e a santidade do Senhor não podia tolerar o pecado. De alguma forma, o amor firme de Deus acharia um meio de trazer as pessoas de volta para Ele. Embora o Senhor tivesse pronunciado certa destruição sobre o pecador, prometeu que nunca abandonaria Israel. O povo israelita tem de ser julgado, mas Deus, em seu amor (chesed), não pode destruí-Io. Esta tensão criativa alcança sua maior expressão em 11.8,9 (ARC), onde, depois de predizer o exílio na Assíria, Jeová brada:
Como te deixaria, ó Efraim? Como te entregaria, ó Israel? Como te faria como Admá? Por-te-ia como Zeboim? Está mudado em mim o meu coração, todos os meus pesares juntamente estão acesos. Não executarei o furor da minha ira; não voltarei para destruir Efraim, porque eu sou Deus e não homem, o Santo no meio de ti; eu não entrarei na cidade.
1.4. Contribuições singulares
1.4.1. O livro enfatiza o amor matrimonial de Deus
Oséias revela uma das imagens mais profundas do amor divino encontrado no Antigo Testamento. Embora forçado a divorciar-se de Israel e julgá-Io devido à sua prostituição (2.2-5), o Senhor ainda confirmou o seu amor pela nação e sua intenção de cortejá-Ia e trazê-Ia de volta em justiça (2.14-16,20). Ele comparou o relacionamento da sua aliança com Israel a uma união conjugal profunda e íntima.
1.4.2. O poder secreto do amor Divino (14.9)
Este versículo final é um desafio aos mais sábios e perspicazes para que esquadrinhem o singular poder do amor de Deus. Embora o amor divino por Israel parecesse fútil e infrutífero no tempo de Oséias, assim não aconteceria em longo prazo, pois “os caminhos do Senhor são retos” (14.9). Seu amor por Israel continuaria apesar da obstinação do povo e, no final, se justificaria numa colheita de justiça. Deus não faz maus investimentos (2.19).
1.4.3. O Profeta e seu casamento falido (1.2; 3.1-3)
A ordem que Oséias, o profeta, recebeu do Senhor para casar-se com uma prostituta é chocante e cria um dilema (1.2). De conformidade com a Lei de Moisés, Gômer deveria ser apedrejada como prostituta (Lv 20.10; Dt 22.21¬24). Não se sabe se ela já era prostituta ao casar-se ou tornou-se depois. Qualquer que seja o caso, os tempos de Oséias não eram normais, pois a terra estava cheia de prostituição e os sacerdotes tinham-se tornado um bando de assassinos (4.12-14; 6.9). O adultério de Gômer, entretanto, alcançara tamanho grau de baixeza que ela se tornara uma prostituta escrava (3.1-2). Todavia, a atitude de Oséias ao reivindicá-Ia e comprá-Ia tirando-a do mercado da prostituição não violou a Lei, pois foi ordenada por Deus e realizada sob a dispensação especial da graça divina (semelhante à graça demonstrada a Davi quando este caiu em adultério). O Senhor suspendeu o julgamento sobre Israel a fim de revelar aos judeus sua magnânima graça. Eles mereciam ser totalmente destruídos por prostituírem-se, deixando o Senhor pelos deuses pagãos (3.1-4).
A analogia divina com o casamento humano aqui apresentada foi planejada e expressa divinamente, e não deve ser posta de lado. A grande lição que se tira desse fato é que aquela infidelidade sexual é devastadora para um casamento, provoca o julgamento de Deus e exige arrependimento verdadeiro, bem como renovação genuína dos votos matrimoniais para que haja restauração. Apesar de a Lei proibir que a mulher fosse aceita pelo seu primeiro marido, após haver sido repudiada por este, casado outra vez e seu segundo marido haver falecido (Dt 24.1-4; Mt 19.8-9), faz parte da graça oferecer misericórdia para a reconciliação numa genuína união renovada. A mensagem prática de Oséias são os dividendos que tal graça retribui (14.4¬7), conforme demonstrado profeticamente no livro.
1.4.4. Oséias em relação a Jeremias (11.7-9; Jr 9.1-2)
O que Jeremias foi para Judá, Oséias foi para Israel 140 anos antes. Ambos instaram com o seu povo, implorando o amor de Deus, enquanto o povo lançava-se à destruição. Ambos ministraram depois de uma época de prosperidade em toda a nação, seguida de indiferença espiritual e corrupção moral. Ambos expressaram a tristeza de Deus por ser forçado a divorciar-se do seu povo por adultério e a permitir sua destruição por um império do oriente (Jr 3.8; Os 2.2-7). Ambos também falaram de uma renovada aliança entre o Senhor e o seu povo na futura era messiânica (Jr 31.31 e ss.; Os 1.11; 14.1 e ss.).
1.4.5. Religião depravada de Israel (6.6-10; 9.15-10.2)
Oséias descreve um dos períodos mais indignos da história religiosa de Israel. Apesar de guardarem religiosamente os rituais, os judeus praticavam a idolatria. Banditismo era comum entre o povo e até mesmo os sacerdotes reuniam-se para atacar e assassinar peregrinos no caminho para Siquém (4.11-13,18; 6.9). Toda a terra mergulhara na prostituição (4.11-14,18; 6.10). Sua hipocrisia era clamorosa. Por esse motivo, o Senhor prometeu vir como um leão, leopardo, urso e fera selvagem para despedaçá-Ios e devorá-Ios (5.14; 13.7-8). O reino do norte desfez-se e estava com Judá cento e cinqüenta anos mais tarde, na época de Daniel, quando o Senhor descreveu
o seu plano de disciplinar a nação por meio dos quatro “animais” (Daniel 7). Amós, o profeta do sul,já estivera em Samaria para repreender os líderes do norte pelo seu arrogante orgulho e ausência de misericórdia e justiça. Do mesmo modo que Amós denunciou o sistema depravado dos seus compatriotas, Oséias insistiu com eles mostrando o amor divino da aliança. Tendo rejeitado a correção, estavam sendo destruídos pela “falta de conhe¬cimento” (4.6) e fadados a ser extintos como nação quase vinte anos mais tarde.
1.4.6. Cristologia em Oséias
Em Oséias, as referências ao Messias são raras e um tanto indiretas.
(a) O amor divino por Israel, enfatizado pelo profeta, subentende o amor de Cristo tanto por Israel quanto pela Igreja (Jo 13.1). O Senhor do Antigo Testamento (YHWH) é a própria Trindade, e o relacionamento “marido-mulher” representa o relacionamento entre o Senhor da aliança e o povo da aliança. O amor do Novo Testamento entre Cristo e sua Igreja é outra expressão daquele amor divino, mesmo para os que estão fora daquela união da aliança (Ef 2.11-14).
(b) A referência de 3.5 que “tornarão os filhos de Israel, e buscarão ao Senhor seu Deus, e a Davi, seu rei” é provavelmente messiânica. Pode referir-se ao Próprio Messias como “Filho de Davi” (Mc 12.35). “Nos últimos dias” os filhos de Israel “tremendo se aproximarão do
Senhor” (3.5).
(c) “Do Egito chamei o meu filho” (11.1) é citado em Mateus (2.15) como uma profecia do Antigo Testamento de que Jesus seria levado ao Egito e chamado pelo anjo do Senhor. Evidentemente Mateus usa esse texto como uma “profecia” de Cristo, mostrando o relacionamento íntimo entre o Messias e Israel, até mesmo tendo experiências semelhantes à aflição vinda dos gentios e ao livramento de monarcas assassinos.
(d) A vitória de Cristo sobre a morte (13.14; 1Co 15.55).
(e) Deus deseja a misericórdia, e não o sacrifício (6.6; Mt 9.13; 12.7).
(f) e os gentios que não eram o povo de Deus, passam a ser seu povo (1.6, 9-10; 2.23; Rm 9.25,26; 1Pe 1.10).
Além dos trechos específicos, o Novo Testamento expande o tema do livro
— Deus como o marido do seu povo — e diz que Cristo é o marido de sua noiva redimida, a igreja (1Co 11.2; Ef 5.22-32; Ap 19.6-9; 21.1-2, 9-10). Oséias enfatiza a mensagem do Novo Testamento a respeito de se conhecer a Deus para se entrar na vida (Os 2.20; 4.6; 5.15; 6.3-6; Jo 17.1-3). Juntamente com esta mensagem, Oséias demonstra claramente o relacionamento entre o pecado persistente e o juízo inexorável de Deus. Ambas as ênfases são resumidas por Paulo em Rm 6.23: “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus, nosso Senhor”.

O LIVRO JOEL
Esboço do Livro
Introdução (1.1)
I. A Calamidade Atual de Judá (1.2-20)
A. Uma Praga Devastadora de Gafanhotos (1.2-12)
B. A Chamada ao Arrependimento Nacional (1.13,14)
C. A Situação Desesperadora de Judá (1.15-20)
II. A Iminência de um Juízo Ainda Maior (2.1-17)
A. Um Exército Ameaçador Preparado para Marchar contra Judá (2.1-11)
B. A Chamada ao Arrependimento Nacional (2.12-17)
III. O Futuro Dia do Senhor (2.18—3.21)
A. Promessa da Restauração (2.18-27)
B. Promessa do Derramamento do Espírito Santo (2.28-32)
C. Promessa do Juízo e da Salvação (3.1-21)
1. Para as Nações (3.1-15)
2. Para Sião (3.16-21)
2.1. Estilo
O livro de Joel é uma das gemas literárias do Antigo Testamento. É edificado com cuidado e efeito dramático e aqui e acolá, pelo livro inteiro, há belezas que brilham intensamente e até deslumbram a imaginação. W. G. Elmslie tem chamado atenção para o fato em The Expositor, Fourth Series, Vol. 3, p. 162: “Se existe na Bíblia um livro que é uma obra prima de arte literária, é o livro de Joel. Há outros profetas que escreveram com maior paixão e maior poder, que se elevam as mais sublimes altitudes da revelação divina; mas dificilmente há um escritor do Antigo Testamento que tenha demonstrado empenho mais cuidadoso, detalhado e primoroso para dar polimento, remate e beleza à sua obra literária”.
“O estilo de Joel é preeminentemente puro. Caracteriza-se pela fluência e regularidade nos ritmos, nas sentenças completas e na simetria dos paralelismos. Com o poder de Miquéias ele combina a ternura de Jeremias, a vivacidade de Naum e a sublimidade de Isaias” (A. R. Fausset).
2.2. Data
O livro apresenta ao estudioso muitos problemas e talvez o primeiro e mais importante deles é determinar onde colocá-lo entre os outros profetas do Antigo Testamento. Essa dificuldade pode ser mais bem percebida quando se sabe que já foi colocado em quase todos os períodos da dispensação profética. Pelo simples fato que menção nenhuma é feita sobre a Assíria ou a Babilônia, é admitido que Joel tenha exercido seu ministério antes do levantamento da primeira ou depois do declínio da última. Por conseguinte, há concordância quase universal que o livro deva ser posto ou entre os primeiros livros dos profetas ou entre os últimos. É verdade que muitos eruditos modernos favorecem a data mais recente, mas isso de forma alguma é universalmente reconhecido e diversos fatores parecem sugerir que a data mais antiga está bem dentro dos limites da possibilidade. Entre esses fatores temos primeiramente o quadro do reino. Toda a menção ao rei é abafada quase ao máximo, o que confirmaria o ponto de vista que o período do livro foi o de Joás o qual, embora rei, ainda era menor de idade, quando Joiada agia como regente (2Rs 12.1 e segs.). Paralelamente a isso, no livro de Joel o sacerdócio é considerado com a maior honra e respeito. A adoração no templo era diligentemente mantida e o aspecto mais negro do desastre causado pela seca e pelos gafanhotos era o fato que as ofertas diárias não podiam ser continuadas (1.9). A religião deve ter sido geralmente praticada quando nenhuma outra coisa parecia pior que isso. Esses fatos, para dizer a verdade, se adaptariam aos tempos da minoridade de Joás.
Em segundo lugar, além disso, não há qualquer referência ao reino do norte, tão próximo geograficamente e tão inter-relacionado com Judá em período posterior. Se preferirmos a data mais antiga parece natural que, em vista de tudo quanto Judá havia sofrido às mãos de Atalia, a infame filha de Acabe (2Rs 11.1 e segs.), haveria apenas raras referências a Israel, nos apelos do profeta ao reino do sul.
Uma terceira característica que dá apoio à data mais antiga do livro é que as passagens condenatórias parecem ser uma relíquia dos dias mais combativos de Israel e não dos dias de seu período mais enfraquecido, quando declinava, condição que seria refletida no livro se a profecia pertencesse a data mais recente como querem alguns críticos.
Outro argumento em favor da data mais antiga é o que se encontra nas referências cruzadas que podem ser observadas entre as profecias de Joel e de Amós. Naturalmente que alguns têm argumentado que Joel emprestou dados de Amós; mas, devido ao caráter dessas várias referências é de argüir-se, se não conclusiva, provavelmente, que se deu justamente o oposto, ou seja, que Amós iniciou sua profecia onde Joel deixou a sua (cf. Am 4.6 com Jl 2.12; Am 9.13 com Jl 3.18). Esse ponto é plenamente desenvolvido na obra de Kirkpatrick, Doctrine of the Prophets, p. 63-65. A tudo isso pode ser adicionado o fato que, no tempo de Amós a idéia do “dia de Jeová” era comum e que, de conformidade com a aparente íntima conexão entre Amós e Joel, é evidente que isso só era familiar porque Joel assim o tinha feito, em seu ministério, anterior ao de Amós.
Concluindo, há certo número de alusões a eventos históricos que, se corretamente interpretadas, parecem exigir a data mais antiga. Jl 3.17,19, que falam de estrangeiros “a passar” pela terra e que acusam o Egito e Edom de derramar “sangue inocente”, bem podem referir-se à invasão de Judá por Sisaque (1Rs 14.25) e à revolta dos edomitas durante o reinado de Jorão (2Rs 8.20-22). Novamente, a acusação de Joel contra os fenícios e filisteus (Jl 3.4,6) pode ser comparada com o relato do escritor das Crônicas a respeito dos assaltos dos filisteus durante o reinado de Jorão em Judá (2Cr 21.16), e aos oráculos de Amós contra ambas essas nações (Am 1). Igualmente, na menção ao “vale de Josafá” (Jl 3.2), há uma possível referência ao fato desse rei haver derrotado Moabe, Amom e Edom, no vale de Beraca (2Cr 20.26). Tudo isso seria coerente com a posição tradicional que coloca o livro de Joel entre os primeiros profetas no “cânon”, posição essa que não pode ser voluvelmente abandonada como se fosse inteiramente fortuita, visto que é inegável que o presente arranjo dos livros foi, naquele tempo, tencionado como cronológico.
Tudo quanto dissemos não deve ser entendido como inferência que não existem argumentos a favor da colocação do livro de Joel entre os escritos após o retorno do cativeiro. As principais razões apresentadas em defesa dessa posição podem ser arranjadas como segue. Segundo dizem, a natureza geral da linguagem e do estilo, particularmente o fraseado de 3.1,17, parece exigir que o livro tenha sido composto após a destruição de Jerusalém em 586 a.C. A ausência de qualquer referência ao reino do norte sugere que este, de fato, não mais existia como entidade política separada. A ausência de qualquer repreensão aos pecados nacionais e, especialmente, à idolatria, é incoerente com o estado de coisas que dominava antes do exílio. A atitude hostil, adotada para com outras nações pagãs, é mais característica de um período posterior, quando o nacionalismo judaico se tornou mais estritamente exclusivista. A predominância do sacerdócio nas atividades diárias e a ardente devoção pelos sacrifícios no templo não eram tão típicas no período pré-exílico, mas, em realidade, pertencem a dias mais recentes, na comunidade menor e mais intimamente ligada dos exilados que voltaram.
O argumento que se baseia no estilo e na linguagem é, quando muito, extremamente falho, pois, no caso dos profetas, existem outros fatores, além dos puramente pessoais, a complicar a questão inteira. “Os remanescentes da literatura hebraica são muito parcos para por eles decidirmos com certeza o que era e o que não era possível em um período particular. A uniformidade da pontuação massorética obliterou muitas distinções de pronúncia, que teriam servido como indicações” (KIRKPATRICK, 1998, p. 72). A referência, em 3.1, a “renovarei o cativeiro” não tem de significar necessariamente que essas palavras tenham sido proferidas durante ou após o exílio; também foram empregadas por Amós (Am 9.14) e por Oséias (Os 6.11), e são perfeitamente consistentes quando usadas pelos profetas que viram claramente no futuro os desastres que profetizaram que sobreviriam.
A ausência de qualquer referência ao reino do norte também não pode ser considerada conclusiva; pois enquanto que esperanças de reunião foram mantidas por outros dos profetas anteriores, nenhum deles esteve tão próximo, quanto ao tempo, do amargo e cruel despotismo de Atalia, como Joel; e seria de esperar que quaisquer referências a essa parte da terra, da qual tinha vindo uma governante tão cruel e perversa, deveriam desaparecer em segundo plano. Além disso, em conexão com a ausência de reprovação contra as transgressões nacionais, não podemos assumir que os dias que se seguiram à volta do exílio foram livres de pecados dignos de ser acusados, tanto políticos como eclesiásticos. Esdras, Neemias e Malaquias encontraram muito contra o que falar. Tentar encaixar Joel nessa situação levanta tantas dificuldades quantas se propõe solucionar. O mesmo também pode ser dito a respeito do argumento de que a atitude inteira do livro é caracterizada por um nacionalismo fanático, que se manifestou mais tarde. Nada conclusivo pode ser derivado daí. De fato, esse argumento pode disparar pela culatra. Os profetas mais antigos ou fazem silêncio (Oséias) sobre a questão dos pagãos, ou se mostram interessados apenas em sua destruição final (Amós), enquanto que os mais recentes podem ver um remanescente sendo salvo, dentre cada nação debaixo do sol.
Quanto à predominância sacerdotal e a tendência ritualista que se afirma ser característica dos tempos pós-exílicos, é necessário dizer apenas que tal característica pode aparecer em toda época quando fenece a religião vital.
Que isso não era fenômeno desconhecido nos dias dos primeiros profetas pode ser visto por Is 1.11-15. Portanto, há sólidas razões para apoiarmos a data antiga, tradicionalmente aceita, para a profecia de Joel. Por mais imponentes e impressionantes que sejam os argumentos contra essa posição, parecem envolver-nos cada vez mais, obrigando-nos a ajustar os fatos que possuímos à teoria sobre uma data mais recente, o que cria mais e maiores dificuldades do que aquelas que ficam resolvidas.
2.3. O Autor
No tocante ao próprio Joel, pouco sabemos além do fato que ele era filho do Petuel (1.1) e que, com toda a probabilidade, ele vivia em Jerusalém. As muitas referências à cidade revelam um grande amor a ela e íntimo conhecimento de sua história e adoração (1.14; 2.1,15,32; 3.1-2,6,16-17,20¬21). “Joel”, que significa “Jeová é Deus”, era um nome favorito (1Sm 8.2; 1Cr 6.36; 7.3; 11.38; 15.7; 27.20). Pelas passagens de 1.13-14 e 2.17 pode-se deduzir que ele não era sacerdote. Ele viveu e profetizou numa época quando o povo de Judá ainda não havia caído naquela extrema depravação que, em tempos posteriores, atraiu contra eles tão pesados castigos. Isso parece situá-lo ou no início do reino de Joás ou entre o reino de Joás e o de Uzias (2Rs 11.17-18; 12.2-16; 2Cr 24.4-14). Provavelmente ele também era contemporâneo de Oséias e Amós e, assim eles se dirigiam a Israel, ele se dirigia a Judá. Se esse foi o caso, provavelmente foi logo após o reino idólatra de Atalia, a infame filha de um iníquo casal, Acabe e Jezabel (2Rs 11), quando, sob a influência de Joiada (2Cr 23.16-21; 24.14,18), estava tendo lugar algo da natureza de um reavivamento religioso.
2.4. Circunstâncias
Aconteceu de tal modo que, na providência de Deus, a terra ficou literalmente desolada por uma praga de gafanhotos, havendo tal escassez de alimentos que provocou a descontinuação das ofertas de alimentos e das libações na casa de Deus (1.13). “Mas, embora tal praga possa ter, a princípio, despertado extrema apreensão no profeta e impulsionado sua alma até às mais baixas profundezas, depois de examinar suas palavras ficamos convencidos que elas se referem a uma ansiedade vindoura ainda maior, uma incursão de adversários que infligiria terríveis assolações à terra, deixando-a desolada e nua atrás de si, segundo haviam feito aqueles gafanhotos”. (WARREN, 1999 p. 437).
Joel apareceu em Jerusalém para declarar que aquela invasão de gafanhotos era um quadro de uma visita de Deus, em ira e julgamento. Ele apelava em prol de um ato de arrependimento nacional, uma festa solene (2.12), e exortava os líderes religiosos a mostrar bom exemplo (2.15-17). Então profetizou o retorno do favor de Deus e da prosperidade da terra (2.18-20), bem como a remoção de seus inimigos (2.21-27). Depois disso, de um modo que não tem significação fora da inspiração divina, ele passou a descrever o derramamento do Espírito Santo que se seguiria (2.28-32). No dia de Pentecoste, o veredicto de Pedro foi: “isto é o que foi dito pelo profeta Joel” (At 2.16). Adiante, Joel é levado a profetizar sobre a destruição final de todos os inimigos de Deus e de Seu povo (3.1-21).
2.5. Interpretação
A descrição acima, sobre o conteúdo do livro de Joel, pressupõe uma resposta a uma pergunta que não é universalmente admitida. Joel estava descrevendo uma real praga de gafanhotos, que então afligia a nação? Ou estava ele predizendo alguma praga semelhante que se verificaria no futuro? Ou estava antes predizendo que nações circunvizinhas invadiriam a terra do mesmo modo que a praga dos gafanhotos? Mesmo todas essas perguntas não exaurem as linhas possíveis de interpretação. Resta a última pergunta a respeito dos gafanhotos, se eles seriam ou não “gafanhotos escatológicos” e não históricos. Aqueles que afirmam ser esse o caso, declaram que em Joel não temos o caso de uma histórica invasão de gafanhotos; mas que tudo é ideal, místico e apocalíptico.
Pareceria, até mesmo para um leitor casual, que o primeiro capítulo, por exemplo, tem a clara intenção de ser histórico. G. A. Smith declara que “seus simbolismos são por demais vívidos, por demais reais, para terem natureza preditiva e mística. E a inteira interpretação apocalíptica se esbarra no mesmo versículo que a interpretação alegórica, a saber, 1.16, no qual Joel claramente fala de si mesmo como quem sofreu, juntamente com os ouvintes, por causa da praga que descreve” (The Twelve Prophets, Vol. 2, p. 395). Por outro lado, “a linguagem do livro é muito agravada e ignominiosa para ser limitada à praga natural… sob o simbolismo dos gafanhotos ele devia estar descrevendo alguma mais fatal agência da ira Deus contra Israel” (ibid., p. 390).
Por conseguinte, parece óbvio que, na visitação real dos gafanhotos, o profeta viu a aproximação de uma invasão de exércitos circunvizinhos. Os gafanhotos tinham vindo; as invasões ainda viriam. Além disso, parece evidente que, por essas coisas sobre as quais o profeta é impelido a falar, ele foi conduzido a referir-se aos juízos do “dia do Senhor”, muito mais perscrutadores que qualquer praga física. O livro, portanto, é parcialmente histórico e parcialmente profético.
2.6. O Livro de Joel ante o Novo Testamento
Há dimensões tanto presentes quanto futuras em todas as aplicações de Joel no Novo Testamento. Os dons do Espírito que começaram a fluir através do povo de Deus, no Pentecostes, ainda se acham à disposição dos crentes (1Co 12.1—14.40). Além disso, os versículos que precedem a profecia a respeito do Espírito Santo (isto é, a analogia da colheita com as chuvas temporãs e serôdias, Jl 2.23-27) e os versículos que se seguem (isto é, os sinais que se darão nos céus no final dos tempos, Jl 2.30-32) indicam que a profecia sobre o derramamento do Espírito Santo (Jl 2.28,29) inclui não somente a chuva inicial no Pentecostes, como também um derramamento final e culminante sobre toda a raça humana no final dos tempos.
Vários versículos de Joel contribuem poderosamente à mensagem do Novo Testamento. A profecia a respeito da descida do Espírito Santo (Jl 2.28-32) é citada especificamente por Pedro em seu sermão no dia de Pentecostes (At 2.16-21), depois de o Espírito Santo ter sido enviado do céu sobre os 120 membros fundadores da igreja primitiva, com as manifestações do falar noutras línguas, da profecia e do louvor a Deus (At 2.4,6-8,11,17,18). Além disso, o convite de Pedro às multidões, naquela festa judaica, a respeito da necessidade de se invocar o nome do Senhor para ser salvo, foi inspirado (parcialmente) em Joel (Jl 2.32a; 3.14; ver At 2.2, 37-41). Paulo também cita o mesmo versículo (ver Rm 10.13). Os sinais apocalípticos nos céus que, segundo Joel, ocorreria no final dos tempos (Jl 2.30,31), não somente foram lembrados por Pedro (At 2.19,20), mas também referidos por Jesus (e.g., Mt 24.29) e por João em Patmos (Ap 6.12-14). Finalmente, a profecia de Joel a respeito do julgamento divino das nações, no vale de Josafá (Jl 3.2, 12-14), é desenvolvida ainda mais no último livro da Bíblia (Ap 14.18-20; 16.12-16; 19.19-21; 20.7-9).
2.7. Contribuições singulares
2.7.1. Ênfase do Dia do Senhor
Joel é conhecido como o profeta do dia do Senhor, por ter supostamente cunhado a frase para o grande dia do julgamento das nações pelo Senhor. Entretanto, ele pode ter tomado a expressão de Obadias que a usou vinte anos antes com referência ao futuro julgamento de Edom.
2.7.2. Profeta do derramamento do Espírito no pentecoste (2.28-32)
Tanto Pedro quanto Paulo usaram esse texto como uma profecia da dispensação cristã (At 2.16-21; Rm 10.13). Pedro usou-o para confirmar a validade do dom de línguas no Pentecoste; Paulo usou-o para confirmar a validade da oferta de salvação pela fé a todo o mundo. Nenhum deles afirmou que a profecia tinha sido totalmente “cumprida” no Pentecoste, mas que o derramamento do Espírito fazia parte dela. A primeira parte foi evidentemente cumprida no Pentecoste, isto é, o Espírito Santo foi derramado para a proclamação mundial da salvação simplesmente pela invocação do nome do Senhor. A última parte, referente aos sinais divinos de perturbações físicas no sol, lua e céu, não ocorreu naquela ocasião, mas acontecerá um pouco antes do “grande dia da sua ira” (Ap 6.12-17). É claro que Pedro citou integralmente a profecia no Pentecoste a fim de incluir a oferta universal de salvação no final (Jl 2.32). Tal como a profecia da vinda do Messias em Isaías 9.6-7, essa profecia da obra de graça do Espírito Santo e da obra do terrível julgamento tem duas fases, largamente distanciadas.
2.7.3. Promessa de prosperidade material devida ao arrependimento (2.18¬27)
Joel dá uma ênfase especial aos benefícios físicos e materiais advindos do arrependimento e obediência. Tal arrependimento, disse ele, removeria as pragas dos gafanhotos e da estiagem e restauraria as bênçãos da chuva, boas colheitas e proteção contra os inimigos (2.19-20). Essas promessas foram para Israel, não necessariamente para a Igreja do Novo Testamento. Os judeus achavam-se sob a aliança do Senhor e aqueles benefícios lhes tinham sido prometidos como frutos da obediência (Lv 26.14-20; Dt 11.13-17). O objetivo do Senhor nessa promessa a Israel era demonstrar sua soberania sobre toda a natureza como um testemunho tanto para Israel como para as nações. Nenhuma aliança de “benefícios materiais” foi estabelecida com a igreja. Tendo demonstrado cabalmente sua soberania em épocas anteriores, o Senhor apela para a fé na sua Palavra estabelecida, independente de benefícios materiais (Mt 19.21; Lc 14.33). O princípio universal de esplêndida colheita pela generosa semeadura é, certamente, sempre aplicável. Mas a colheita pode ser reservada para o céu com as suas recompensas eternas (Pv 11.24; Lc 6.38; Gl 6.7-9).
2.7.4. Fazer do Senhor um aliado (2.16-18)
O versículo 17 é o ponto crucial do livro. Contém a oração de arrependimento recomendada pelo Senhor para o povo, oração que muda a perspectiva do livro da adversidade para a bênção. O versículo seguinte principia com “Então o Senhor…” e enumera as diversas bênçãos que ele poderá dar-Ihes após o arrependimento. Deixaria de ser adversário para tornar-se um aliado. Transformaria o seu infortúnio em prosperidade. O arrependimento verdadeiro faz de Deus um defensor do penitente e torna-o capaz de receber as bênçãos divinas.
2.7.5. Cristologia em Joel
Joel, o “profeta do Espírito Santo”, não faz muitas referências diretas ao Messias. Em muitas declarações do Senhor como “Jeová” (YHWH), entretanto, ele fala como o Messias que virá libertar e governar o seu povo na era messiânica: “Sabereis que estou no meio de Israel” (2.27), “derramarei o meu Espírito sobre toda a carne” (2.28), “congregarei todas as nações (…) entrarei em juízo contra elas” (3.2), “Levantem-se as nações, e sigam para o vale de Josafá; porque ali me assentarei, para julgar” (3.12) e “Eu expiarei o sangue dos que não foram expiados” (3.21; comparar com Jo 5.22). Apesar de indiretas, essas referências podem ser consideradas messiânicas através das lentes dos textos posteriores.
O LIVRO DE AMÓS
Esboço do Livro
Introdução (1.1-2)
I. Oito Oráculos de Julgamentos às Nações (1.3—2.16)
A. Damasco (1.3-5)
B. Gaza (Filístia) (1.6-8)
C. Tiro (Fenícia) (1.9,10)
D. Edom (1.11,12)
E. Amom (1.13-15)
F. Moabe (2.1-3)
G. Judá (2.4,5)
H. Israel (2.6-16)
II. Três Mensagens Proféticas a Israel (3.1—6.14)
A. O Pecado de Israel Torna-o Réu do Juízo Vindouro (3.1-15)
B. A Corrupção de Israel Está em Todos os Níveis (4.1-13)
C. O Justo Castigo de Israel Será a Destruição e o Exílio (5.1—6.14)
1. O Cântico da Morte (5.1-3)
2. Israel Recusa-se a Buscar ao Senhor (5.4-17)
3. A Religião Pervertida de Israel (5.18-27)
4. Repreensão e Ais contra Israel (6.1-14)
III. Cinco Visões da Retribuição Vindoura pelo Pecado (7.1—9.10)
A. Visão dos Gafanhotos Devoradores (7.1-3)
B. Visão do Fogo Consumidor (7.4-6)
C. Visão do Prumo (7.7-9)
D. Parêntese Histórico: Amazias e Seu Castigo (7.10-17)
E. Visão de um Cesto de Frutos de Verão (8.1-14)
F. Visão do Senhor Julgando (9.1-10)
Epílogo: Restauração Futura de Israel (9.11-15)
3.1. O fundo histórico
Amós, um dos maiores dos chamados profetas “menores” (Cornill o chama de uma das mais maravilhosas aparições na história do espírito humano), profetizou durante os dias de Uzias, rei de Judá e de Jeroboão II, rei de Israel. É impossível determinar o ano exato de sua profecia, mas provavelmente foi cerca de 760 a.C. A referência ao terremoto (1.1), que evidentemente tinha sido memorável (cf. a alusão de Zacarias ao mesmo, em Zc 14.5, muito tempo depois), não nos ajuda muito a fixar uma data absolutamente certa.
Em 803 A. C., Adade-Nirari III, da Assíria, infligiu uma esmagadora derrota sobre a confederação síria. Esse enfraquecimento do vizinho nortista de Israel e subseqüente preocupação da Assíria com outros locais, deu a Jeoás e a seu filho, Jeroboão II, uma supremacia na parte norte da Palestina e na Síria provavelmente desconhecida por qualquer de seus predecessores. Israel estava novamente livre para apropriar-se de novos territórios e isso fez com o maior zelo, particularmente, às expensas da Síria. Todas as principais estradas estavam em suas mãos e Samaria, a capital, se tornou ponto de encontro dos mercadores que viajavam entre a Mesopotâmia e o Egito. Ali se juntavam as caravanas vindas de várias partes do mundo oriental e Samaria se tornou o empório de mercadorias de toda espécie. As crescentes atividades comerciais trouxeram a Israel enormes lucros e uma poderosa classe comerciante se desenvolveu, o que teve largas repercussões sobre o resto dos habitantes.
Essa prosperidade comercial deu origem a um grande programa de edificação de “casa de inverno” e “casa de verão” (3.15), bem como “casa de marfim”. Samaria contava com muitos palácios (3.10) que pertenciam não só ao próprio rei, mas aos ricos príncipes-comerciantes que se tinham enriquecido no comércio. Essas grandes casas se tornaram, antes de muito tempo, depósitos de toda espécie de luxos (3.12; 6.4). A oportunidade de enriquecer tornou os comerciantes ansiosos para aumentar seus lucros, tanto por meios honestos como por artifícios desonestos. Mostravam-se impacientes para com os sábados e as luas novas (8.5). Nesse tráfico mundano eram impelidos por suas mulheres, que exigiam luxos cada vez maiores (4.1).
O ditado que “o dinheiro corrompe” foi verdadeiramente exemplificado no reino do norte durante os dias de Jeroboão II. O desejo de riquezas teve resultados desastrosos, tanto para o comerciante como para o pobre aldeão. Os ricos príncipes-comerciantes se tornaram desmoralizados, corruptos e injustos; os pobres eram oprimidos, roubados e maltratados. Amós pertencia à classe pobre dos aldeões e provavelmente sabia, por amarga experiência própria, a que indignidades haviam sido sujeitados os pobres e oprimidos. Os ricos ficavam cada vez mais ricos e os pobres tornavam-se cada vez mais empobrecidos. Qualquer propriedade possuída pelo pequeno proprietário tinha de ser vendida, devido à força bruta de circunstâncias adversas. Para Amós, pois, não havia justiça na terra. Os que emprestavam dinheiro tomavam as próprias roupas das pessoas para servirem de garantia pela dívida. Os juízes eram influenciados pelo suborno e isso significava vitória para a injustiça e derrota para a verdade (8.6). Nenhuma testemunha honesta podia ser encontrada nos tribunais. O homem honesto perdia o direito da verdade, da propriedade e da vida. A piedade tornou-se uma qualidade rara e os pobres eram mantidos com as costas na parede (2.6). O pequeno proprietário independente e o proprietário aldeão lutavam numa batalha perdida. As áreas menores de terreno eram absorvidas nas propriedades mais vastas.
No que dizia respeito à religião, os santuários de Betel e de Gilgal, especialmente o de Betel, estavam apinhados de adoradores. A adoração a Baal certamente havia sido suprimida por Jeú, o sucessor de Acabe, mas o espírito, se não a forma, havia permanecido nos santuários autorizados, onde supostamente Jeová era adorado. Ali o opressor do pobre, o rico a regalar-se em seus luxos, adorava com uma consciência embotada ou morta. Externamente tudo era feito de conformidade com a regra, mas não havia verdadeira adoração segundo a compreendemos hoje. Israel tinha cessado de viver perante Deus, tal como havia acontecido no deserto, sob Moisés, e agora estava meramente existindo para Deus. Os santuários talvez estivessem apinhados de adoradores, mas Deus não se achava presente. A superstição e a imoralidade tinham tomado o lugar da piedade e da sinceridade. A religião estava totalmente divorciada da conduta e passou-se algum tempo antes que Israel pudesse entender que essas duas coisas devem seguir paralelas.
O reino de Jeroboão, portanto, era uma terra de extremos contrastantes: os ricos eram muito ricos e os pobres eram muito pobres. Sob tais condições era inevitável que crescessem a insatisfação e o desassossego. Conforme ficou demonstrado pelos acontecimentos subseqüentes, o país estava maduro para a guerra civil. Após a morte de Jeroboão houve três reis no espaço de um ano. Revolução seguia-se a revolução e no período de alguns poucos anos uma parte do reino de Israel havia desaparecido, enquanto que o restante se mantinha numa independência precária, dependendo da boa vontade da Assíria. Tais condições sociais não podiam prolongar-se indefinidamente; de fato, tinham em si mesmas a sentença de morte. Amós foi um daqueles homens que perceberam o fato. Ele percebeu a negra nuvem de julgamento surgir no horizonte. Havia forças sociais, morais e políticas em operação que realizariam a vontade de Deus e executariam o juízo que já tinha sido decretado. Israel, efetivamente, “um cesto de frutos de verão” e seu fim não podia ser adiado (8.2).
3.2. O Profeta
Amós era nativo de Tecoa, uma pequena cidade cerca de dez quilômetros de Belém. Não era cortesão como Isaías, nem sacerdote como Jeremias, mas pastor e cultivador de sicômoros. Por meio das comparações que ele freqüentemente empregou, fica claro que ele estava plena e pessoalmente familiarizado com as dificuldades e perigos da vida de boieiro. A vida lhe era difícil e havia pouco luxo. Por outro lado, seu negócio o levava certamente a cidades e mercados importantes onde, sem dúvida, se encontrava com caravanas de muitas terras. Um homem de seu calibre sempre mantém os ouvidos abertos para as notícias sobre homens e seus feitos em outros lugares. Isso explica seu surpreendente conhecimento sobre outras terras e outros povos. Conforme mostram os capítulos iniciais de seu livro, ele sabia muita coisa sobre a história, as origens e feitos das nações circunvizinhas. Devido a tais experiências e moldado por sua observação pessoal e condições na terra desenvolveu-se ele como homem duro e severo, grande combatente, legítimo campeão dos pobres.
Embora não pertencesse à linha de profetas, nem à escola de profetas, foi chamado, à semelhança de Eliseu, das atividades diárias de seus deveres para a dignidade do ministério profético. Não havia dúvidas em sua mente, nem deixava ele qualquer dúvida na mente de outros homens, que havia sido chamado por Deus, assim como Moisés tinha sido chamado, quando ocupado em tarefa semelhante à sua. Para Amós seu caso não foi que se tornou profeta a fim de ganhar a vida; mas se tratava de abandonar suas atividades para tornar-se profeta. Ele não fazia tentativa para esconder sua vida passada ou emprego e não se envergonhava de tornar conhecido seu nascimento humilde. O fogo de Deus queimava em sua alma e, à semelhança do apóstolo Paulo, séculos mais tarde, bem poderia ele ter dito “Ai de mim se eu não falar”. Ele via a corrupção, o pecado e a vergonha do povo a quem Deus havia tirado do Egito e não podia fazer silêncio. A vereda para a qual foi chamado a palmilhar não era de sua escolha. O Deus das extremidades da terra, com Quem ele tinha comungado freqüente e longamente na solidão do deserto de Tecoa, tinha uma mensagem a Seu povo rebelde do norte e era por intermédio de Amós que essa mensagem de justiça e julgamento devia ser anunciada.
3.3. A mensagem do profeta
A mensagem de Amós era de julgamento e punição quase sem alívio. Embora nos últimos poucos versículos do livro relampejem algumas notas de otimismo, revelando a largueza da misericórdia de Deus através do trono davídico restaurado, a mensagem inteira, todavia, desse intrépido mensageiro de Deus, precisa ser incrustada no contexto de desastre iminente. Certamente que ele não agradava aos ouvidos populares, mas mantinha os olhos na mensagem divina que lhe cumpria proclamar. Pecado nacional conduz a julgamento nacional e quanto maiores o privilégio e a oportunidade de uma nação, maior também deve ser seu julgamento.
Tanto quanto dizia respeito ao Israel de Jeroboão, externamente tudo parecia estar em ordem, mas a condenação estava prestes a cair sobre todos. Assim como um leão se prepara para saltar sobre a presa, igualmente Jeová estava pronto para visitar Seu povo com julgamento. A terra inteira sentiria o impacto desse julgamento. Por muitas e muitas vezes Israel havia sido advertida, mas sem o menor proveito. Quando o povo continua a desviar os ouvidos da vontade de Deus, então tem de arcar com as conseqüências.
Em adição à corrupção moral que havia resultado em opressão social e em injustiça legal, havia a questão dos falsos santuários de Betel e Gilgal. Pois Deus abomina tão asquerosos rituais. Ele não tolerava suas festas, seus festivais e suas ricas ofertas. Pois tudo não passava de zombaria; tudo era estranho para Ele. No deserto, nos dias passados, nada disso havia. Qual a dose de influência era exercida sobre Amós, para ele ser contrário à adoração em Betel e Gilgal, pelo fato de ser ele do sul, não precisamos interrogar agora. Pouca dúvida pode haver, contudo, que tais santuários, estabelecidos pouco depois da divisão do reino salomônico, eram considerados, por todos verdadeiros “ortodoxos” do reino do sul, como abominações contra o Senhor. Tais santuários, anuncia o profeta, serão totalmente destruídos. Jeová já se encontrava ao pé do altar (9.1-4) e arruinaria totalmente o local.
Para esses pecados -expressos para com o homem por meio da opressão social e da injustiça, e para com Deus por meio das abomináveis práticas de Betel e Gilgal -só podia haver um resultado -Israel ser completamente rejeitada. Se o privilégio é a medida da responsabilidade, então a rebelião de Israel era imperdoável. Deus havia tirado Israel do Egito, tinha-o guiado pelo deserto e havia-lhe dado possessão de uma terra boa, além de ter posto profetas em seu meio. O castigo para sua transgressão devia ser proporcional à sua gravidade; portanto, Israel seria totalmente rejeitado. O fato que Jeová tinha tirado Israel do Egito agora não significaria mais que os outros fatos que retirara os filisteus de Creta e os sírios de Quir. A sentença já havia sido decretada e o julgamento seria executado prontamente. Como o carro de uma eira, assim Ele esmagaria a nação inteira (2.13-16).
A mensagem de Amós se fundamenta na firme convicção que Jeová é Deus de justiça. Essa justiça está em conflito com a injustiça do homem e havia-lhe declarado guerra. O resultado desse conflito seria o juízo mais severo possível contra o homem. O ensino de Amós é de caráter ético, mas, tal como os outros profetas do oitavo século antes de Cristo, ele não baseava seu ensino sobre o que havia de bom e reto no homem, mas sobre o que sabia sobre a natureza de Deus. Para Amós, portanto, o “pecado” é mais que a mera transgressão, mais que o mero lapso moral em vista de algum código estabelecido; é rebelião contra Deus. Israel estava em relação de aliança com Jeová. Essa relação impunha-lhe deveres e seu pecado consistia em haver repudiado os deveres inerentes a essa relação divino-humana. Israel se havia rebelado contra Jeová.
Embora cidadão do reino do sul, a mensagem de Amós era dirigida para e contra o reino do norte. De fato, ele foi o último profeta enviado ao reino do norte. No todo, bem pouco ele diz sobre seu próprio povo. Esse silêncio, contudo, não deve ser entendido como a querer ensinar que o reino do sul estava livre daqueles pecados que o profeta via no norte e que tão veementemente denunciava. Ele fora chamado para falar a Israel, que estava maduro para o juízo e se confinou quase exclusivamente a essa parte da nação.
Mas Amós também tinha algo a dizer sobre as nações circunvizinhas. Se condenava Israel por pecar contra uma lei que Deus lhe tinha tornado conhecida, por outro lado aplicava um padrão bem diferente para as nações que não estavam em relação de aliança com Deus. O que Amós via nas nações circunvizinhas era o espetáculo, capaz de partir o coração, de uma crueldade que ignorava todos os direitos humanos, que negava toda compaixão e que tornava as relações entre as nações semelhantes às lutas entre as feras. Para qualquer lado para onde o profeta olhasse, havia sempre algo ausente, a piedade natural do homem para com seu semelhante. E o que tornava pior a situação era a vantagem trivial que tal conduta proporcionava. Gaza vendeu uma vila inteira à escravidão para ganhar algum dinheiro. O rei de Moabe queima os ossos de um inimigo para satisfazer seus desejos de vingança. E assim continua a história. O senso de amizade do homem com o homem havia desaparecido. Tal mundo não podia continuar, pois a própria base de sua continuação já não existia.
Embora Amós não tivesse treinamento acadêmico, não foi ultrapassado por nenhum de seus sucessores no que diz respeito a vivacidade, vigor e simplicidade de linguagem. Seu estilo é simples, mas cheio de energia e elegância. O professor Robertson Smith defende Amós como mestre de puro estilo hebraico. Os termos que empregou eram todos familiares para seus contemporâneos, pois suas observações são todas derivadas da vida diária. Nenhum outro profeta nos forneceu tais metáforas tiradas da natureza com uma variedade tão fresca, vívida e variada. Ele se refere aos trilhos de ferro de debulhador (1.3), à tempestade (1.14); aos cedros e carvalhos com suas profundas raízes (2.9); ao leão faminto a rugir na floresta (3.4); à ave apanhada ao laço (3.5); ao pastor que sai em socorro da ovelha (3.12); aos anzóis e redes do pescador (4.2); às chuvas parciais (4.7); ao bolor e à ferrugem, às colinas e ventos ao nascer do sol, às estrelas, aos criadores lamentosos, aos terremotos, aos eclipses, ao grão peneirado numa peneira, ao refugo do trigo, às tendas consertadas etc.
Tal foi esse grande profeta “menor”. Vivendo perto de Deus ele conhecida a vontade do Senhor e tinha Sua mensagem. Embora não gozasse de popularidade, como de fato aconteceu a quase todo profeta de Israel, ele proclamava com zelo imorredouro a mensagem que Jeová lhe tinha confiado, pois, juntamente com Martinho Lutero, Amós poderia ter dito: “Não posso fazer outra coisa; portanto, ajuda-me, ó Deus”.
3.4. Cumprimento de Amós ante o Novo Testamento
A mensagem de Amós é vista mais claramente nos ensinos de Jesus e na epístola de Tiago. Ambos aplicaram a mensagem do profeta, mostrando que a verdadeira adoração a Deus não é a observância meramente formal da liturgia religiosa: é o “ouvir” e o “praticar” a vontade de Deus, e o tratamento justo e reto ao próximo (Mt 7.15-27; 23; Tg 2). Além disto, tanto Amós quanto Tiago enfatizam o princípio de que a “religião verdadeira exige comportamento correto”. Finalmente, Tiago cita Am 9.11,12 no Concilia de Jerusalém.
3.5. Contribuições Singulares de Amós
3.5.1. A ênfase na justiça social
Nenhum profeta clamou contra a injustiça com mais eloqüência do que Amós. O versículo-chave do livro tornou-se um clássico da justiça: “Corra porém o juízo como as águas e a justiça como o ribeiro impetuoso” (5.24). Apesar de sua cruzada ter sido realizada em Betel, santuário da adoração do bezerro, Amós praticamente não mencionou esse pecado da nação ao proclamar a ira de Deus contra a violação dos direitos humanos e exploração dos pobres (5.6-20). Enfatizou a grande preocupação divina pela moral. Ritual sem justiça não é religião divina, mas um perigoso desvio do caráter e verdadeiro objetivo dessa religião para com os homens. Nos seus muitos julgamentos, o profeta enfatizou que qualquer nação, ao violar os conceitos morais e sociais divinos e entregar-se à exploração do pobre, está fadada à prematura destruição (1.5,8,10,12,15; 2.3,5,14-16 etc.).
3.5.2. O Profeta do dia de Juízo (4.12)
“Prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus” foi a mensagem clara e franca de Amós. No resplendor da paz e prosperidade de Israel, ele anunciou um julgamento prestes a vir. Sua mensagem foi quase implacável ao enfatizar a condenação divina. Embora oferecesse misericórdia aos que reagissem favoravelmente (5.4,6,14), o profeta declarou que a nação em si já não tinha perdão e o julgamento era agora inevitável. Esse aviso e a intimação de Deus não foram entregues por um profeta local (tal como Jonas, que também profetizou naquela ocasião), mas por um profeta de fora comissionado especificamente para essa missão. Sem aviso prévio, apareceu na cidadela religiosa de Israel a fim de despertar os lideres. Sua mensagem foi penetrante e clara: Deus os chamava, para prestação de contas e o dia do juízo estava estabelecido. O leão destruidor já rugira (3.8; 4.12; 5.27).
3.5.3. O rústico profeta do interior (7.14)
Como Miquéias, que profetizou em Judá 20 anos depois, Amós foi um rústico profeta oriundo de uma fazenda onde criava gado. Apesar de o seu estilo ser muito elegante e vigoroso, sua maneira de falar era na realidade rústica. As palavras e símbolos por ele empregados eram os de um homem da lavoura, tais como lavrar, pomar, vinha, ceifa, gafanhotos etc. Quanto ao modo de falar, Amós parecia-se com o primeiro grande profeta de Israel, Elias, oriundo das colinas de Gileade. Esteve também à frente de uma longa fila de profetas e pregadores que lidaram com a terra, homens comissionados por Deus para o serviço profético de despertar a elite arrogante e comodista para a realidade de um ajuste de contas prematuro perante Deus. João Batista foi o último profeta desse grupo.
3.5.4. Profeta organizado classicamente
Nenhuma profecia é tão bem estruturada como a de Amós. Sua mensagem desenvolve-se do geral para o particular, vindo em seguida os detalhes. Primeiro ele apresenta o julgamento de Deus sobre Israel, e em seguida chama a atenção do povo para a necessidade desse julgamento, levando a nação a concordar sobre a necessidade de o golpe ser desferido. O livro traça, de muitas maneiras, um esboço do que vai ser dito a seguir, parte por parte. Os capítulos 1-2 são entrecortados oito vezes pela expressão “Assim diz o Senhor”, que serve para dividir suas mensagens. Os capítulos 3-5 usam três vezes a frase introdutória “Ouvi a palavra”, enquanto que os capítulos 7-8 apresentam as visões com a expressão “O Senhor Jeová assim me fez ver”. O profeta lida com Israel como se este fosse “fruto de verão” (frutos excessivamente maduros, 8.1 e ss.), mas pronuncia os julgamentos com muito equilíbrio.
3.5.5. Esclarecimento sobre o Dia do Senhor (5.18)
Como Joel fizera 60 anos antes, Amós enfatizou o dia vindouro do Senhor. Porém, ao contrário de Joel, apresentou-o como um “dia de trevas e não de luz” (5.18). O julgamento destruiria não apenas os pagãos (o que seria aplaudido por Israel), mas também os pecadores israelitas. Era esse um esclarecimento essencial para todos eles, já que interpretavam sua aliança com o Senhor como uma espécie de imunização contra calamidade ou julgamento Jl 3.12-16). Para a cidadela religiosa do norte, o profeta Amós era um intruso a sacudí-Ios com a revelação de que o Senhor não é um Deus parcial que se deixa influenciar por pessoas. Ele julga desumanidade, injustiça social e corrupção religiosa onde quer que se encontrem. Os religiosos pecadores, por terem um conhecimento maior, serão julgados com muito mais severidade do que os de menos luz ou revelação (5.21-24).
3.5.6. Apresentação das visões simbólicas (1.1)
Amós foi o primeiro profeta a empregar visões simbólicas nas declarações proféticas. Muitos profetas posteriores falaram de revelações semelhantes, tais como os Profetas Maiores e Zacarias. O poder das visões simbólicas de Amós pode ser ilustrado por sua primeira visão em 1.2. Ela foi a base do julgamento das nações da Palestina nos capítulos 1 e 2. Nela está declarado que o Senhor rugiria sobre Sião e Jerusalém, e toda a terra, desde os pastos de Tecoa até o cume do monte Carmelo no norte, estremeceria e se lamentaria. O símbolo do rugido do Senhor, como um leão ruge por uma presa, é apresentado em muitas outras passagens do livro, e enfatiza a iminência do julgamento vindouro. A visão final do Senhor com o grupo de destruição em Betel junto ao altar completa o ciclo, demonstrando onde começará a demolição divina, e que não haverá esconderijos que possam escondê-Ios, mesmo “no cume do Carmelo” (9.1-3). Cada símbolo, apresentado de maneira notável, é suficiente para que qualquer pessoa entenda e fique atemorizada.
3.5.7. Cristologia de Amós (9.11-15)
As contribuições messiânicas do livro são reservadas para os últimos quatro versículos, que descrevem a futura restauração de Israel.
(a) O tabernáculo caído de Davi será levantado (11). É um reco-nhecimento prematuro de que a casa de Davi cairia e seria mais tarde levantada para possuir todas as nações. O levantamento do “tabernáculo davídico” significava o novo estabelecimento do trono para que a justiça e a benignidade fossem praticadas (Is 16.5), o que sugere o aparecimento do Messias.
(b) Naquele dia o Senhor (Messias) restaurará Israel do cativeiro, reconstruirá para sempre as cidades e fará um plantio, a fim de gozar da colheita. Todo o texto foi escrito com a ênfase do Senhor na primeira pessoa e no futuro “Eu” farei. Como o julgamento será orquestrado pelo próprio Senhor (9.1-8), do mesmo modo ele cuidará pessoalmente da reconstrução (9.915).
O LIVRO DE OBADIAS
Esboço do livro
I. O Juízo de Edom (1-14)
A. A Destruição Que Virá sobre Edom (1-4)
B. A Devastação Será Completa (5-9)
C. Motivo: A Alegria de Edom pelas Aflições de Judá (10-14)
II. O Dia do Senhor (15-21)
A. Julgamento de Edom e Outras Nações (15,16)
B. O Lugar de Israel no “Dia do Senhor” (17-21)
1. Salvação para Israel (17,18a)
2. Destruição para Edom (18b)
3. As Fronteiras de Israel Alargadas Como Parte do Reino de Deus (19-21)
4.1. Autoria
O título desta breve profecia -o livro mais curto do Antigo Testamento -é: “Visão de Obadias”. Quem tenha sido Obadias, não possuímos meios para saber. Seu nome significa “servo de Jeová” e diversos personagens têm esse nome no Antigo Testamento, mas nada existe para ligar este profeta com quaisquer dos outros Obadias. Quanto ao emprego do termo “visão”, para descrever o conteúdo da profecia, e que lança luz sobre o modo pelo qual o profeta recebeu sua mensagem, compare-se com os versículos iniciais de Isaías, Ezequiel, Amós, Miquéias, Naum a Habacuque; ver também Nm 12.6.
Esta profecia fala sobre “Edom”. Edom é denunciada por seu orgulho, especialmente por sua falta de bondade fraternal para com Judá, e seu julgamento, no dia de Jeová, é predito juntamente com o de todas as outras nações.
4.2. Considerações preliminares
No livro do profeta Obadias não é mencionada a sua genealogia, nem outro pormenor a seu respeito. Obadias é um nome bastante comum, e significa “servo do Senhor”. Doze ou treze pessoas com tal nome são mencionadas na Bíblia (1Rs 18.3-16; 2Cr 17.7; 34.12,13). Dependemos da data desta profecia para sabermos se o Obadias que escreveu este livro é citado noutra parte do Antigo Testamento. Como nenhum rei é mencionado, não sabemos com certeza a data em que foi escrito. A única alusão histórica diz respeito a uma ocasião em que os edomitas regozijaram-se com a invasão de Jerusalém, e até mesmo tomaram parte na divisão dos despojos (vv. 11-14). Não fica claro, porém, qual invasão Obadias tinha em mente. Houve cinco invasões de monta contra a cidade santa durante os tempos do Antigo Testamento: de Sisaque, rei do Egito, em 926 a.C., durante o reinado de Roboão (1Rs 14.25,26); dos filisteus e árabes no reinado de Jorão, entre 848 e 841 a.C. (2Cr 21.16,17); do rei Jeoás de Israel no reinado de Amazias, em 790 a.C. (2Rs 14.13,14); de Senaqueribe, rei da Assíria, no reinado de Ezequias, em 701 a.C. (2Rs 18.13); dos babilônios entre 605 e 586 a.C. (2Rs 24;25).
Acredita-se que Obadias tenha profetizado em conexão com a segunda. A destruição de Jerusalém por Nabucodonosor parece a menos provável, porque não há nenhum indício, no livro, da destruição completa de Jerusalém ou da deportação de seus habitantes. Os profetas que se referem à destruição de Jerusalém identificam sempre o inimigo como sendo Nabucodonosor, e não simplesmente “forasteiros” e “estranhos” (v. 11). Sendo assim, a ocasião da profecia de Obadias é mais provavelmente a segunda das cinco invasões, quando filisteus e árabes reuniram-se para pilhar a cidade. Por essa época, os edomitas, que se achavam sob o controle de Jerusalém, já haviam consolidado sua liberdade (2Cr 21.8-10). Seu júbilo, motivado pela queda de Jerusalém, fica bem patente e compreensível. Levando-se em conta que o período do reinado de Jorão vai de 848 a 841 a.C., e que a pilhagem de Jerusalém já era realidade, considera-se 840 a.C. uma data provável à composição da profecia. Parte do contexto da profecia relembra Gn 25.19-34; 27.1—28.9, isto é, a longa rivalidade entre Esaú (pai dos edomitas) e Jacó (pai dos israelitas). Embora leiamos em Gênesis a respeito da reconciliação entre ambos os irmãos (Gn 33), o ódio entre seus descendentes irrompia freqüentemente em guerras no decurso da história bíblica (cf. Nm 20.14-21; 1Sm 14.47; 2Sm 8.14; 1Rs 11.14-22). Em consonância com suas hostilidades, os edomitas regozijaram-se com as adversidades de Jerusalém.
4.3. Edom e Judá
O ancestral epônimo dos edomitas foi Esaú (Gn 36.1,8-9). Suas relações com seu irmão gêmeo, Jacó, pai da Judá, são descritas em Gn 25-36. Desde quando as crianças lutavam no ventre de sua mãe, foi-lhe dito pelo Senhor que “Duas nações há no ventre… e o maior servirá ao menor” (Gn 25.22 e segs.). Subseqüentemente, Esaú é pintado como alguém que “por um manjar vendeu o seu direito de primogenitura” (Hb 12.16), mostrando-se insensível para os valores espirituais. Nasceu dentro da aliança, mas falhou em apreciar
o privilégio que lhe pertencia por direito de nascimento, deixando igualmente de receber as bênçãos acompanhantes. A estima em que Deus tinha Jacó e Esaú, respectivamente, é sucintamente expressa na declaração: “Amei a Jacó, e aborreci a Esaú” (Ml 1.2 e segs.; cf. Rm 9.13).
Os Herodes, do Novo Testamento, eram edomitas, e eram fiéis ao seu caráter. Note-se como se mostravam insensíveis para a verdade espiritual, especialmente quando ela se mostrou corporificada em Jesus Cristo, a perfeita representação do Jacó e Judá (Ver. esp., Mt 2; Lc 13.31 e segs.; 23.8 e segs.; At 12.21 e segs.). Gn 36.8 nos relata que “Esaú habitou na montanha de Seir”. O monte Seir é freqüentemente usado como sinônimo para a nação inteira de Edom, a qual se tornou a terra dos descendentes de Esaú. Edom é a área diretamente ao sul do mar Morto, especialmente a região montanhosa ao leste da Arabá (isto é, a depressão que liga o mar Morto ao Golfo de Acaba). A porção sul de Edom é a região de Temã, a qual, algumas vezes, também é usada, no Antigo Testamento, como sinônimo para toda Edom; e as duas principais cidades de Edom são Bozra e Sela (Petra); esta última significa “rocha”, tanto no hebraico como no grego.
De Eziom-Geber, no golfo de Acaba, saía o “caminho do rei”, que atravessava Edom até o norte. Era ao longo desse caminho que Moisés queria levar os filhos de Israel. O relato sobre a recusa de Edom, não dando a necessária permissão para tal, se encontra em Nm 20.14-21 (cf. Dt 2.1-18). O antagonismo continuou mesmo depois dos israelitas se terem estabelecido em Canaã (ver, por exemplo, 2Sm 8.14; 2Rs 14.7; 2Cr 28.17), e encontramos os profetas a denunciar Edom constantemente. Quanto às principais profecias contra Edom, ver Is 34.5; Jr 49.7-22; Lm 4.21 e segs.; Ez 25.12-14; 35; Jl 3.19; Am 1.11 e segs. Um vívido quadro de julgamento a visitar Edom, nos é dado em Is 63.1-6, e algum tempo mais tarde encontramos uma olhada para a passada destruição de Edom em Ml 1.2-5. Houve recrudescências do poder e da influência de Edom após o encerramento do período do Antigo Testamento, mas, hoje em dia, as notáveis ruínas de Petra são tudo quanto resta da grandeza de Edom.
Quanto à participação de Edom no saque de Jerusalém, em 586 a.C., ver especialmente Ez 35.5,12,15 e Sl 137.7. Essa participação de Edom não é mencionada nos livros históricos, embora facilmente possa ser encaixada ali, como, por exemplo, nos assaltos saqueadores descritos em 2Rs 24.2.
Esaú e Edom ocupam um lugar de profunda significação na revelação divina da verdade. Essa significação é focalizada agudamente nesta breve profecia de Obadias. “O pano de fundo do quadro que nos é exposto por Obadias é Jacó; o primeiro plano é Esaú. Jacó e os que dele descenderam são vistos a passar pelos sofrimentos, da natureza de castigo, mas daí seguem para a restauração final. Esaú é contemplado como um orgulhoso, um rebelde, um desafiador, encaminhando-se para a destruição final” (G. C. Morgan). Podemo-nos regozijar que, no dia do Senhor, “o reino será do Senhor”, mas não devemos deixar de acatar o exemplo de Esaú, pois, afinal de contas, “Não foi Esaú irmão de Jacó?” (Ml 1.2). Em o Novo Testamento, o escritor do livro de Hebreus nos exorta a “Tendo cuidado de que ninguém se prive da graça de Deus, e de que nenhuma raiz de amargura, brotando, vos perturbe, e por ela muitos se contaminem… profano, como Esaú… Porque bem sabeis que, querendo ele ainda depois herdar a bênção, foi rejeitado, porque não achou lugar do arrependimento…” (Hb 12.15 e segs.).
4.4. O Livro de Obadias ante o Novo Testamento
Embora o Novo Testamento não se refira diretamente a Obadias, a inimizade tradicional entre Esaú e Jacó, que subjaz a este livro, também é mencionada no Novo Testamento. Paulo refere-se à inimizade entre Esaú e Jacó em Rm 9.10-13, mas passa a lembrar da mensagem de esperança que Deus nos dá: todos os que se arrependerem de seus pecados, tanto judeus quanto gentios, e invocarem o nome do Senhor, serão salvos (Rm 10.9-13; 15.7-12).
4.5. Contribuições singulares de Obadias
4.5.1. O triste destino do filho favorito de Isaque
O livro refere-se ao destino final dos filhos gêmeos de Isaque e Rebeca, cujo casamento foi um dos mais célebres da Bíblia (Gn 24.) Todavia, a ênfase do livro está em Esaú, por intermédio de quem Isaque insistia que a bênção continuasse, apesar de Deus já ter selecionado Jacó (Gn 25.23.) A preferência de Isaque por Esaú parecia ser a melhor escolha, de conformidade com as atividades de ambos em Gênesis. Mas a história decorrente de independência, vingança e violência dos descendentes de Esaú demonstram o perigo das escolhas humanas em oposição às divinas.
4.5.2. Uma lição sobre o perigo de rancor na família (10-12.)
Apesar de descenderem de dois irmãos gêmeos, as nações de Edom e Israel tornaram-se inimigas rancorosas e implacáveis. Essa inimizade começou muito antes com uma “raiz de amargura” que se tornou uma inimizade mútua, nacional, jamais reconciliada (Hb 12.15-17.) Ironicamente, começou num lar piedoso, onde o favoritismo foi demonstrado pelos pais, e provocou intensa rivalidade entre os rapazes e amarga contenda entre os seus descendentes (Gn 25.28 e ss.; 27.41.) Aquela inimizade no seio de uma família ainda produz manchetes internacionais no Oriente Médio, lembrando-nos do princípio afirmado por Tiago: “Vede como uma fagulha põe em brasas tão grande selva” (Tg 3.5).
4.5.3. Livro pequeno com grande prólogo (Gn 25.23; Is 63.1; Ml 1.4.)
A mensagem do livro não pode ser apreciada adequadamente sem o pleno conhecimento do passado. Obadias não é apenas o menor livro do Antigo Testamento, mas provavelmente também o de mais longa introdução. A seguir, alguns pontos culminantes da história de Edom:
(a) A história começa com a disputa entre os irmãos gêmeos, na qual Jacó e sua mãe planejam arrancar de Esaú o seu direito de primogenitura e bênção (Gn 25, 27).
(b) A inimizade e amargura de vinte anos diminuiu um pouco quando Jacó teve um encontro com Deus, ao voltar de Padã-Arã (Gn 32, 33).
(c) Sua inimizade tornou-se nacional quando Israel voltou do Egito, apesar de o Senhor ter ordenado a Israel que não se vingasse (Nm 20.14-21; Dt 2.5).
(d) Essa inimizade entre Israel e Edom continuou por 1000 anos, de Moisés a Malaquias, envolvendo muitas escaramuças de menor importância.
(e) Os edomitas foram condenados por muitos profetas: Nm 24.18-19; Is 11.14; Jr 49.7-22; Ez 25.12-14; Jl 3.19; Am 1.11-12; Ml 1.3-4.
(f) Mateus apresenta a história de Jesus em Mateus 1-2 com o registro da intensa inimizade de Herodes, o edomita, que se tinha tornado rei de Israel. Aquela inimizade pode ser notada em diversas gerações da dinastia herodiana: Herodes, o Grande, procurou assassinar a Jesus (Mt 2.16); Herodes Antipas tinha assassinado a João Batista, procu¬
rado matar a Jesus, e humilhou-o cruelmente no julgamento da sua morte (Mt 14.10; Lc 13.31; 23.11); Herodes Agripa I matou a Tiago e tentou matar a Pedro (At 12.1 e ss.).
(g) A nação de Edom (Iduméia), como Israel, extinguiu-se depois da invasão e expurgo romanos em 70 d.C., sendo que os romanos incorporaram-na à Arábia Pétrea.
(h) Os edomitas são evidentemente muito criticados pelos profetas devido à sua renovada preeminência nos últimos dias, pois serão eles os inimigos que o Messias destruirá quando vier em julgamento (Is 34.1¬8; 63.1-4; Ml 1.4).
(i) Essa destruição final será completa e perpétua, embora outros antigos vizinhos de Israel sejam restaurados (Is 19.23-25; Jr 49.13; Ez 35.9; Ob 9; Ml 1.4).
Obadias é a síntese do último capítulo da história, como se fosse à conclusão dos livros sobre Edom. Foi um povo que podia ter se tornado grande, tendo sido dotado de rara sabedoria e força, mas “vendeu o seu direito de primogenitura” por desprezar a Palavra de Deus e o povo escolhido por Deus. Os edomitas permitiram que um antigo ciúme se transformasse em amargura e vingança, incorrendo no eterno julgamento divino. São extremamente raros os edomitas de renome, tais como Doegue, que matou os sacerdotes de Nobe, Hadade, inimigo de Davi, e Herodes, que tentou matar o Messias (1Sm 22.18; 1Rs 11.14 e ss.; Mt 2.16).
O LIVRO DE JONAS
Esboço do Livro
I. Primeira Chamada de Deus a Jonas (1.1—2.10)
A. Chamada de Jonas: “Vai à Nínive” (1.1-2)
B. Desobediência de Jonas (1.3)
C. Conseqüências da Desobediência de Jonas (1.4-17)
1. Para os Outros (1.4-11)
2. Para Si Mesmo (1.12-17)
D. A Oração de Jonas no Meio da Calamidade (2.1-9)
E. O Livramento de Jonas (2.10)
II. Segunda Chamada de Deus a Jonas (3.1—4.11)
A. A Chamada de Jonas: “Vai à Nínive” (3.1,2)
B. A Missão Obediente de Jonas (3.3,4)
C. Resultados da Obediência de Jonas (3.5-10)
1.Os Ninivitas Arrependem-se (3.5-9)
2.Os Ninivitas Poupados do Juízo Divino (3.10)
D. A Queixa de Jonas (4.1-3)
E. A Repreensão e a Lição de Jonas (4.4-11)
O livro de Jonas gira inteiramente em torno das relações pessoais entre Jeová e Seu servo, Jonas, filho de Amitai. Essas relações se originam numa comissão profética, da qual Jonas procurou evadir-se. Jonas descobriu que os pensamentos de Deus não eram os seus pensamentos e que seus caminhos não eram os caminhos de Deus. Mas Deus não deixou Jonas sozinho. Na primeira metade da história, Deus permite que Jonas chegue ao extremo de quase perder a própria vida, somente para em seguida restaurá¬-lo à posição onde ele se encontrava antes dele tentar, por meios físicos, evitar o mandado de Jeová. Na segunda metade da história o Senhor permite que Jonas chegue ao extremo da depressão mental e espiritual, somente para revelar a ele a correção essencial de Seus misericordiosos propósitos.
5.1. A mensagem e sua forma
A forma deste livro é a de uma peça de narrativa biográfica, semelhante (quanto ao estilo, linguagem, atmosfera e elementos miraculosos) a diversos incidentes de 1 e 2 Reis, concernentes, a Elias e Eliseu, os quais, realmente, foram predecessores imediatos de Jonas como profetas no reino do norte, Israel; e eles, à semelhança de Jonas, realizaram parte de seu trabalho em relação a povos pagãos -Elias à Sidônia, e Eliseu à Síria, enquanto que Jonas em relação a Nínive. A história de Jonas, entretanto, não é simplesmente um incidente isolado na história profética de Israel que facilmente poderia ser encaixada nos livros de Reis, onde o ministério de Jonas é mencionado (2Rs 14.25). Mas sua mensagem é distinta e cada porção da história é relatada de forma a exibir essa mensagem. Por essa razão, o livro, encontra posição apropriada entre os profetas; diz respeito a uma revelação particular da verdade de Deus e essa revelação está intimamente relacionada com a experiência profética.
A revelação particular com a qual o livro de Jonas se ocupa pode ser expressa nas palavras que formam a conclusão da história de Pedro e dos gentios, em At 11.18: “Na verdade até aos gentios deu Deus o arrependimento para a vida”. Essa revelação, no livro de Jonas, foi transmitida de tal modo que salienta, por um lado, a soberana misericórdia e justiça de Deus, ao conceder a Nínive o “arrependimento para a vida”, enquanto que, por outro lado, fica destacado o pecaminoso particularismo do servo de Deus, Jonas, ao resistir contra essa manifestação da vontade divina.
5.2. Base histórica
Visto que o livro de Jonas transmite uma mensagem distintiva, muitas pessoas, em anos recentes, têm imaginado que a narrativa não é histórica, mas antes, imaginada, e que, à semelhança da história do Bom Samaritano, por exemplo, deveria ser classificada como uma parábola. Porém, apesar de que este último ponto de vista não é inteiramente impossível, sem dúvida não é necessário imaginar que em vista de um livro ter um propósito didático (ou, conforme preferiríamos dizer, revelatório), não pode, ao mesmo tempo, ser uma narrativa histórica. At 10.1-11.18, sob certos aspectos é o paralelo neotestamentário de Jonas, tem um motivo didático semelhante. Porém, ninguém apresenta a sugestão que Lucas pensava estar escrevendo uma parábola ou uma ficção homilética. Por semelhante modo, naturalmente, a presença de elemento miraculoso em um relato não é evidência que não foi registrado como narrativa histórica e que seu autor não tenha tencionado que fosse aceito como tal.
Um grupo mais reduzido de pessoas tem apresentado a suposição que Jonas é uma alegoria do exílio e da missão de Israel. Jr 51.34 é exibido como possível base para essa história. Esse ponto de vista, em parte, é uma tentativa de explicar as ocorrências na história que, de outro modo, teriam de ser consideradas miraculosas, e envolve a teoria, que o livro é produto do período pós-exílico. Uma vez mais, todavia, apesar de que podemos ter, legitimamente, um paralelo iluminador entre a experiência de Jonas e a que deveria sobrevir à nação israelita, de modo algum se segue que a história seja de data mais recente e não-histórica. Os livros da Bíblia não são produções fortuitas. O fato de Jonas haver sido engolido pelo grande peixe pode muito bem prefigurar o exílio, como certamente prefigura o sepultamento de Cristo.
Qualquer avaliação do caráter histórico do livro de Jonas precisa levar em consideração os fatos seguintes: Primeiro, o próprio Jonas, sem dúvida alguma, foi um personagem histórico, um profeta de Jeová em Israel (2Rs 14.25). Segundo, o livro foi lavrado na forma de narrativa histórica direta, não havendo indicação positiva que o livro deva ser interpretado doutra forma que não a literal. Terceiro, se esse livro é uma parábola ou alegoria, então é único e sem analogia entre os livros do Antigo Testamento. Quarto, nem os judeus nem os cristãos, até recentemente, jamais consideraram que o livro de Jonas registra outra coisa além de fatos reais, quaisquer que sejam as interpretações que tenham emprestado à sua mensagem. Finalmente, nosso Senhor Jesus Cristo claramente acreditava e sabia que o arrependimento dos homens de Nínive foi uma ocorrência real e é muito natural considerar Sua alusão aos “três dias e três noites no ventre do grande peixe”, da experiência de Jonas (Mt 12.40-41), do mesmo modo. Em adição, pode-se argumentar que a força total da autovindicação de Jeová perante Jonas exige uma missão real a uma cidade pagã, um arrependimento verdadeiro de sua parte, e haverem seus habitantes sido realmente “poupados” pelo Senhor. Não é fácil acreditar que o desafio que diz: “E não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive…?” tenha sido apresentado ao povo de Israel, por intermédio do escritor inspirado, mediante uma consideração puramente hipotética.
5.3. Data e autoria
Não se pode chegar a certeza alguma no que diz respeito à data em que o livro foi escrito. Alguns têm argumentado que a história inteira não teria significado depois que Nínive foi realmente destruída (em 612 a.C.). Há alguma força nesse argumento. Então “Não hei de eu ter compaixão… de Nínive…?” não seria apenas uma consideração hipotética, mas uma consideração bastante mal escolhida. Diversos eruditos proeminentes, em realidade, têm atribuído o livro a qualquer século, entre o oitavo e o segundo a.C. Porém, deve ser frisado que o principal motivo pelo qual muitos eruditos mantêm que esse livro seja produto do período pós-exílico é que “o pensamento geral e o teor do livro… pressupõe o ensino dos grandes profetas”, incluindo Jeremias (S. R. Driver). Porém, não vemos razão que nos incline a acompanhar esse julgamento altamente subjetivo.
“A presença de aramaísmos no livro não pode ser critério para determinar a data, visto que os aramaísmos ocorrem nos livros do Antigo Testamento desde os mais recuadas até os mais recentes períodos” (E. J. Young). Juntamente com a evidência lingüística, deve ser levado em consideração o fato que “não existe neles (Jonas, Joel, etc.) uma só palavra grega” e “nem uma palavra babilônica que já não tenha sido encontrada na literatura mais antiga” (R. D. Wilson). Essa evidência não dá apoio à teoria que Jonas pertence ao período pós-exílico. S. R. Driver, que defendia o ponto de vista pós-exílico, admitiu como possibilidade que “algumas das características lingüísticas podem ser consistentes com a origem pré-exílica, ao norte de Israel” (Introduction, p. 301).
Jonas exerceu seu ministério no reinado de Jeroboão II (793-753 a.C.), e parece muito natural supor que a história tenha sido originalmente posta em forma escrita algum tempo antes da queda do reino do norte, em 721 a.C., embora facilmente possa ter havido circunstâncias que ocorreram entre 721 a.C. e 612 a.C., quando Israel era governada por Nínive, que tenham possibilitado uma publicação mais lata do livro naquele período.
Nada é dito no livro de Jonas acerca do seu autor. Embora o próprio Jonas, obviamente, deva ter sido a principal fonte final de informação para a história não há motivo pelo qual ele deva ter sido o autor. Sem dúvida a história logo se tornou conhecida em Israel e podemos presumir que os marinheiros tiveram sua contribuição para propagar o relato. O capítulo primeiro tem certo número da sinais de que o relato se derivou de outra fonte que não o próprio Jonas (como Atos 27). O versículo 5a, por exemplo, descreve o que teve lugar enquanto Jonas estava dormindo no porão do navio e o versículo 16 relata o que fizeram os marinheiros depois que Jonas foi lançado ao mar. Presumivelmente a embarcação regressou ao porto quando a tempestade amainou, visto que aparentemente ainda não se haviam afastado muito da terra (1.13) e, de qualquer modo, a carga havia sido atirada borda fora (1.5). Se Jonas, igualmente, retornou a Jope, talvez foi à base da informação prestada pelos marinheiros que ele foi capaz de calcular por quanto tempo estivera debaixo da água.
5.4. Jonas e Jesus
Certo número de importantes passagens bíblicas deveriam ser estudadas paralelamente com o livro de Jonas. No Antigo Testamento, por exemplo, Jr 1.4-10 (quanto à comissão profética), Jr 18.7-10 (quanto ao efeito do arrependimento sobre a proclamação de Deus), Sl 139 (quanto à experiência do profeta). Em o Novo Testamento, At 10.1-11.18 e Rm 9-11, ilustram a mensagem missionária de Jonas, e vice-versa. Porém, em particular, as passagens nos evangelhos que se referem a Jonas, deveriam ser comparadas e estudadas (Mt 12.38-41 e Lc 11.29-32). Alguns pontos serão abordados no comentário. Aqui, entretanto, podemos notar que Jonas é o único profeta do Antigo Testamento com o qual Jesus se comparou diretamente, obviamente Jesus considerava a experiência e a missão de Jonas como de grande significação. É extremamente interessante, portanto, relembrar que tanto Jesus como Jonas foram “profetas da Galiléia”. A cidade de Jonas, Gate-Hefer, ficava a apenas alguns poucos quilômetros ao norte de Nazaré, a cidade de Jesus. Era menos que uma viagem de uma hora a pé. Jesus deve ter ido lá freqüentemente. Talvez até em Seus dias o túmulo de Jonas fosse conhecido ali, como mais tarde, na época de Jerônimo. Foi ali que, nos dias de Sua obscuridade, Jesus começara a meditar sobre a significação de Jonas e de Sua própria missão?
Os fariseus aparentemente se esqueceram de Jonas quando atacaram Nicodemos dizendo-lhe que “da Galiléia nenhum profeta surgiu” (Jo 7.52). Tivesse ele pesquisado as Escrituras com mais cuidado, não teriam errado tanto, ao deixar também de perceber que “está aqui quem é mais do que Jonas” (Mt 12.41).
5.5. Contribuições singulares
5.5.1. Comparação entre Jonas e Obadias
Obadias descreve a ira de Deus sobre os inimigos de Israel. Por sua vez, o Livro de Jonas contrabalança tal atitude com uma ilustração clássica da mi¬sericórdia divina demonstrada a um dos antigos inimigos dos israelitas. Em Obadias, o julgamento divino é pronunciado contra os pagãos que rejeitam a oportunidade de arrependimento e persistem em sua arrogância vingativa. Em Jonas, a misericórdia divina é oferecida aos pagãos, que se arrependem e reagem favoravelmente ao Deus de Israel. Isso é ilustrado por dois casos extremos: Os edomitas eram muito chegados a Israel (parentesco e proxi¬midade), mas foram alvo da ira divina devido à sua arrogância. Em contrapartida, os ninivitas estavam longe e eram depravados, povo belicoso, mas foram alvo da misericórdia divina devido ao seu arrependimento (Ob 3; Jn 3.5-10).
5.5.2. Laconismo de Jonas (3.4)
Nenhum outro profeta foi tão conciso em sua mensagem. Sua profecia continha apenas sete palavras (cinco no hebraico): “Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida.” Ao contrário de outros profetas da escrita, a mensagem de Jonas era mais de experiência do que de exposição. Até mesmo sua curta profecia deixou de realizar-se (o que muito o aborreceu). Todavia, sua experiência foi uma importante mensagem para Nínive, Israel e até mesmo para a Igreja hoje (Mt 12.39-40).
5.5.3. Milagres de Jonas (1.15,17; 2.10; 3.5-10; 4.6)
Enquanto outros Profetas Menores não registram milagres históricos, Jonas registra diversos, sobre os quais se apóia sua mensagem (aquietando o mar, preservação de Jonas dentro do peixe, arrependimento de Nínive, o rápido crescimento da planta e o aparecimento do verme). Jonas tem isso em comum com Isaías e Daniel, pois todos eles registraram diversos milagres históricos e são contestados pelos críticos quanto à sua autenticidade e autoria (Is 37.36; 38.8; Dn 3.25; 6.22). Como o objetivo dos milagres era quase sempre autenticar a revelação (Êx 4.5; 1Rs 18.36-39), a mensagem do julgamento de Deus e sua misericórdia, trazida por Jonas a Nínive e não compreendida por Israel, era realmente crucial para o profeta e aquela cidade pagã. A importância adicional da mensagem como um antítipo profético da ressurreição de Cristo dificilmente pode ser superestimada.
5.5.4. Arrependimento de Nínive (3.5-9)
O Livro de Jonas contém o relato do maior reavivamento registrado na Bíblia: toda a cidade de Nínive abandonou os seus caminhos iníquos e voltou-se para Deus. Jonas foi também usado como instrumento de arrependimento para os marinheiros, fazendo com que eles se voltassem para o Senhor depois de o profeta ter sido jogado ao mar, aquietando-o. Parece que ele obteve mais resultados “por acaso” do que a maioria dos profetas obtiveram intencionalmente (Isaías, Jeremias e Ezequiel alcançaram poucos resultados imediatos; Is 6.9-11; Jr 14.1 e ss.; 15.1 e ss.; Ez 3.7). Questiona-se às vezes se o arrependimento de Nínive foi sincero. A resposta do livro de Jonas é que evidentemente Deus o considerou sincero, pois suspendeu o julgamento que lhes tinha sido notificado (3.10). Jesus também testificou que “se arrependeram com a pregação de Jonas” (Mt 12.41), o que Israel deixou de fazer com a pregação do Messias.
5.5.5. “Arrependimento” de Deus (3.9-10)
O livro registra o fato de que Deus também “se arrependeu” ou “compadeceu-¬se”, conforme a maioria das versões (Heb. nacham). A mesma palavra é usada para o arrependimento humano (Jó 42.6). Outra palavra também é usada com o sentido de arrependimento e conversão: shub, conforme está na frase “e se converterão, cada um do seu mau caminho” (3.8-9). Significa “mudar de idéia”. É aqui empregada como uma expressão antropomórfica a fim de mostrar o aspecto condicional do julgamento divino, o qual depende das ações do homem. Esse princípio é declarado em Jeremias 18.8. A afirmação de Números 23.19 (1Sm 15.29) de que “Deus não é homem (…) para que se arrependa” fala da sua veracidade e do seu caráter imutável. O julgamento de Deus depende sempre das ações do homem.
5.5.6. Arrependimento de Jonas (Cps. 2, 4)
Embora o livro registre o arrependimento inesperado de um dos maiores tiranos da história antiga, sua ênfase maior está no arrependimento ou mudança de Jonas. O arrependimento de Nínive ocupa um capítulo, mas a história da preparação de Jonas e seu subseqüente treinamento são apresentados em três capítulos (1, 2 e 4). Parece que Deus teve mais dificuldade em aperfeiçoar Jonas do que todo o povo de Nínive. Quando o profeta foi conduzido ao ponto de obediência, o reavivamento ocorreu naturalmente. A preparação de Jonas foi realizada em etapas. A experiência do peixe preparou-o para Nínive, mas ele precisou de mais treinamento para voltar a Israel. Se o arrependimento da cidade no capítulo três surpreende a todos, o profeta desapontado do capítulo quatro causa-nos um choque. Ele parece estar mais interessado em que sua profecia se cumpra, como um crédito à sua profissão, do que a cidade de Nínive seja poupada do julgamento divino. É desse modo que termina a história, deixando o leitor inteiramente desapontado diante da atitude do profeta. Jonas parece ser irremediavelmente egoísta e fanático, até lembrarmos que ele escreveu o livro, sem “dourar” a sua própria imagem no final. Essa imagem foi obvia¬mente destinada a impressionar e humilhar Israel, pois a atitude do profeta foi um reflexo da atitude do povo. Os judeus estavam tão envolvidos com os seus próprios prazeres e prosperidade do período áureo de Jeroboão lI, que tinham perdido de vista a sua missão como povo da aliança divina.
5.5.7. O lugar de Jonas no ritual judaico
Para os judeus ortodoxos, é tradição usar o Livro de Jonas como leitura obrigatória para o Culto Vespertino do Dia da Expiação (A. Cohen, The Twelve Prophets, p. 137). Nesse dia de jejum nacional, lamentação e perdão recíprocos dos pecados, eles relêem a história dos antigos habitantes de Nínive, que acharam misericórdia por convocarem arrependimento e perdão de pecados em toda a nação. Apesar de não haver evidência de que os israelitas do tempo de Jonas tenham reagido dessa forma, judeus ortodoxos usam o livro no seu maior dia anual de jejum a fim de lembrar que o Senhor é um Deus de misericórdia para o povo arrependido, independente da sua raça.
Jonas tem um lugar especial no respeito e no ritual dos judeus.
5.5.8. O livro da misericórdia universal de Deus (4.11)
Nenhum outro livro do Antigo Testamento ensina de maneira tão enfática a extensão da misericórdia divina às nações gentias. Essa perspectiva mundial da missão de Israel foi observada anteriormente por Josué e Salomão (Js 4.24; 1Rs 8.43,60), mas tem sido muitas e muitas vezes esquecida pela nação no decurso das suas muitas apostasias. Nesse ponto central da história, Jonas foi usado para conclamar a nação a refletir sobre o programa divino do julgamento universal dos malfeitores e sua oferta universal de misericórdia para o arrependimento e fé. Frederick Faber, Voice of Thanksgiving Hymnal (Hinário de Ação de Graças), expressou o seguinte: “Pois o amor divino excede a mente humana, e o coração do Eterno Deus é de uma bondade surpreendente”.
5.5.9. Cristologia de Jonas
A ênfase central de Jonas na misericórdia divina estendida a todas as raças é exemplificada, de maneira maravilhosa, no ministério de Jesus. Ele chamou todas as pessoas ao arrependimento, vindo como “luz para alumiar as na¬ções, e para glória de teu povo Israel” (Lc 2.32). Após sua ressurreição, Jesus enviou os Doze para fazer “discípulos de todas as nações” (Mt 28.19). A relação cristológica mais específica do livro, porém, é a experiência de Jonas no grande peixe como o antítipo de Cristo (Mt 12.40). Foi Jonas o único profeta indicado por Jesus como antítipo dele próprio. Do mesmo modo que Jonas esteve no ventre do peixe (lugar de morte) durante três dias e três noites, assim o Filho do Homem esteve no coração da terra. “Dia e noite” era uma expressão hebraica para qualquer parte de um dia. Como um antítipo tem apenas um ponto de analogia (como uma parábola), do mesmo modo Jonas tipificou Cristo apenas em um ponto, sua experiência no abismo da morte por um período de tempo (Jo 11.17,39). Jesus usou a experiência de Jonas para tipificar a maior verdade bíblica: sua própria ressurreição dentre os mortos.

O LIVRO DE MIQUÉIAS
Esboço do Livro
I. Juízo contra Israel e Judá (1.1—3.12)
A. Introdução (1.1)
B. Predição da Destruição de Samaria (1.2-7)
C. Predição da Destruição de Judá (1.8-16)
D. Pecados Específicos do Povo de Deus Que Requerem Castigo (2.1-11)
1. Cobiça e Orgulho (2.1-5)
2. Falsos Profetas (2.6-11)
E. Primeiro Vislumbre do Livramento Prometido (2.12,13)
F. Pecados Específicos dos Líderes do Povo de Deus (3.1-12)
1. Injustiça e Opressão (3.1-4)
2. Falsa Profecia (3.5-7)
3. Miquéias, Um Profeta Verdadeiro (3.8)
4. Resumo dos Pecados dos Líderes (3.9-12)
II. Mensagem Profética de Esperança (4.1—5.15)
A. A Promessa do Reino Vindouro (4.1-5)
B. Derrota dos Inimigos de Israel (4.9-13)
C. O Rei Que Virá de Belém (5.1-8)
D. A Natureza do Novo Reino (5.6-15)
III. O Litígio de Deus contra Israel e Sua Misericórdia Final (6.1—7.20).
A. O pleito de Deus contra Seu Povo (6.1-8)
B. A Culpa de Israel e o Castigo Divino (6.9-16)
C. O Lamento Doloroso do Profeta (7.1-6)
D. A Esperança Pessoal do Profeta (7.7)
E. Israel Será Reestabelecido (7.8-13)
F. As Bênçãos Finais de Deus para Seu Povo (7.14-20)
6.1. Data
O versículo inicial fixa o período durante o qual Miquéias profetizou -entre os anos 751 e 687 a.C. O mesmo versículo deixa subentendido que Samaria continuava de pé mas que sua destruição iminente estava sendo declarada, em 1.5-6; portanto, pelo menos esta seção é anterior a 721 a.C., o ano da queda de Samaria e do colapso do reino do norte. O versículo 9 parece antecipar a investida de Senaqueribe contra Jerusalém, em 701 a.C. Os sacrifícios humanos foram uma característica dos dias negros do rei Manassés (696-642 a.C.), mas não é necessário supor que Mq 6.7 se refira a esse período, visto que tais ritos também foram praticados pelo rei Acaz (736¬716 a.C.): ver 2Rs 16.3. Portanto, parece que Miquéias tenha sido contemporâneo mais jovem de Isaías: alguns chegam mesmo a considerá-lo como discípulo de Isaías. É interessante observar que um oráculo semelhante aparece em ambas as profecias (Mq 4.1 e segs. e Is 2.2 e segs.).
O cumprimento da profecia de Miquéias, em Mq 3.12, foi relembrado mais de cem anos mais tarde. Ver Jr 26.18, onde é dito que “Miquéias… profetizou nos dias de Ezequias, rei de Judá”. Não resta dúvida que seu principal trabalho foi levado a efeito durante esse reinado (729-687 a.C.) e, assim, ele teria sido parcialmente responsável, debaixo de Deus, pelo reavivamento espiritual daquela época (2Cr 30).
6.2. O Problema crítico
Neste livro está contida certa variedade de material e os diversos oráculos não necessitam ter sido proferidos todos ao mesmo tempo. Excetuando o versículo inicial, não existem outras indicações claras quanto à data, tais como encontramos, por exemplo, em Ag 1.1; 2.1,10,20, mas fica subentendido um ministério que deve ter-se prolongado por um número considerável de anos. Muitos eruditos, por conseguinte, mantêm que quaisquer diferenças quanto ao estilo ou ao assunto abordado, podem ser imediatamente explicadas pelas necessidades diferentes e pelo próprio desenvolvimento mental e espiritual de Miquéias, e que, portanto, é desnecessário imaginar mais que um só autor.
Outros eruditos, porém, não podem acreditar que o profeta que proferiu as inflexíveis advertências e denúncias dos três primeiros capítulos, também possa ser responsabilizado pela brilhante visão do capítulo 4 ou pelas reconfortantes promessas do capítulo 5. Na opinião desses, além disso, os capítulos 6 e 7 contemplam uma situação histórica completamente diferente da que é pressuposta nas profecias anteriores. Porém, afirmar que o homem que compôs os capítulos 1 a 3 não poderia também ter composto os capítulos 4 e 5 seria impor a Miquéias um grande grau de limitação, que é completamente injustificável. Declarar que a pessoa que fala nos capítulos 1 a 3 estava por demais ocupada com problemas sociais para interessar-se nas especulações visionárias dos capítulos 4 e 5, seria deixar de perceber que todo reformador social só pode persistir em sua tremenda tarefa se tiver uma visão de um mundo redimido.
Não há necessidade de esperar uma conexão óbvia entre os vários blocos de material, pois dentro de um só capítulo podem ser encontradas diversas declarações que tratam de assuntos diferentes. Possivelmente, 7.7-20 pode ser um apêndice posterior ao tempo de Miquéias, mas isso de modo algum é certo.
6.3. O Profeta
Em 1.1 o profeta é descrito como “morastita”, isto é, habitante de Moresete-Gate (1.14), que, segundo Jerônimo, até seus dias era “uma pequena aldeia próxima de Eleuterópolis”. Eleuterópolis tem sido identificada como Beit-Jibrin, e fica em um dos vales que sobem da planície costeira para as terras altas da Judéia em redor de Jerusalém. Moresete, portanto, ficaria cerca de quarenta quilômetros ao sudoeste de Jerusalém, na Sefelá, a meio caminho entre a cidade de Gate, na Filístia (1.10) a oeste, e Adulão (1.15), a leste. Sua relação para com Maresa (1.15) não é claramente conhecida: alguns as julgam idênticas. Em algum tempo ou outro parecem ter estado sob a suserania de Gate, ou ter tido alguma conexão com aquela cidade.
Dessa maneira Miquéias não vivia em algum lugar atrasado, porém, no mais importante dos vales, que oferecia aproximação à capital para quem vinha da planície marítima. Desse ponto vantajoso ele contemplava a grande estrada costeira, ao longo da qual, por centenas de anos, haviam passado os exércitos dos conquistadores, as caravanas comerciais e grupos de peregrinos. Habitando perto da ponte natural entre a Ásia e a África, com o Mediterrâneo como pano de fundo rebrilhante, 32 quilômetros além, ele se achava em posição de onde podia contemplar o triste drama de 721-719 a.C., quando, após a queda de Samaria, Sargom passou a empenhar-se para dominar as forças egípcias na estrada costeira em Ráfia, em 719 a.C. Poucos anos mais tarde, Judá aliou-se a Edom, Moabe e os filisteus na tentativa de, com a ajuda egípcia (que nunca veio), quebrar o poder da Assíria na região; porém, os aliados foram duramente enfrentados pelo tartã, o oficial de Sargom, e Asdode e Gate foram saqueadas (Is 20.1). Mais tarde ainda, Senaqueribe, que em uma de suas inscrições se vangloria de haver capturado quarenta e seis aldeias judaicas, talvez tenha conquistado também Moresete-Gate como uma delas.
Além disso, não havia comércio entre o Egito e Jerusalém que Miquéias não observasse. Ele via Judá pondo sua confiança no Império decadente do Nilo; via as equipes de cavalos e carruagens egípcias nas quais Judá, uma região montanhosa e imprópria para cavalaria, repousava falsamente sua confiança; via as influências corruptoras de uma aliança estrangeira; via o orgulho crescente e a falta de escrúpulos dos homens da capital.
Na qualidade de homem interiorano, o profeta via na capital de seu país a fonte e o centro da iniqüidade. “Qual é a transgressão de Jacó? Não é Samaria? e quais os altos da Judá? Não é Jerusalém?” (1.5). Ele mesmo pode ter sido um fazendeiro e ter sido expulso de sua herdade por algum ganancioso dono de terras. “E cobiçam campos e os arrebatam e as casas e as tomam: assim fazem violência a um homem e à sua casa, a uma pessoa e à tua herança” (2.2). Amarga experiência pessoal e perda, tal vez estejam por detrás dessas palavras. Miquéias era direto em suas palavras como os homens do interior e também possuía profundeza de confissões e inflamada indignação. Não obstante, ele também era capaz de dizer coisas sublimes e belas. Ele ultrapassa o próprio Isaías na ternura de seus apelos, na lúcida simplicidade e na sublimidade moral que acompanham seu maior oráculo (6.1-8).
Embora Miquéias tenha vindo do interior, enquanto que Isaías pertencia à capital e à corte real, as mensagens principais de ambos são substancialmente as mesmas. Isaías, como já seria de esperar, tem mais a dizer acerca da situação política e acerca das relações com o Egito e a Assíria; porém, ao abordarem os males sociais e morais, conseqüentes da rejeição ao Senhor por parte de Israel, ambos os profetas falam num único tom. Cf., por exemplo, Mq 2.1 e segs., com Is 5.8 e segs.; Mq 3.1-4 com Is 10.1-4. A nação hebréia estava deixando de cumprir sua missão no mundo, para a qual Deus a tinha chamado (Mq 2.7; Is 1.21) e, por conseguinte, teria de ser expurgada por meio de julgamento e repreparada para o serviço (Mq 3.12; 4.6-7; Is 1.25-27). As mensagens desafiadoras de ambos os profetas devem ter influenciado profundamente Ezequias em sua obra de reforma.
Miquéias era nome comum entre os judeus, e significa “quem é como Jeová?” (cf. Miguel, “quem é como Deus?”). É digno de nota que a profecia de Miquéias tem início com as palavras de um apelo feito anteriormente por um seu homônimo (1Rs 22.28). Dessa maneira, Miquéias liga-se deliberadamente com aquele campeão mais antigo da verdade.
6.4. Contribuições singulares
6.4.1. Aterrorizante descida do Senhor a terra (1.3-4)
Miquéias principia apresentando uma das mais tremendas descrições do Senhor: sua descida à terra com terrível ira. Do mesmo modo que Jonas, Miquéias proclama o julgamento de Deus antes de declarar sua misericórdia perdoadora. Na realidade, os três livros seguintes seguem o mesmo tema do Senhor vindo como um guerreiro poderoso que faz “os montes” tremerem (Na 1.2-6), “os outeiros eternos” se abaterem (Hc 3.6) e toda “a terra” ser consumida (Sf 1.18). Isaías também apresenta esse terrível quadro nos capítulos 24 e 63, quando descreve as devastações do Dia do Senhor. Os profetas viram o pecado do homem significando nada menos do que uma redução catastrófica da terra ao caos (Jr 4.23-26). Miquéias apresenta esse quadro do Senhor a fim de enfatizar a grande ira divina contra aqueles que praticam violência e injustiça para com os pobres. Tirar proveito dos pobres, adverte ele, é incorrer na ira do Todo-poderoso (Dt 15.10; Sl 109.31; 140.12; Pv 14.31; 19.17).
6.4.2. Profeta do homem pobre
Miquéias é conhecido como o profeta do homem comum. Tendo ele mesmo vindo de berço humilde, conhecia as más condições dos pobres e tomou para si sua causa contra os vorazes líderes da nação que visavam a seus próprios interesses (3.1-3). Em todo o livro, Miquéias denuncia a opressão do fraco, o suborno entre os líderes, o ato de expulsar mulheres dos seus lares e prática de toda espécie de roubo, grande parte dele em nome da religião (2.1-2, 8¬11; 3.1-3,9-11; 6.10-12; 7.1-6). Embora não isente o pobre apenas pela sua pobreza, ele condena intrepidamente as classes superiores por sangrarem os pobres e indefesos. Ao descrever a esperança da restauração, Miquéias surpreende a nação com o anúncio de que o futuro “governador de Israel”, o Messias, virá da pequena e insignificante cidade de Belém, ao invés da opulenta capital Jerusalém (5.2-4). Apresenta-o na condição de um “Pastor”, como o era Davi. Todavia, será maior do que Davi, e “engrandecido até aos confins da terra” (5.4). Miquéias foi o último profeta a mencionar Belém no Antigo Testamento. Concentrou, porém, a atenção da nação sobre a pequena cidade por mais de 700 anos.
6.4.3. O Evangelho de justiça social de Miquéias (6.6-8)
No Antigo Testamento, não se encontra um resumo da Lei mais simples e mais profundo do que o de Miquéias 6.6-8. Suas exigências são simples e sem rodeios: praticar a justiça, amar a bondade demonstrando-a, e andar humildemente com Deus. Do mesmo modo que Jesus resumiu a Lei como “amor” para os insensíveis líderes do seu tempo. Miquéias resumiu-a como justiça, misericórdia e modéstia para um povo completamente desprovido dessas qualidades, embora muitíssimo ocupado com religião (3.11). Os “milhares de carneiros” e “dez mil ribeiros de azeite” (6.7) não podiam subornar Deus a fechar seus olhos à ausência de justiça e misericórdia entre os homens.
6.4.4. Total depravação de Israel (7.2-6)
À semelhança de lsaías (1.5-6 e 57.1), Miquéias observou que Israel tinha chegado a uma situação em que se podia muito bem afirmar: “não há entre os homens um que seja reto” (7.2). Eram todos iníquos e só cuidavam dos
seus próprios interesses naquela sociedade idólatra. Tendo-se afastado da verdade divina, estavam colhendo os efeitos sociais de “os inimigos do homem são os da sua própria casa”, incluindo esposa, filhos e pais (7.5-6). Jesus citou esse texto de Miquéias em Mateus 10.21,35 para mostrar que a rejeição da verdade que ele estava pregando no seu tempo traria aquela mesma condição de castigo do tempo de Oséias. Paulo também se refere a isso em Romanos 1.28-32, mencionando que a depravação social está sempre ligada à rejeição da verdade.
6.4.5. Cristologia em Miquéias (4.1-8; 5.2-5)
Dois textos de Miquéias falam do reino do Messias e de sua vinda. Nos “últimos dias”, ele reinará no monte Sião, onde prevalecerão a verdade, a justiça, a prosperidade e a paz. Ali os coxos, os expulsos e os aflitos estarão reunidos a fim de formar o núcleo da sua “poderosa nação” (4.1-7).
Em 5.2, entretanto, Miquéias revela que esse reino não começará ostentando grandeza, pois o próprio Messias nascerá na pequena vila de Belém, lugar de criação de carneiros. Ele, que é eterno, virá de Deus como Pastor de Israel. Mas antes que o Messias se torne grande até os confins da terra, a nação será abandonada pelo Senhor por um tempo, no fim do qual ele surgirá para pastorear o seu povo com grande majestade (5.3-4).

O LIVRO DE NAUM
Esboço do Livro
Título (1.1)
I. A Natureza de Deus e do Seu Juízo (1.2-15)
A. Características da Administração da Justiça de Deus (1.2-7)
B. A Ruína Iminente de Nínive (1.8–11.14)
C. Consolo para Judá (1.12,13, 15)
II. Vaticínio a Respeito da Queda de Nínive (2.1-13)
A. Introdução (2.1,2)
B. O Combate Armado (2.3-5)
C. A Cidade é Invadida e Devastada (2.6-12)
D. A Voz do Senhor (2.13)
III. Razões da Queda de Nínive (3.1-19)
A. Os Pecados da Crueldade de Nínive (3.1-4)
B. A Justa Recompensa da Parte de Deus (3.5-19)
7.1. Data
A profecia de Naum antecipa a queda de Nínive. O profeta fala sobre a queda da cidade com uma clareza e uma intimidade possíveis somente se tal acontecimento estivesse quase imediato. Isso data a profecia de Naum como pouco antes da queda daquela cidade, em 612 a.C. O profeta também menciona o saque de Nó-Amom (3.8), como fato consumado. Essa cidade foi pilhada pelo rei Assurbanipal, da Assíria, cerca de 670 a.C. Esta profecia, por conseguinte, pode ser datada entre esses dois eventos. Outra pequena partícula de evidência interna sugere que a data pode ser fixada com mais precisão como pouco depois da reforma de Josias, em 621 a.C. Há uma referência (1.15) que sugere que a importância da observância das cerimônias religiosas estava bem fresca nas mentes do povo de Judá quando o livro foi escrito. Portanto, podemos estabelecer, como tentativa, a data da profecia, como entre 621 e 612 a.C. O profeta, portanto, teria sido contemporâneo de Sofonias, Habacuque e Jeremias.
7.2. O Homem
O escritor é descrito como “Naum, o elcosita”. O nome Naum quer dizer “consolação”, “conforto” ou “alívio”. Apesar de que a mensagem primária de Naum é a iminente destruição de Nínive, uma das conseqüências necessárias da queda do tirano assírio era o alívio da oprimida Judá. Nesse sentido, a mensagem de Naum justifica o nome do profeta. Ele não tinha palavra de julgamento ou condenação contra seu próprio povo, mas apenas de conforto. Ele declara, em nome do Senhor: “eu te afligi, mas não te afligirei mais. Mas agora quebrarei o seu jugo de cima de ti, e romperei os teus laços” (1.12-13).
“Elcosita”, a designação suplementar do profeta, indica que Naum estava intimamente ligado com a localidade conhecida como Elcós. Quatro localizações são sugeridas para esse lugar. Jerônimo dizia que Elcache (Het kesai) era uma pequena aldeia da Galiléia e que lhe fora mostrada por um guia. Outra sugestão é Cafarnaum, na Galiléia, nome esse que é transliteração de duas palavras hebraicas que significam “vila de Naum”. Uma terceira identificação é Alquis, perto de Mossul, na Assíria, que localmente se considera cidade nativa do profeta Naum. Em quarto lugar, Pseudepifânio mantinha que “Elcesei” era uma vila de Judá.
Dessas quatro tradições, a terceira não recua mais que o século XVI de nossa era. No concernente às duas primeiras, não há evidência, dentro do texto, que sugira um ambiente galileu para Naum. Naturalmente, se aceitarmos a tradição que Naum era um deportado na própria Nínive, não se poderia esperar traços de ambiente galileu. Porém, parece que nos tempos neotestamentários, não havia tradição que Naum tivesse vindo da Galiléia (cf. Jo 7.52, que, entretanto, se esquece de Jonas). Tal origem para o profeta pode ser posta em dúvida em outras bases. A quarta sugestão liga Naum a Elcase, “da tribo de Simeão”. Nesse caso, Elcase pode ser localizada perto de Beit-Jibrin, entre Jerusalém e Gaza. Pode ser observado que há evidência que aponta para o fato que Miquéias também veio daquelas circunvizinhanças. Essa região parece ter produzido a piedade juntamente com o gênio.
7.3. Sua mensagem
A nota primária da mensagem de Naum é: “A mim me pertence a vingança; eu retribuirei, diz o Senhor”. “O Senhor é um Deus zeloso e que toma vingança” (1.2). A palavra “zelosa”, neste passo, significa o intenso sentimento de Deus para com Seus inimigos. Naum apreendeu e declarou com apaixonada insistência essa grande verdade que a ira de Deus é provocada pela iniqüidade. Ele tolera os homens por longo tempo, mas Sua ira termina por ser despertada. Então Ele castiga aqueles que o têm provocado. Ele golpeia e leva a completo final. A ira de Deus é terrível e inescapável. Aquele que divide os céus escurecidos pela tempestade com lanças de faíscas e faz rachar as rochas, é um horrível adversário. O débil homem nada significa perante Ele. Os homens podem tomar conselho entre si. Podem dizer: “Somos fortes. Quem nos pode derrubar?” Mas Deus, tratará do caso deles. Não importa quão poderosos sejam, não importa quantos ajudadores possam ter, Deus infligir-lhes-á um golpe mortal. Tem havido outros mais fortes que eles. E foram derrubados. Assim também os inimigos de Deus sempre serão vencidos.
Em adição, Naum destaca dois pecados em particular, para denunciá-los. Primeiramente temos o pecado de violento poder militar. Em resultado desse mal, o sangue se derrama em rios, nações são aniquiladas, instituições são destruídas e a guerra é feita com toda espécie de ferocidade (2.11-13). Quanto àqueles que assim violam as decências da existência humana, é declarado: “Eis que estou contra ti, diz o Senhor dos exércitos”. O outro pecado, que Naum denuncia, é o comércio sem escrúpulos. As nações vizinhas eram corrompidas para que eles pudessem ministrar aos luxos e vícios da cidade conquistadora. Os comerciantes, motivados por ambição pelo ouro, vendiam suas mercadorias numa cidade que desejava coisas finas. Permitia-se que a moralidade e a honestidade perecessem, a fim de que pudessem ser adquiridas as riquezas e desfrutados os prazeres (3.1-4). Contra esse pecado, semelhantemente, é decretado o mesmo julgamento, com sombria simplicidade: “Eis que eu estou contra ti, diz o Senhor dos Exércitos” (3.5).
A seu próprio povo Naum declara que os mensageiros trazendo boas novas já estavam a caminho. Como expressão de gratidão pela destruição do opressor, o povo de Judá deveria observar os períodos religiosos e desincumbir-se escrupulosamente das obrigações de sua fé (1.15).
7.4. Sua significação como profeta
Tal qual Catão, o senador romano, que encerrava cada um de seus discursos no senado com as palavras Carthago delenda est, ou seja, “Cartago precisa ser destruída”, Naum estava obcecado por uma idéia: Nínive delenda est. Seu olhar estava fixado sobre Nínive e seus pecados. Embora sincero, intenso e eficaz, ele não tinha muito a dizer sobre os elementos íntimos da religião autêntica. Ele não exortava por um retorno pessoal e nacional à justiça, mas antes à observância das festividades religiosas, como também Amós fazia (Am 4.4-5). Ele não procurava conquistar seu próprio povo com a ternura de Miquéias (Mq 6.3). Ele não proclamava misericórdia para com todos os homens, nem mesmo para Nínive, com a largueza de visão e a diáfana claridade do livro de Jonas.
Não obstante, por mais limitada que tenha sido a mensagem de Naum, sua posição entre os profetas é garantida. A data em que a sua profecia foi composta pode talvez explicar sua aparente falta de preocupação pelos pecados de seu próprio povo, bem como suas omissões, não apontando suas obrigações morais e espirituais, e sua aparente falta de caridade para com a própria Nínive. Se é que a sua profecia foi composta pouco antes de 612 a.C. (a queda de Nínive), então não foi escrita muito tempo depois da reforma de Josias (621 a.C.). É verdade que Jeremias percebeu que essa reforma não era suficiente; mas Naum pode ter sentido que a nação seguia agora pelo caminho certo. A desilusão provocada pela morte precoce de Josias, em 609 a.C., ainda não havia tido lugar, e o alívio sentido devido à iminente destruição de Nínive era tão intenso que fazia Naum esquecer-se de todas as demais considerações.
A profecia de Naum tem sido apropriadamente chamada de “o clamor de uma consciência ultrajada”. É uma apaixonada assertiva que a justiça prevalecerá em sua inflexível retribuição. Essa verdade é por ele declarada com insistência. Ele proclama sua necessidade moral. Ele contempla sua realização com lucidez sem paralelo. Ele prevê seu cumprimento completo. No grande corpo de verdade, ensinado pelos doze profetas, essa verdade é particularmente propriedade de Naum e, se sua profecia é a profecia de uma idéia, pelo menos ele apresenta essa idéia com grande poder e completa eficácia.
7.5. Contribuições singulares
7.5.1. Caráter retribuidor de Deus (1.2,6)
De modo semelhante a Miquéias, Naum principia enfatizando a grande ira do
Senhor contra o pecado e sua vinda para trazer julgamento aos perversos. Aqui, entretanto, sua ira dirige-se mais aos inimigos de Israel do que aos israelitas. Naum descreve o Senhor como um Deus zeloso e vingativo, que virá com ira abrasadora contra seus inimigos. Esse caráter zeloso de Deus foi apresentado em Êxodo 20.5, e mais tarde com mais pormenores em Deuteronômio 32.21 e ss. Muitos textos descrevem o Senhor como “tardio em se irar”, mas grande em poder e ira contra aqueles que rejeitam sua graça (Êx 22.24; 32.12; Nm 14.18; Js 7.1; Ed 9.15; Jó 20.23). No Novo Testamento, os oito “ais” sobre os líderes hipócritas do tempo de Jesus apresentam a mesma ira ardente para com os que rejeitam deliberadamente a Lei e a graça de Deus (Mt 23). Essa ira chega ao auge na grandiosa e terrível descrição da vinda do Senhor em Apocalipse: 14.10,19 e 19.15 para julgar seus inimigos enquanto livra o seu povo.
7.5.2. Livro de julgamento não-aliviado
Nenhum outro livro da Bíblia é tão enfático na mensagem de julgamento e mi¬sericórdia não aproveitada. Suas únicas “boas novas” são a profecia sobre a destruição de Nínive (1.15). Foi tão grande a preocupação do profeta com os pecados e o julgamento daquela cidade, que os pecados de Israel ou Judá não foram nem mesmo aludidos. O Senhor dedicou um livro inteiro para descrever vivamente sua grande ira contra um povo que vivia na violência, pilhagem e derramamento de sangue, e que deixou de permanecer em sua misericórdia dispensada através de Jonas, profeta de Deus.
7.5.3. Nínive, a grande cidade-rainha destruída.
Não há dúvida de que é este o livro que Jonas gostaria de ter escrito (Jn 4.2), ao não compreender que o Senhor tinha antes uma colheita a fazer naquela cidade. Sua curta profecia da destruição de Nínive está aqui amplificada, sem a data de execução, “quarenta dias”. Embora o arrependimento dos ninivitas tenha adiado o seu julgamento, a retomada da antiga perversidade e violência apenas intensificou o peso do seu castigo, sobretudo diante do desrespeito à sua misericórdia. A antiga cidade de Nínive era um símbolo clássico do mundo quanto ao seu poder, violência e rebeldia contra Deus desde o tempo de Ninrode (Gn 10.9-11). Mas quando Deus ordenou sua destruição, ela foi aniquilada tão completamente que a antiga rainha das cidades ficou esquecida durante muitos séculos, coberta com areia, transformada em um deserto.
7.5.4. Admoestação internacional de Naum a todas as nações
A notável lição de Naum para as nações é que a “lei da selva” não é a Lei de Deus. Embora o pecado e a violência possam ficar sem punição por algum tempo dentro da longanimidade divina, todavia não serão esquecidos. Neste caso não está apenas em jogo o “tempo” de Deus, mas também a justificação do seu caráter (Êx 34.6-7; Nm 14.18). Apesar de ele ser “tardio em irar-se” e estar sempre interessado em mostrar-se misericordioso, não é absolutamente imune à ira quando sua lei é impugnada e sua graça desprezada. O Deus vingador descrito por Naum é um dos quadros mais aterradores da Bíblia. Enquanto o Livro de Jonas apresenta a misericórdia do Senhor estendida aos gentios desconhecedores da lei mosaica, Naum retrata a ira e o julgamento divino das nações, conheçam ou não a lei de Moisés.
7.5.5. Cristologia em Naum (1.15)
Mesmo sem referências especificas ao Messias no Livro de Naum, a proclamação das “boas novas” em 1.15 tem uma referência indireta a Cristo e seu evangelho. É uma referência a Isaías 52.7, mais tarde aplicada por Paulo em Romanos 10.15 quanto ao aspecto libertador do evangelho. É um lembrete de que o primeiro objetivo de Naum foi consolar Israel a respeito da ameaça nacional por parte do cruel e perverso inimigo do Oriente. Além disso, as boas novas do evangelho são que Cristo não somente traz o livramento dos inimigos, mas também os benefícios reais, da salvação (Lc 1.71). O Deus prefigurado por Naum não é diferente do Cristo do Novo Testamento.

O LIVRO DE HABACUQUE
Esboço do Livro
Introdução (1.1)
I. As Perguntas de Habacuque (1.2—2.20)
A. Primeira Pergunta: Como Deus Pode Permitir Que a Ímpia Judá Fique sem Castigo? (1.2-4)
B. Resposta: Deus Usará a Babilônia para Castigar Judá (1.5-11)
C. Segunda Pergunta: Como Deus Pode Usar uma Nação Mais Ímpia Que Judá Como Instrumento de Juízo? (1.12—2.1)
D. Resposta: Deus Também Julgará Babilônia (2.2-20)
1. Introdução à Resposta (2.2,3)
2. Pecados de Babilônia (2.4,5)
3. Série de Cinco “Ais” contra Babilônia (2.6-19)
4. O Senhor de Toda a Terra (2.20)
II. O Cântico de Habacuque (3.1-19)
A. A Oração de Habacuque, Pedindo Misericórdia (3.1,2)
B. O Poder do Senhor (3.3-7)
C. Os Atos Salvíficos do Senhor (3.8-15)
D. A Fé Inabalável de Habacuque (3.16-19)
8.1. Autor
Nada sabemos a respeito de Habacuque fora das informações prestadas neste livro, mas mesmo aqui ele não nos fornece sua genealogia nem nos diz quando profetizou. O próprio nome é aparentado de um vocábulo assírio, que significa uma planta ou vegetal. Na Septuaginta, seu nome aparece como Ambakoum. Jerônimo a derivou de uma raiz hebraica que significa “segurar”, e disse que: “ele é chamado ‘Abraço’ ou por causa de seu amor ao Senhor, ou porque lutava contra Deus”. Lutero, e muitos comentadores modernos, têm favorecido a mesma derivação. Certamente não é derivação inapropriada, pois neste pequeno livro vemos um homem, em ânsia mortal, em luta com o grande problema da teodicéia -a justiça divina -em um mundo desordenado. Encontramos a mesma espécie de conflito no mais volumoso livro de Jó.
Habacuque foi o primeiro profeta a impugnar não a Israel, porém a Deus. O livro contém um solilóquio entre ele mesmo e o Todo-Poderoso. O que o deixava perplexo era a aparente discrepância entre a revelação e a experiência. Ele procurava explicação para isso. Nenhuma resposta direta é dada à sua interrogação, mas é-lhe assegurado que a fé paciente terminará saindo vencedora (2.4). Ele expressa sua fé mui vividamente, em 3.17-19, onde o sentimento encontra um eco mais recente, no hino de William Cowper: “Deus é Seu próprio intérprete, e Ele deixará claro”.
Por causa do arranjo musical do capítulo 3, alguns têm pensado que Habacuque foi levita. É possível que ele tenha sido membro de um grupo profissional de profetas, associados ao templo (1Cr 25.1). Ele é o único dos profetas canônicos que a si mesmo chama de “profeta” (1.1), e julga-se que isso indica posição profissional.
Habacuque aparece na história apócrifa de Bel e o Dragão, como aquele que livrou Daniel da cova dos leões pela segunda vez; porém, tudo isso não passa da lenda.
8.2. Data e ocasião
Em 1.6 somos informados que Deus estava levantando os caldeus (isto é, os babilônios) como um instrumento de castigo. Sem dúvida isso se refere ao império babilônico revivificado, que derrubou o enfraquecido império assírio no fim do quinto século a.C. Nínive foi destruída em 612 a.C. e Nabucodonosor, rei da Babilônia, derrotou Faraó Neco, do Egito, em Carquemis, em 605 a.C.
Três anos antes dessa batalha, Faraó Neco matou Josias, rei de Judá, em Megido (2Rs 23.29-30; 2Cr 35.20 e segs.), e estabeleceu reis títeres sobre o trono de Judá, porém, nem Faraó Neco nem eles eram adversários para o crescente poder da Babilônia, e assim, durante os vinte anos seguintes, Judá ficou à mercê dos caldeus e foi finalmente levado em cativeiro, em 586 a.C.
As profecias de Habacuque se referem claramente a esse período e podem ter sido entregues a público, ou antes, ou depois da batalha de Carquemis. Em ambos os casos, Habacuque teria sido contemporâneo de Jeremias (627¬586 a.C.).
Em favor da data mais antiga temos a sugestão, em 1.5, que o levantamento dos caldeus ainda era acontecimento futuro e, no tempo em que o profeta falou, era ainda algo que fazia as pessoas se admirarem (E. B. Pusey, por exemplo, data a profecia tão cedo como o fim do reinado de Manassés, isto é, tão recuada como a frase em vossos dias, em 1.5, permite); em favor de uma data depois de 605 a.C. temos a descrição detalhada dos métodos de guerra dos caldeus, como algo já bem conhecido (1.7-11).
O reinado do mau rei, Manassés fora “uma época que provou a fé das almas piedosas” (Kirkpatrick). A reforma sob o rei Josias (637-608 a.C.) se tinha mostrado ineficaz, pelo que a iniqüidade e a perversidade (1.3) da desviada Judá deveriam ser castigadas. Por esse motivo Deus estava levantando os caldeus.
Esse o ponto de vista geral dos eruditos. Alguns, entretanto, referem 1.2-4 não à desviada Judá, mas a algum opressor pagão. Esse opressor poderia ser a própria Caldéia; nesse caso, o texto teria de ser rearranjado para que os versículos 5-11 precedessem os versículos 2-4 (Giesebrecht) ou deveriam ser eliminados (Wellhausen). Ou o opressor poderia ter sido a Assíria: assim pensa Budde, que coloca os versículos 6-11 após 2.2-4, e data a profecia logo depois de 625 a.C., quando Nabopolassar, o caldeu, se tornou independente da Assíria. Mas, nesse caso, por que a Assíria não é mencionada? Em terceiro lugar, há a possibilidade de referir-se ao Egito: assim pensa G. Adam Smith, que compara 1.2-4 com 2Rs 23.33-35.
Porém, a queixa de Habacuque, em 1.12-2.1 não é que Deus estava usando uma nação pagã para castigar outra, mas antes, que o Senhor estava usando uma nação pagã para punir Judá. A despeito de a lei haver sido redescoberta no templo, em 621 a.C. (2Rs 22.8; cf. Hc 1.4), o povo de Judá se inclinava para a violência e para a injustiça. O rearranjo do texto, para adaptar-se a uma teoria particular, é sempre um expediente duvidoso. Parece mais seguro aceitar o texto tal qual está e atribuir 1.2-4 ao povo de Judá.
Um crítico conservador, W. A. Wordsworth, situa a entrega da profecia um século antes, fazendo Habacuque ser contemporâneo de Isaías, com cujas profecias encontra ele muitas afinidades em Habacuque. A data fixadora é, então, a captura de Babilônia pelo caldeu Merodaque-Baladã, em 721 a.C. Outros, com certa base de apoio à sua posição da parte das versões gregas, omitem inteiramente a palavra “caldeus”, em 1.6, ou então, juntamente com Duhm, substituem-na pela palavra “Quitim”, isto é, gregos cipriotas, assim colocando o livro nos dias de Alexandre, o Grande, cerca de 330 a.C. Tais
pontos de vista exigem considerável manuseio no texto e não são muito plausíveis. Mas é interessante notar que os Papiros do Mar Morto, recentemente descobertos, que contêm o comentário de Habacuque embora lhe falte a primeira metade de 1.6 traz a seguinte nota a respeito: “interprete¬se (isso) como os Quitim, cujo temor está sobre todas as nações”. Isso, entretanto, pode ter sido apenas uma “aplicação moderna” de uma situação mais antiga.
Parece melhor, por conseguinte, situar a data do livro de Habacuque cerca de 600 a.C., ou um pouco antes.
8.3. Texto e Composição
O significado do texto hebraico nem sempre é claro e a Septuaginta apresenta algumas poucas, mas interessantes variações, como, por exemplo, a grande afirmativa em 2.4, que, em um texto da Septuaginta é “totalmente messiânica” (T. W. Manson). A incerteza quanto a quem se referem várias passagens tem levado muitos críticos a rearranjar o texto e, em alguns casos, até a dividir a autoria do livro. Para alguns, Habacuque seria o autor dos capítulos 1 e 2; para outros, seria ele o autor do capítulo 1 e da maior parte do capítulo 2, enquanto que o capítulo 3 seria um poema posterior, do período persa ou dos macabeus. Mas muitos, à semelhança de Kirkpatrick, de J. Peterson, e de outros, preferem considerar o livro como um todo artístico e relacionado.
Parece que a intenção da profecia era de ser lida e não de ser ouvida (ver 2.2). Tem mais a natureza de um poema especulatório e meditativo do que um sermão ou discurso público. O salmo, no capítulo 3, evidentemente tinha o propósito de encorajar o povo de Deus em período de adversidade.
8.4. Contribuições singulares
8.4.1. Julgamento Divino da Babilônia (3.12)
O Livro de Habacuque segue logicamente o de Naum no julgamento divino do segundo maior inimigo de Israel, o destruidor vindo do Oriente. Embora tanto Nínive quanto Babilônia tenham sido usadas pelo Senhor para destruir Israel no norte e Judá no sul (Is 7.18-20; Jr 27.6), ambas foram também julgadas pela violência. Esses dois livros registram o castigo dessas duas nações por sua conduta sanguinária e perversa, não tolerada nem aprovada por Deus. Ambos os livros revelam a grande ansiedade inspirada pelo Senhor e sua grande ira ao vir em julgamento para realizar pessoalmente a destruição.
8.4.2. Santidade de deus (1.12; 2.20; 3.3).
O maior interesse de Habacuque é pela santidade divina com respeito tanto à perversidade de Israel, quanto à soberba da Babilônia. Ele se afligiu por Deus permitir que o pecado continuasse em Judá sem punição, e depois preocupou-se por Deus usar a Babilônia como instrumento punitivo, nação ainda mais perversa. Esse problema e a respectiva resposta estão imortalizados em dois clássicos versículos: “Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal” (1.13). “Mas o Senhor está no seu santo templo: cale-se diante dele toda a terra” (2.20). Se o Senhor é longânimo com os pecadores e até escolhe “vasos de ira” (Rm 9.22) para executar os seus objetivos, não faz, todavia, concessões em assuntos onde está em jogo sua santidade. Permite, com freqüência, que o pecado siga o seu curso normal e se destrua a si próprio dentro do seu plano, demonstrando assim a soberania e a grandeza da sua santidade e justiça.
8.4.3. “O justo viverá pela sua fé” (2.4)
Habacuque tem sido denominado de “o livro que começou a Reforma”. Paulo citou Habacuque 2.4 ao desenvolver a doutrina da justificação pela fé em Romanos 1.17 e Gálatas 3.11, e esse foi o lema de Lutero e dos Reformadores. Essa frase é também citada em Hebreus 10.38, e as três citações do Novo Testamento têm uma progressão interessante, quanto à ênfase: Em Romanos 1.17, a ênfase está em “O justo”; em Gálatas 3.11, em “viverá”; e em Hebreus 10.38, em “pela fé”. Todos os três pontos estão enfatizados em Habacuque. Poucos versículos da Bíblia têm participado com tão profundo efeito no desenvolvimento da teologia e da proclamação da fé.
8.4.4. Frases citadas com freqüência
O pequeno livro de Habacuque é notável pelos seus muitos textos citados:
(a) “Vós não crereis, quando vos for contada” (1.5).
(b) “Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal” (1.13).
(c) “Mas o justo viverá pela sua fé” (2.4).
(d) “Porque a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar” (2.14).
(e) “Ai daquele que dá de beber ao seu companheiro” (2.15).
(f) “Mas o Senhor está no seu santo templo: cale-se diante dele toda a terra” (2.20).
(g) “Aviva, ó Senhor, a tua obra no meio dos anos” (3.2).
(h) “Exultarei no Deus da minha salvação” (3.18).
8.4.5. Ousado diálogo de Habacuque com Deus
Ao contrário de outros livros proféticos, Habacuque é mais uma oração do que uma profecia. O preocupado profeta ousa dialogar com Deus, enfrentando-o com perguntas que parecem desafiar tanto a santidade quanto o amor do Senhor. Essa oração continua em todo o livro, enquanto o profeta faz a pergunta e espera a resposta de Deus. Constitui também um sistema de ensino muito eficiente, propondo perguntas difíceis e elaborando respostas com autoridade divina. Isso foi denominado posteriormente de método “ra¬bínico” ou “socrático”, e também usado por Jesus com muita eficiência (Mt
24.42 e ss.). A fé divina de Habacuque é tão vigorosa e profunda, que ele pode expressar honestamente suas dúvidas e ficar satisfeito quando o Senhor responde com novos apelos à fé.
8.4.6. Cristologia em Habacuque (2.14,20)
Esse livro também não apresenta referências específicas ao Messias, apenas diversas inferências da era messiânica. Em 2.14, o profeta declara que o conhecimento da glória do Senhor será universal. É uma inegável citação e acréscimo de Isaías 11.9, onde o antigo profeta descreve certos aspectos dos tempos messiânicos. Habacuque especifica que o conhecimento universal será referente à glória do Senhor. O contraste é com os que labutam inutilmente, até ao derramamento de sangue, pela breve e passageira glória de reinados temporais. O conhecimento da glória do Senhor, a qual está atualmente quase escondida, cobrirá e encherá então a terra.
Uma segunda inferência messiânica é a exortação “Cale-se diante dele toda a terra”, bem como “O Senhor (…) está no seu santo templo” (2.20). Existem afirmações semelhantes em Sofonias 1.7 e Zacarias 2.13, quando anunciada a vinda do Senhor no Dia do Senhor. Do mesmo modo, Apocalipse 8.1 fala de um período de silêncio no céu antes do desencadeamento da ira de Deus na última metade do período de tribulação. Aqueles julgamentos do Apo¬calipse são vistos continuamente como procedentes do Senhor no seu santo templo, enfatizando a santidade de Deus e o despejar de sua justiça e ira (Apocalipse 8.4; 14.15,17; 15.8; 16.1,17). Parece que essa é também a idéia de Habacuque quando ele apresenta o salmo da ira de Deus contra as nações, em sua descrição da teofania militante e majestosa (3.3-16).

O LIVRO DE SOFONIAS
Esboço do Livro
Introdução (1.1)
I. O Julgamento e o Dia do Senhor (1.2—3.8)
A. Julgamento sobre a Terra (1.2,3)
B. Julgamento contra o Povo de Judá (1.4-18)
1. Descrição dos Pecados de Judá (1.4-9)
2. Advertência a Jerusalém (1.10-13)
3. O Grande Dia do Senhor (1.14-18)
C. Chamada ao Arrependimento (2.1-3)
D. Julgamento das Nações (2.4-15)
1. Os Filisteus (2.4-7)
2. Os Amonitas e Moabitas (2.8-11)
3. Os Etíopes (2.12)
4. Os Assírios (2.13-15)
E. Julgamento de Jerusalém (3.1-7)
1. Pecados de Jerusalém (3.1-4)
2. A Justiça Divina contra Jerusalém (3.5-7)
3. Julgamento de Toda a Terra (3.8)
II. A Salvação e o Dia do Senhor (3.9-20)
A. O Remanescente Restaurado e Jerusalém Purificada (3.9-13)
B. O Povo Jubiloso com Deus no Seu Meio (3.14-17)
C. Promessas Finais a Respeito da Restauração (3.18-20)
9.1. Autor e data
O livro de Sofonias é o nono na coleção da literatura profética dos hebreus. Em muitos particulares é um dos típicos “profetas menores”, mas assinala “a primeira coloração de profecia com apocalipse”. Sofonias era homem realista, sóbrio e controlado, ainda que não lhe faltassem poderes impressionantes de imaginação e poderosas e realísticas figuras de linguagem. É certo que ele era jovem quando escreveu sua profecia, mui provavelmente com não mais de vinte e nove anos de idade, quando começou a profetizar. Foi contemporâneo de Jeremias entre os profetas, e do bom rei Josias, de Judá. Alguns eruditos (KIRKPATRICK, Doctrine of the Prophets, p. 237) comprazem-se em dizer que Naum também foi contemporâneo de Sofonias e que Sofonias surgiu perto do fim do ministério daquele, o qual, naturalmente, dizia respeito exclusivamente à cidade de Nínive. Mas, não podemos concordar com tido isso, pois, argumenta-se, a destruição de Nínive não teve lugar senão em 612 a.C. e Naum deve ser considerado como profeta mais próximo desse acontecimento do que do período coberto por 640-621 a.C. que foi a época em que Sofonias deve ter aparecido.
O aparecimento de Jeremias parece ter sido imediatamente depois das primeiras profecias de Sofonias. Há aqueles que asseveram que eram os dois profetas praticamente da mesma idade, porém, não existe prova sobre qualquer combinação íntima entre os dois. Efetivamente, em certos pontos, Jeremias percebeu a fraqueza e o perigo do reavivamento generalizado e súbito de Sofonias. Indubitavelmente Jeremias se regozijou com as reformas provocadas pela pregação de Sofonias, realizada por Josias; mas parece que Jeremias podia ver além -talvez por já ter vivido mais que o outro profeta -e que considera uma parte da reforma como mera formalidade externa, um gesto próprio de um movimento popular, e não uma purificação sincera e espiritual, dotada de qualidade de permanência.
Sofonias foi o primeiro profeta no período de duas gerações. Provavelmente já se tinham passado setenta anos desde que tinham sido ouvidas as vozes dos profetas do período da ascendência dos assírios -Isaías e Miquéias. A sorte que coube a Samaria, em 712 a.C. servia de solene memória sobre o poder, a majestade e a retidão de Deus. É possível que os cinqüenta anos anteriores ao reinado de Josias se tenham caracterizado por uma nova queda na degeneração e na esterilidade, na história de Judá. Seja como for, o vigor e o zelo da juventude de Sofonias eram qualidades necessárias em vista da situação que prevalecia, e são qualidades facilmente discerníveis em seu livro. A franqueza e o tom imperdoável dos pronunciamentos de julgamento são qualidades típicas de um homem jovem que possui fortes convicções e manifesta um grau incomum de sensibilidade moral e dedicação. O zelo reformador do jovem rei Josias (639-609 a.C.) tinha paralelo apropriado na fervorosa pregação do novo jovem profeta. Ambos “vieram ao reino para um tempo tal como aquele” e a juventude de ambos e os anos difíceis que os moldaram prepararam-nos bem para desempenhar um digno papel naquela nova era. O Dr. George Adam Smith sugere que o nome de Sofonias, que significa “Jeová tem guardado (ou ocultado)”, pode indicar que seu nascimento teve lugar durante o tempo da matança efetuada por Manassés.
(The Book of the Twelve Prophets, Vol. 2, p. 47). De qualquer modo, o que é certo é que quando, na providência de Deus, Sofonias se apresentou no palco dos acontecimentos de Judá, ele marcou o início de uma nova linha de profetas que deveria incluir Jeremias, Habacuque, Obadias e Ezequiel (além de Naum, se for aceita a data posterior para sua profecia), todos os quais procuraram salvar Judá da sorte que já tinha envolvido o reino do norte. Por conseguinte, é possível dizer com certeza que o corpo principal do livro deve ser associado com a reforma ligada com Josias, que teve lugar em 621 a.C. e é razoável supor que a pregação de Sofonias foi uma das causas contribuintes dessa reforma. Portanto, podemos concluir que a data provável foi cerca de 630 a.C.
9.2. Circunstâncias de sua elocução
Conforme já foi indicado, as circunstâncias dentro das quais Sofonias foi chamado a profetizar eram, a um e ao mesmo tempo, perigosas e promissoras. Durante o longo reinado de Manassés (696-642 a.C.), o perverso filho do bom rei Ezequias, o estado moral e religioso de Judá se tinha tristemente deteriorado (2Cr 33.1-11). Durante todo o seu reinado ele se tinha oposto ao reavivamento religioso que havia caracterizado o reinado de seu pai. Manassés edificou novamente os altares que seu pai havia derrubado e restaurou a aviltante adoração da natureza associada à adoração de Baal. Superstição, adoração das estrelas e até mesmo sacrifícios humanos, se tornaram parte de uma religião de formalidades e cerimônias externas privada de realidade interna e sem convicções espirituais ou éticas. É possível fotografar tudo isso como “o sinal de uma alma desesperadamente ansiosa a procurar, cegamente, como propiciar os misteriosos poderes divinos -a volta fanática à religião de seu avô”, mas, quando muito não passava de um externalismo e de um sincretismo religioso que pagava muita deferência aos senhores assírios e, para os profetas, não passava de uma clara e precipitada iniqüidade. Aqueles que haviam tentado preservar a pureza da adoração a Jeová tinham sido recompensados por seus esforços, com a perseguição e até mesmo com a morte. “Manassés derramou muitíssimo sangue inocente, até que encheu a Jerusalém de um ao outro extremo” (2Rs 21.16).
É verdade, naturalmente, que Manassés se arrependeu dessa atitude antes de sua morte e que “humilhou-se muito perante o Deus de seus pais” (2Cr 33.12). Também é evidente que as más tendências de seu reinado não haviam conquistado inteiramente o apoio do povo. Uma vez mais, havia um remanescente que não havia dobrado os joelhos; havia aqueles que desejavam e trabalhavam para a vinda de tempos melhores. Era esse fator que tornava aquele período ao mesmo tempo promissor e perigoso. Josias tornou-se rei de uma nação, dentre a qual muitos ansiavam por uma religião mais pura e estavam prontos tanto para ouvir Sofonias como para seguir o rei em seu zelo reformador.
Também se deve fazer menção da invasão da Média e da Assíria pelos citas, em 632 a.C. que transformou seus campos frutíferos em um deserto, como se uma nuvem de gafanhotos tivesse passado por eles. “A guerra era sua principal atividade, e serviram de terrível flagelo para as nações da Ásia Ocidental. Romperam a barreira do Cáucaso em 632 a.C. e, avançando através da Mesopotâmia, pilharam a Síria e estavam prestes a invadir o Egito quando Psamatique I os comprou com ricos presentes” (PORTER, I.S.B.E., p. 2.706). O relato dessa invasão, que é dado por Heródoto, no Livro IV de sua História, tem recebido alguma confirmação mediante pesquisas recentes sobre a questão e serve para explicar o decadente poder da Assíria, o que permitiu Josias levar a efeito suas reformas e deu à Babilônia a oportunidade de assumir a ascendência. Alguns eruditos, por outro lado, duvidam da exatidão do relato de Heródoto, em vista dos erros demonstráveis ali contidos e porque ele é nossa única fonte de autoridade para a história de que os citas chegaram tão ao sul e ao oeste a ponto de chegarem a fronteira egípcia. Além disso, é argumentado que, visto que estamos a tratar de uma “linguagem escatológica tipicamente vaga, em que tudo é visto através de uma nuvem de poeira”, os julgamentos aqui anunciados não podem referir-se àquela invasão. (ELLISON, Men Spake from God, p. 81). Não é essencial, entretanto, supor que a invasão cita é aqui retratada, mas é razoável sustentar que, sabendo a respeito como com certeza sabia, Sofonias teria visto nela um quadro do que aconteceria se Judá persistisse em seu presente curso de rebelião contra o Senhor. Em realidade, a invasão cita parece não ter atingido Judá de forma alguma; seu opressor, afinal de contas, e o instrumento do julgamento de Deus, foi a Babilônia.
9.3. A mensagem de Sofonias
Sofonias era habitante de Jerusalém. Isso é óbvio em vista de certas referências a locais específicos da cidade, que só poderiam ter sido feitas por alguém que estivesse bem familiarizado com eles (cf. 1.4, “deste lugar”; 1.10,11,12). Na cidade, o profeta observava a populaça, que se inclinava a viver mediante a força e a fraude entre si mesmos, mostrando-se idólatra e cética para com Deus. Suas primeiras profecias, por esse motivo, estão envolvidas numa melancolia sem alívio; o traço negro na face de Deus é mui claramente perceptível no quadro que temos em 1.1-3.8. Desse ponto em diante, todavia, soa uma nova nota -a esperança de salvação universal e a restauração final para Judá. A seção de 3.9-20 é tão diferente da que a antecede que alguns eruditos a separam do resto do livro; porém, não há razão pela qual isso deva ser feito. É verdade que o grande peso da pregação profética de Sofonias dizia respeito ao julgamento, súbito, iminente e desastroso, contra Judá e as nações circunvizinhas. Contudo, freqüentemente descobrimos que aqueles que mais claramente discernem os julgamentos de Deus contra o mundo em geral, são aqueles que também vêem o arco-íris de Seu amor e misericórdia arqueados no horizonte do futuro. Sofonias, pois, apesar de ter predito os julgamentos que sobreviriam a Judá, viu-os como um expurgo necessário e essencial para que Judá se tornasse a nação bendita do Senhor e Sua criada perante o mundo inteiro.
9.4. Objetivo do livro de Sofonias
O objetivo dessa profecia era divulgar um chamado de undécima hora à nação, condenando sua idolatria e advertindo o povo sobre o grande dia da ira divina que estava para vir. Além desse aviso, Sofonias enfatizou novamente os resultados finais do julgamento de Israel, que seria um povo purificado e humilde, restaurado pelo Senhor, e este passaria a habitar no meio deles.
9.5. Contribuições singulares
9.5.1. “O Grande Dia do Senhor” (1.14)
A grande ênfase de Sofonias é o Dia do Senhor, e o realce de sua fúria. Três profetas falaram do “grande” dia do Senhor: Joel 2.31 (835 a.C.), Sofonias 1.14 (630) e Malaquias 4.5 (430) (datas aproximadas), havendo entre essas profecias um período aproximado de duzentos anos. Cada um desses profetas falou a Judá em época de apostasia, admoestando a nação sobre o terrível julgamento do Senhor, e também indicando o Deus de Israel como o lugar de refúgio para o arrependido.
9.5.2. Sofonias e a sua terrível descrição de Deus (1.18)
Embora Miquéias, Naum e Habacuque também apresentassem o Senhor como um Deus de severo julgamento, a descrição da ira divina dada por Sofonias é provavelmente a mais terrível da Bíblia. O quadro de 1.18 e 3.8 é como o “colapso final do universo”. O Todo-poderoso consome toda a terra com o fogo da sua indignação em virtude do pecado e da intransigência dos homens. Jamais veio de um profeta mensagem mais severa e sombria. O Rabino Lehrman diz: “A diferença entre Sofonias e os outros profetas é que ele faz da denúncia e ameaça, e não do ensinamento moral positivo, o principal tema da sua pregação” (COHEN, The Twelve Prophets (Soncino), p. 233). Ele confronta solenemente os homens com a sombria realidade do seu iminente encontro com um Deus ultrajado que está prestes a liquidar homens idólatras e rebeldes. Não é uma apresentação muito popular do cenário da atuação divina, cenário esse muitas vezes traçado com as tremendas cores de um imaginário “Inferno de Dante”. Mas esses últimos profetas descrevem o dia da ira de Deus em termos altamente específicos. Sofonias também realçou a disponibilidade da misericórdia divina para os que o procuram, mas não admite a diminuição da sua ira, que dará um terrível fim à terra pela sua rejeição obstinada ao Senhor.
9.5.3. O resumo mais arrebatador das profecias do Antigo Testamento
Já se observou que “se alguém quiser ver todos os oráculos secretos do Antigo Testamento reduzidos a um pequeno resumo, basta apenas o Livro de Sofonias”. Seu tema central refere-se ao Dia do Senhor, mostrando sua relação para com Israel e as nações. Descreve os julgamentos partindo da natureza divina e da rebelião e corrupção dos homens. Como a maioria dos outros profetas, Sofonias conclui com uma profecia da restauração de Israel após seu arrependimento. O Senhor vem a ele como um Guerreiro vitorioso, a fim de levar seu povo para a renovação e o triunfo. Embora Sofonias não apresente muito conteúdo original, resume as principais características da profecia ao desferir as declarações de caráter decisivo. Foi, mais do que os outros, o profeta da ênfase e conclusão.
9.5.4. Catálogo dos pecados religiosos (1.4-6; 3.1-5)
O julgamento do Senhor põe em grande destaque todos os tipos de idolatria e experiências religiosas superficiais. A lista do profeta inclui:
(a) Adoradores de Baal e de outras divindades cananéias.
(b) Adoradores da natureza, do sol, da lua e das estrelas.
(c) Religiões sincréticas que pressupõem adorar o Senhor, mas também adoram outros deuses.
(d) Os que abandonam deliberadamente a adoração divina.
(e) Os indiferentes que não se interessam em obedecer às exigências divinas (1.4-6). Ainda há os que têm idéias deistas, supondo que o Senhor vive muito ocupado e indiferente às situações angustiosas dos homens (1.12). Sofonias reservou também uma invectiva contra os corruptos lideres de Jerusalém, tanto religiosos quanto civis, que se tinham tornado impermeáveis às instruções divinas (3.1-5). Com rematado desdém pelos orgulhosos, o profeta apenas viu esperança para os humildes que, embora coxos e proscritos, confiavam no nome do Senhor (2.3; 3.12).
9.5.5. Cristologia em Sofonias (3.15,17)
Ao descrever o desenrolar do dia do Senhor, Sofonias declara que o “Rei de Israel”, que estará no meio do povo, não será nada menos que o próprio Senhor (YHWH) (3.15). Ele virá como guerreiro vitorioso para livrá-los de
todos os seus últimos inimigos. Sua vinda será alvo de grande alegria e exultação. Ele restaurará a precária situação dos judeus, tirando-os do opróbrio para fazer deles “um louvor e um nome em toda a terra” (3.19). Será para todos um lugar de refúgio (2.3).

O LIVRO DE AGEU
Esboço do Livro
I. A Primeira Mensagem: Concluir a Construção do Templo (1.1-15)
A. Data: 1º de Elul (29 de agosto) de 520 a.C. (1.1)
B. O Profeta Repreende o Povo por Não Ter Concluído a Construção do Templo (1.2-11)
C. A Reação do Povo (1.12-15)
II. A Segunda Mensagem: A Promessa de Maior Glória (2.1-9)
A. Data: 21 de Tisri (17 de outubro) de 520 a.C. (2.1)
B. O Último Templo Comparado ao Anterior (2.2-4)
C. A Glória do Último Templo Será Maior (2.5-9)
III. A Terceira Mensagem: A Chamada à Santidade com Bênçãos (2.10-19)
A. Data: 24 de Quisleu (18 de dezembro) de 520 a.C. (2.10)
B. O Efeito Corruptor do Pecado (2.11-14)
C. A Bênção da Obediência (2.15-19)
IV. A Quarta Mensagem: Uma Promessa Profética (2.20-23)
A. Data: 24 de Quisleu (18 de dezembro) de 520 a.C. (2.20)
B. A Ruína Futura das Nações (2.21,22)
C. O Significado Profético de Zorobabel (2.23)
Ageu, o primeiro dos profetas da restauração, não tem história registrada sobre sua pessoa. Ele era “o embaixador do Senhor” (1.13) e seus testemunhos estão seguramente entesourados com seu divino Empregador. A mensagem, e não o mensageiro, era de importância primária. Deus, e não o seu profeta, domina a cena.
10.1. Data
É impossível fixar com exatidão o período coberto pela vida de Ageu. Tem-se conjecturado que ele vira o templo de Salomão. Essa conjectura se baseia em 2.3 -“Quem há entre vós que, tendo ficado, viu esta casa na sua primeira glória?” Isso significaria que o profeta tinha pelo menos oitenta anos de idade quando sua mensagem foi transmitida. Porém, a linguagem do versículo, não apoiada por outras evidências, dificilmente poderá sustentar tal interpretação. É muito mais provável que ele nasceu no tempo e na terra do cativeiro. O período que apresenta maiores probabilidades, por conseguinte, seria a primeira metade do sexto século. Sua mensagem, entretanto, está tão ligada com a história de seu tempo que ela pode ser definidamente fixada como tendo sido proferida em 520 a.C. Sua idade, então, pode ser apenas conjecturada, e só podemos inferir que Deus considerava isso sem importância. As datas, tão proeminentes na profecia, se referem, como as datas sempre se referem, a coisas passadas, porém, por trás delas obtemos um quadro bem focalizado sobre o caráter e os requerimentos independentes do tempo de Deus.
10.2. Autor
Jerônimo explica o nome Ageu, dizendo que significa “festivo” (derivado de haj, o “festivo” ou “exuberante”). Isso a não ser que a suposição de Reinke seja verdadeira, de que ele nasceu em algum dia festivo, sugeriria tanto que seus pais foram guiados divinamente, como que, sob as circunstâncias da época, uma forte fé da parte deles os tenha levado a escolher tal nome para seu filho. Parecem ter percebido que, embora ele semeasse entre lágrimas, haveria de colher com alegria. A profecia envolvida em seu nome, seja como for, foi cumprida, pois Ageu é um dos poucos profetas que teve o indizível prazer de ver amadurecerem os frutos de sua mensagem perante seus próprios olhos.
Ficamos limitados inteiramente aos seus próprios escritos para poder fazer a estimativa do homem. Um par de referências, em Esdras, meramente se referem a ele como “Ageu, o profeta”. Não há vôos poéticos de fantasia neste livro. Seu estilo chega a ser considerado por alguns, como deslustrado e prosaico. Porém, há certa concisão, franqueza e brevidade naquilo que ele tem para dizer. Essa brevidade tem levado alguns a considerarem que talvez tenhamos aqui sua mensagem em forma apenas condensada. Bem pode ser igualmente a verdade que essa característica, juntamente com as outras, nos forneça provas de que o profeta era um mensageiro simples, franco e direto. O homem, entretanto, estava engolfado em sua obra. Ele se mostra, caracteristicamente, profeta de Deus, falando em lugar de Deus e estabelecendo uma espécie de serviço postal entre Deus e Seu povo.
10.3. Os tempos
Ageu tinha uma tarefa claramente definida a realizar. Sua tarefa divergia e, em alguns aspectos, era mais estritamente limitada, da tarefa de qualquer dos profetas anteriores ou de seu contemporâneo, Zacarias. As circunstâncias eram diferentes daquelas dos dias anteriores ao cativeiro. Quando os profetas mais antigos entregavam sua mensagem, a casa do Senhor estava presente com toda a sua glória exterior, uma honrosa herança do passado. As observâncias cerimoniais eram rigidamente cumpridas, tanto quanto diz respeito às formalidades externas. Tão meticulosamente observadas eram elas, efetivamente, que afinal o Todo-poderoso ficou “cansado” daquelas rígidas formalidades mortas. Quando a religião do povo assim se transformava em joio, este olhava com auto-satisfação e com ilusório orgulho para os magnificantes edifícios e diziam: “Templo do Senhor, templo do Senhor, templo do Senhor é este” (Jr 7.4). O apelo dos profetas, por conseguinte, era inspirado pelo Espírito e, algumas vezes, era um grito angustioso para que o povo apreciasse devidamente os valores espirituais e agisse de conformidade com sua religião transmitida por Deus. Pois o povo dava importância primária às coisas materiais e formais em suas vidas.
Agora tais edificações estavam em ruínas, e o pêndulo se tinha inclinado para o outro lado. Nem ao menos havia interesse suficiente nas coisas externas para impelir o povo a reconstruir o templo.
10.4. A Mensagem
A tarefa especializada e dada por Deus a Ageu era a de galvanizar o povo em ação, num novo esforço, nessa direção. Os argumentos derivados do passado ou do futuro, eram empregados por ele e focalizados sobre essa tarefa.
Contemporânea e complementar da obra de Ageu era a tarefa de Zacarias. O próprio zelo e entusiasmo de Ageu, pela reconstrução material da casa de Deus, poderia tender a fazer o povo desviar seus pensamentos do Deus da casa e da glória do Messias vindouro. Certamente havia também espaço para a mensagem de Zacarias. Entretanto, estaríamos sendo muito injustos para com Ageu se considerássemos que as coisas materiais eram as únicas que o preocupavam, como alguns afirmam, de que ele estava interessado apenas em “tijolos e massa”. O cirurgião que se especializa em doenças dos pés não e indiferente para com o fato que o coração e o sistema circulatório são vitais para a saúde do corpo inteiro e essenciais para o sucesso de seus próprios esforços para tratamento de um membro particular. Semelhantemente, Ageu não se esquecia que a religião vital, em sua inteireza, estava por detrás da obra especial do momento; e, nas revelações que lhe foram concedidas por Deus, havia motivos suficientes para justificá-lo, na companhia de todos os seus colegas profetas, a buscar “qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas, indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava”. Ele via o dia de Cristo à distância, e com isso, alegrou-se. Ele via a restauração do templo como um elo na grande cadeia dos acontecimentos orientados por Deus. Ele via em Zorobabel, seu príncipe, uma cadeia viva na corrente humana da semente de Davi, que continuaria sem interrupções até a vinda do Messias (Mt 1.12 e segs.). Ele via a glória de um reino para o qual, um dia, as nações fluiriam, como “as águas cobrem o mar”.
O trabalho para o qual Deus chamou ambos os governantes e o povo de Judá, por meio de Ageu, era o reinício de uma tarefa não terminada (ver Ed 4). Os 50.000 exilados, que tinham aproveitado o decreto de Ciro e haviam retornado da Babilônia para sua pátria de origem, tinham iniciado a reconstrução do templo. Essa obra, entretanto, havia sido interrompida, devido, pelo menos ostensivamente, à feroz oposição e amarga oposição da parte do “povo que habitava a terra”, aqueles colonos que se haviam estabelecido ali durante o período do exílio dos judeus, a fim de preencher os vazios de uma população dizimada. O verdadeiro motivo dessa interrupção, entretanto, foi a letargia do povo de Deus. Por cerca de dezesseis anos a casa do Senhor jazia “desolada”, e a melancolia da cena era intensificada pelos sinais da tentativa de reconstrução que abortara. Subitamente àquele povo letárgico, Ageu aparece, como um mensageiro despachado da sede do comandante supremo e dramaticamente apresentou sua mensagem. Incidentalmente, o registro das providências de Deus para com Seu povo revela para nós a chave para a solução do problema de alimentação no mundo. Condensada nas palavras de Cristo, poderíamos ler: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6.33).
10.5. Contribuições singulares
10.5.1. Profeta da construção do templo
Mais do que qualquer outra pessoa, Ageu foi o responsável por conseguir que a construção recomeçasse e fosse terminada. Ele apareceu em cena após uma grande arrancada e parada brusca na reconstrução do templo. Os líderes estavam assustados e derrotados. Com a seca de 332 a depressão, não era oportuno o reinício das obras. A despeito das opiniões em contrário, Ageu insistiu com os líderes e o povo para atender a essa prioridade, para que Deus pudesse derramar bênçãos sobre todos os empreendimentos do povo. Evidentemente, isso foi realizado antes de surgir qualquer indício de que o novo rei persa, Dario I, reagiria de maneira favorável, conforme ficou demonstrado mais tarde (Ed 5.1; 6.1). O templo que eles reconstruíram resistiu mais tempo do que qualquer outro dos templos de Israel, tornando-se uma verdadeira homenagem a Zorobabel, o governador, e a Ageu, o profeta (Ed 5.1-2).
10.5.2. Ageu relacionado com Sofonias
A profecia de Ageu segue a de Sofonias no cânon como um cumprimento parcial da era pós-exílio. Em Sofonias 3.18, Deus tinha prometido reunir os exilados que se lastimavam pela interrupção das festas, e restaurar suas alegrias e sua vida normal. Para que as festas fossem reiniciadas e as atividades restauradas, era necessário que o templo, habitação do Senhor, fosse reconstruído. Essa era a responsabilidade de Ageu naquele momento. Antes do cumprimento final da profecia de Sofonias, entretanto, o Senhor ainda irá abalar céu e terra e todas as nações (2.6-7,22). Isso levou o profeta a lembrar a todos que a grande prosperidade dos tempos messiânicos ainda estava no futuro, mas que a mão cheia de bênçãos de Deus viria após a obediência do povo. Se Sofonias tinha uma mensagem catastrófica para alertar todas as nações sobre o iminente julgamento do Senhor, Ageu tinha uma mensagem encorajadora da presença imediata do Senhor para abençoar os que construíssem sua casa e observassem a execução de seus preceitos imediatamente (Sf 3.8; Ag 2.4-5).
10.5.3. Ageu promete prosperidade econômica (1.6,10)
Três profetas relacionaram a prosperidade econômica com a obediência espiritual: Joel, Ageu e Malaquias (Jl 2.18 e ss.; Ag 1.6-11; Ml 3.10). Tal fato é verdade como um princípio geral de causa e efeito (Pv 11.24), mas relaciona-se especialmente à aliança mosaica de bênçãos para a obediência (Lv 26. 14-20). Sua aplicação por Ageu demonstra a continuação do relacionamento da aliança entre Israel e o Senhor, mesmo depois do exílio. Porém, observam-se muitas exceções a esse princípio em ambos os testamentos, porquanto Deus usa tanto a adversidade quanto a prosperidade para amadurecer o seu povo.
10.5.4. Laconismo e poder de Ageu
Ageu não somente escreveu um dos livros mais curtos do Antigo Testamento (perdendo apenas para Obadias), como proferiu alguns dos sermões mais curtos (1.13, seis palavras, ou quatro em hebraico). Embora suas mensagens fossem breves, eram penetrantes e poderosas. O poder de suas palavras relacionava-se com a autoridade de quem as proferia, pois Ageu sempre as reforçava com a expressão “assim diz o Senhor” (26 vezes em 38 versículos). Obviamente sua ênfase estava na autoridade divina; não era apenas mera eloqüência ou argumentação. Ageu foi um dos profetas mais bem-sucedidos em termos de resultados imediatos. Ele reconheceu o poder da autoridade do Senhor, mesmo diante de oposição esmagadora.
10.5.5. Cristologia em Ageu (2.7-9)
O livro contém duas referências ao Messias como Sacerdote e Rei. “Encherei de glória esta casa” é afirmado num contexto de reinado messiânico, provavelmente referindo-se à volta da glória na pessoa do Messias, conforme explicação de Ezequiel 43.4-7. Ao restante do povo que tinha visto a antiga glória do templo de Salomão e agora chorava pela insignificância da nova, o Senhor declarou: “A glória desta última casa será maior que a da primeira” (2.9). Sua glória verdadeira não seria a prata e o ouro, mas a presença pessoal do Senhor entre eles. Seria esse o trono do Messias “onde habitarei no meio dos filhos de Israel para sempre” (Ez 43.7). Uma segunda referência messiânica é a escolha de Zorobabel como “um anel de selar”, símbolo da autoridade real do Messias no reino.

O LIVRO DE ZACARIAS
Esboço do Livro
I. Primeira Parte: Palavras Proféticas no Contexto da Reedificação do Templo (520—518 a.C.) (1.1—8.23)
A. Introdução (1.1-6)
B. Série de Oito Visões Noturnas (1.7—6.8)
1. Visão do Cavaleiro entre as Murtas (1.7-17)
2. Visão dos Quatro Chifres e dos Quatro Ferreiros (1.18-21)
3. Visão de um Homem Medindo Jerusalém (2.1-13)
4. Visão da Purificação de Josué, o Sumo Sacerdote (3.1-10)
5. Visão do Castiçal de Ouro e das Duas Oliveirs (4.1-14)
6. Visão do Rolo Voante (5.1-4)
7. Visão da Mulher num Efa (5.5-11)
8. Visão dos Quatro Carros (6.1-8)
C. A Coroação de Josué como Sumo Sacerdote e o Seu Significado Profético (6.9-15)
D. Duas Mensagens (7.1—8.23)
1. O Jejum e a Justiça Social (7.1-14)
2. A Restauração de Sião (8.1-23)
II. Segunda Parte: A Palavra Profética a Respeito de Israel e do Messias (sem data) (9.1—14.21)
A. Primeira Profecia do Senhor (9.1—11.17)
1. A Intervenção Triunfal do Senhor (9.1-10)
2. Anunciada a Salvação Messiânica (9.11—10.12)
3. Rejeição do Messias (11.1-17)
B. Segunda Profecia do Senhor (12.1—14.21)
1. Luto e Conversão de Israel (12.1—13.9)
2. A Entronização do Rei Messias (14.1-21)
Considerações Preliminares
O primeiro versículo identifica o profeta Zacarias, filho de Baraquias e neto de Ido (1.1), como o autor do livro. Neemias informa ainda que Zacarias era cabeça da família sacerdotal de Ido (Ne 12.16). Por esta passagem, ficamos sabendo que ele era da tribo de Levi, e que passou a servir em Jerusalém, depois do exílio, tanto como sacerdote quanto profeta.
Zacarias era um contemporâneo mais jovem do profeta Ageu. Esdras 5.1 declara que ambos animaram os judeus, em Judá e Jerusalém, a persistirem na reedificação do templo nos dias de Zorobabel (o governador) e de Josua (o sumo sacerdote). O contexto histórico para os capítulos 1—8, datados entre 520—518 a.C., é idêntico ao de Ageu. Como resultado do ministério profético de Zacarias e Ageu, o templo foi completado e dedicado em 516—515 a.C.
Em sua juventude, Zacarias havia trabalhado lado a lado com Ageu, mas ao escrever os capítulos 9—14 (que a maioria dos estudiosos data entre 480— 470 a.C.), já se achava idoso. A totalidade das profecias de Zacarias foi enunciada em Jerusalém diante dos 50.000 judeus que haviam voltado a Judá na primeira etapa da restauração. O Novo Testamento indica que Zacarias, filho de Baraquias, foi assassinado “entre o santuário e o altar” (i.e., no lugar da intercessão) por oficiais do templo (Mt 23.25). Algo semelhante ocorrera a outro homem de Deus que tinha o mesmo nome (2Cr 24.20,21).
Contribuições singulares
11.1. Livro de “Apocalipse” do Antigo Testamento
Do mesmo modo que o Novo Testamento termina com uma grande visão apocalíptica dos tempos do fim, o Antigo Testamento também termina com essa visão, no Livro de Zacarias. Ambos os livros resumem e esclarecem profecias já apresentadas em termos de realização. Em Zacarias, as duas vindas do Messias são encaixadas com o intuito de apresentar uma vasta pré-estréia do futuro de Israel. Em Apocalipse, os muitos detalhes da sua segunda vinda são correlacionados e postos em relevo para mostrar o auge do programa divino na terra (Zc 9.9-10; Ap 12.6; 13.5; 14.14 e ss.; 16.18 e ss.; 19.9 e ss.). O Livro de Zacarias, bem como o de Malaquias, acentua e quase esboça a obra vindoura do Messias para trazer salvação espiritual na sua primeira vinda, e livramento nacional de Israel na sua segunda vinda (12¬14).
11.2. Livro “muito misterioso”
Muitos intérpretes, tanto judeus como cristãos, consideram esse livro “muito obscuro e de difícil explicação” (Eli Cashdan, The Twelve Prophets, p. 267). Para alguns, à exceção do fato de que “Jeová deseja ter o templo reconstruído (…), tudo o mais é obscuro” (Steven Harris, Understanding the Bibte, p. 123). No entanto, a profecia não foi escrita para mistificar, e sim para esclarecer as verdades referentes ao futuro de Israel. Quando as verdades centrais das visões parabólicas são observadas, e todas as visões são relacionadas a profecias anteriores, o motivo messiânico torna-se central durante as lutas e a marcha dos acontecimentos de Israel. Essa profecia forneceu alguns esclarecimentos muito importantes para Israel sobre sua redenção e o futuro nacional, quando o povo entrou em uma outra fase dos tempos dos gentios, com os seus anseios ainda não cumpridos a respeito da vinda do Messias (8.7-8; 9.9-10; 11.9, 13; 12.10).
11.3. Zacarias em relação a Daniel
Embora as profecias de Daniel e Zacarias estejam ambas cheias de conteúdo profético, suas ênfases são diferentes:
(a) Daniel associou visões proféticas e predições com conteúdo histórico. Zacarias apresentou as visões e predições num contexto exortativo (Dn 2; Zc 2).
(b) Daniel enfatizou o futuro profético dos Tempos dos Gentios quando estes se relacionavam com Israel. Zacarias tratou quase exclusivamente do futuro de Israel, apenas observando algumas relações gentias (Dn 2,7; Zc 12.3).
(c) Daniel focalizou os reis gentios e a vinda do Anticristo, mencionando o Messias somente uma vez, quase incidentalmente (Dn 9.26). Zacarias assinala com freqüência a vinda do Messias, mencionando o aparecimento do Anticristo apenas incidentalmente (11.16).
(d) Daniel foi um estadista da linhagem real de Judá e desvendou a ascensão dos reinados gentios até o estabelecimento do reino do Messias na terra (Dn 2.44). Zacarias foi um sacerdote e, de maneira característica, insistiu na reconstrução do templo, na purificação da nação e na restauração da justiça e santidade da terra (1.4,16; 3.4; 12.10).
11.4. O grande dia da batalha do Senhor (14.3)
Zacarias concluiu essa profecia com uma descrição da culminante batalha da terra, quando o próprio Senhor se envolverá na peleja. Esse “homem de guerra”, característica do Senhor, foi aludido em Êxodo 15.3, dramatizado em Naum 1.2, Habacuque 2.8-15 e Sofonias 3.8, e é apresentado em toda a sua pujança nessa visão conclusiva. Quando o Senhor sair para a peleja, confrontar-se-á com todas as nações reunidas contra Jerusalém (14.2; Ap
16.14; 19.19). Suas armas não são reveladas, mas fica-se conhecendo o resultado da batalha: a seus inimigos sucederá que “a sua carne será consumida, estando eles de pé, e lhes apodrecerão os olhos nas suas órbitas, e lhes apodrecerá a língua na sua boca” (14.12), uma forte sugestão de fissão nuclear. Terremotos criarão mudanças topográficas na terra, preparando-a para a era messiânica, na qual “o Senhor será rei sobre toda a terra” (14.5-10).
11.5. O verdadeiro valor do jejum (7-8)
Estes dois capítulos de Zacarias dão dois esclarecimentos referentes aos jejuns de Israel. Embora os judeus não tivessem no seu calendário dias de jejum ordenados por Deus, a nação tinha imposto a si própria dias de jejum em memória de diversas calamidades envolvidas na destruição de Jerusalém em 586 a.C. Eram os seguintes: (7.5; 8.19)
(a) Décimo mês (10 de janeiro) -Dia em que principiou o cerco de Jerusalém, em 588 (Jr 52.4).
(b) Quarto mês (9 de julho) -Os babilônios romperam o muro de Jeru-salém, em 586 (Jr 52.6).
(c) Quinto mês (10 de agosto) -Jerusalém foi destruída e queimada, em 586 (Jr 52.12).
(d) Sétimo mês (1 de outubro) -Gedalias, o novo governador, foi também assassinado em 586 (Jr 41.1).
A questão debatida em Zacarias 7-8 era se aqueles jejuns deviam ou não continuar, pois o povo já tinha retornado para reconstruir o templo. A resposta do Senhor trouxe dois esclarecimentos com referência ao jejum (Is 58.4-8):
(a) Essa prática foi designada para a glória de Deus, e não para o mérito do homem. Com facilidade, a renúncia torna-se comiseração própria e um inútil ritual de egolatria (7.5-6).
(b) O jejum não tem valor, a menos que seja acompanhado de atos de justiça, bondade e compaixão para com o próximo (7.9-10). A ausência de tais atos em Israel trouxe o julgamento divino de destruição e desolação (7.11-14).
11.6. Cristologia em Zacarias e o Novo Testamento
Este livro é o mais messiânico dos Profetas Menores, e está no mesmo nível de Salmos e Isaías quanto ao conteúdo messiânico. O Messias está ou no centro ou na periferia de cada visão. A falha ou a recusa dos comentaristas judeus de aceitar esse messianismo cumprido na primeira e segunda vinda de Jesus (Mt 21.5) contribui para a confusão no entendimento do livro (Rashi em H. H. Ben-Sasson, History of The Jewish People, p. 461). Por exemplo, ao explicar “olharão para mim, a quem traspassaram” (12.10), o Talmude identifica essa expressão como uma referência ao “Messias, o filho de José, que cairá na batalha” (Eli Cashdan, The Twelve Prophets, p. 322). Eles o vêem como “alguém dado por Deus à comunidade judaica restaurada, (…) mas rejeitado por ela e posto à morte”. Para eles, esse “mártir” é desconhecido, e não certamente Jesus.
Há uma aplicação profunda de Zacarias no Novo Testamento. A harmonização da vida pessoal de Zacarias, entre os aspectos sacerdotal e profético pode ter contribuído para o ensino do Novo Testamento de que Cristo é tanto sacerdote quanto profeta. Além disso, Zacarias profetizou a respeito da morte expiatória de Cristo pelas mãos dos judeus, que, no fim dos tempos, levá-los-á a prantearem-no, arrependerem-se e serem salvos (12.10—13.9; Rm 11.25-27). Mas a contribuição mais importante de Zacarias diz respeito a suas numerosas profecias concernentes a Cristo. Os escritores do Novo Testamento citam-nas, declarando que foram cumpridas em Jesus Cristo. Entre elas estão:
(a) Ele virá de modo humilde e modesto (9.9; 13.7; Mt 21.5; 26.31, 56).
(b) Ele restaurará Israel pelo sangue do seu concerto (9.11; Mc 14.24).
(c) Será Pastor das ovelhas de Deus que ficaram dispersas e desgarradas (10.2; Mt 9.36).
(d) Será traído e rejeitado (11.12,13; Mt 26.15; 27.9,10).
(e) Será traspassado e abatido (12.10; 13.7; Mt 24.30; 26.31, 56).
(f) Voltará em glória para livrar Israel de seus inimigos (14.1-6; Mt 25.31; Ap 19.15).
(g) Reinará como Rei em paz e retidão (9.9,10; 14.9,16; Rm 14.17; Ap 11.15).
(h) Estabelecerá seu reino glorioso para sempre sobre todas as nações (14.6-19; Ap 11.15; 21.24-26; 22.1-5).

O LIVRO DE MALAQUIAS
Esboço do Livro
Introdução (1.1)
I. A Mensagem do Senhor e as Perguntas Israel(1.2—3.18)
A. Primeira Mensagem: Deus Amou Israel (1.2-5) Pergunta de Israel: “Em que nos amaste?” (1.2)
B. Segunda Mensagem: Israel Tem Desonrado ao Senhor (1.6—2.9) Perguntas de Israel: “Em que desprezamos nós o teu nome?” (1.6); “Em que te havemos profanado?” (1.7)
C. Terceira Mensagem: Deus Não Aceita as Oferendas de Israel (2.10-16) Pergunta de Israel: “Por quê?” (2.14)
D. Quarta Mensagem: O Senhor Virá de Repente (2.17—3.6) Perguntas de Israel: “Em que o enfadamos?” “Onde está o Deus do juízo?” (2.17).
E. Quinta Mensagem: Voltai para o Senhor (3.7-12) Perguntas de Israel: “Em que havemos de tornar?” (3.7); “em que te roubamos?” (3.8)
F. Sexta Mensagem: Declarações Injustificáveis de Israel contra Deus (3.13-18) Perguntas de Israel: “Que temos falado contra ti?” (3.13); “Que nos aproveitou termos cuidado em guardar os seus preceitos?”
(3.14)
II. O Dia do Senhor (4.1-6)
A. Será um Dia de Juízo para o Arrogante e o Malfeitor (4.1)
B. Será um Dia de Triunfo para os Justos (2,3)
C. Será Precedido por uma Restauração Sobrenatural dos Relacionamentos entre Pais e Filhos e entre o Povo de Deus (4.4-6)
12.1. Data
Não é possível fixar a data da escrita do livro de Malaquias com qualquer exatidão. Sabemos por suas referências ao templo e aos sacerdotes, que ele viveu após o retorno do exílio babilônico e após a reconstrução do templo (516 a.C.). A referência em 1.3, a um assalto contra Edom, não nos ajuda a fixar sua data, visto que tais ataques ocorreram em grande número no quinto e quarto século a.C. Nem a palavra “príncipe”, em 1.8, necessariamente se refere a algum governante persa. Entretanto, o estado de coisas durante o ministério do profeta é semelhante ao que é pressuposto pelas reformas de
Esdras e Neemias, e muitos eruditos são da opinião que o livro foi escrito pouco antes da chegada de Esdras. Essa data (cerca 460 a.C.) é mui geralmente aceita.
12.2. Pano de fundo
Os judeus tinham retornado do exílio impulsionados por altas esperanças. Inspirados por Ageu e Zacarias, haviam reconstruído o templo. Esse edifício não possuía a glória do templo original, que havia sido destruído pelos babilônios, mas servia para seu propósito. Mas, com a passagem dos anos, os judeus foram ficando desiludidos. A prosperidade prometida não retornava. A vida era difícil. Estavam cercados por inimigos, como os samaritanos, os quais procuravam impedi-los em cada oportunidade. Sofriam por causa da seca e das más colheitas e da fome.
Começaram a duvidar do amor de Deus. Punham em dúvida a justiça de Seu governo moral. Diziam que o praticante do mal era bom aos olhos do Senhor. Argumentavam que não havia proveito na obediência aos Seus mandamentos e em andar penitentemente perante Ele, pois eram os ímpios, que dependiam de si mesmos os que prosperavam.
12.3. A mensagem profética
O profeta, então, começou a responder-lhes, mostrando-lhes que tal ceticismo se baseava na hipocrisia. Se lhes cabia a adversidade, esta havia caído sobre eles, não a despeito de sua piedade, mas antes, por causa de sua pecaminosidade. Por exemplo, havia a adoração corrompida em seus deveres no templo. Mostravam-se maus líderes de um povo que trazia ofertas inaceitáveis, mesmo depois de haverem prometido melhores ofertas. Os próprios gentios ofereciam sacrifícios mais dignos. O povo também vivia transgredindo, pois os homens se divorciavam das mulheres com quem se tinham casado na juventude e contraíam casamento com mulheres estrangeiras. Prevaleciam pecados de todas as espécies: feitiçaria, adultério, desonestidade, opressão aos fracos e impiedade generalizada. Como poderiam esperar a prosperidade quando a nação estava apodrecida com tais práticas?
Malaquias, em verdadeira nota profética, condenou os pecados e convocou o povo para que se arrependesse. Caso purificassem sua adoração, obedecessem à lei e pagassem seus dízimos na íntegra, então o resultado seria as bênçãos de Deus. Ao fazer soar esse apelo, o profeta revelou que possuía uma alta concepção sobre Deus. Deus era o majestoso Senhor dos Exércitos; Seus decretos e juízos eram irresistíveis; Seu amor era santo e imutável.
Malaquias percebia a salvação final para seu povo, não no arrependimento deles, mas na ação do Senhor. Raiaria o grande dia do Senhor. Esse dia purificaria e vindicaria os piedosos o destruiria os ímpios. Esse dia seria preparado com a vinda do profeta Elias.
12.4. O homem
Tudo quanto sabemos sobre o profeta propriamente dito, temos de inferir de suas declarações. Ele era um profeta autêntico. Falava com plena autoridade. Podia realmente dizer: “Assim diz o Senhor dos Exércitos”. Tinha um amor intenso por Israel e pelos serviços efetuados no templo e sua concepção sobre a tradição e os deveres dos sacerdotes era bem alta. Tem sido dito freqüentemente que enquanto outros profetas frisaram a moralidade e a religião no íntimo, Malaquias punha ênfase sobre a adoravam e o ritual. Mas, apesar de que isso seja verdade quanto aos aspectos gerais, temos de notar que ele não se esquecia totalmente das obrigações morais de Israel, e que, para ele, o ritual não era uma finalidade em si mesmo, mas apenas a expressão da fé do povo no Senhor.
Seu estilo é simples, direto e caracterizado pela freqüente ocorrência das palavras “mas vós dizeis”. Talvez isso signifique mais que um método retórico do escritor; pode ter tido sua origem nos clamores de protesto e dúvida dos perguntadores, quando ele pregou sua primeira mensagem nas ruas.
12.5. Citações em o Novo Testamento
Somente três passagens deste livro são referidas ou citadas no Novo Testamento, a saber: 1.2 e segs.; 3.1; e 4.5 e segs. A primeira delas: “Amei a Jacó. E aborreci a Esaú”, contém uma idéia que se tem mostrado um tanto ofensiva para o gosto moderno.
12.6. O fim da profecia
Com o livro de Malaquias foi arriada a cortina sobre a cena profética, até a vinda do Batista. As palavras vívidas e poderosas dos profetas não mais foram ouvidas. Os escribas e os sacerdotes se tornaram os principais personagens religiosos. A era criativa havia cedido lugar à era do aprendizado. Os judeus contavam, agora, com grande tesouro literário e seus exegetas, aqueles que expunham essa literatura, tornaram-se o novo canal para a voz de Deus. A respeito dessa situação que se aproximava em que a religião era principalmente legalística, temos um claro sinal no livro de Malaquias.
12.7. Contribuições singulares
12.7.1. Grandeza de Deus
Nenhum outro profeta enfatizou tanto a grandeza de Deus como o fez Malaquias nesse livro profético inserido no final do Antigo Testamento. Três vezes em 1.11-14, o Senhor chama a atenção para a sua própria “grandeza”, e dez vezes em todo o livro ele chama a atenção para a honra devida ao seu nome (1.6,11,14; 2.2; 5; 3.16; 4.2). Quando o pequeno e fragmentado restante de Israel estava prestes a entrar nos quatrocentos anos de silêncio profético, com os conquistadores e a cultura gentia rodopiando ao seu redor, precisava lembrar-se da grandeza do Deus que os chamara. Embora parecesse que os seus dias de grandeza fossem coisas do passado, a reivindicação do profeta ainda era para a grandeza de Deus, que os tinha chamado para fazer uma aliança com ele.
12.7.2. Muitas divinas citações de Malaquias
Essa profecia consiste, quase exclusivamente, em citações do Senhor. Do mesmo modo que Ageu em sua breve mensagem, Malaquias usou conti¬nuamente a frase: “Assim diz o Senhor dos Exércitos” ou seu equivalente. Não é de admirar que ele tenha pronunciado seu próprio nome apenas uma vez! Ele era simplesmente o porta-voz ou mensageiro do Senhor. Aquela geração, mais do que qualquer outra, precisava de uma palavra forte e autoritária do Senhor, pois havia muitas irregularidades precisando de correção. Ao citar o Senhor, o profeta identificou-o como o “Senhor dos Exércitos” (vinte e quatro vezes). Esse nome-título enfatizava o seu poder como o Deus dos exércitos, uma designação apropriada para esse livro de julgamento e promessa, diante de um Israel virtualmente sem poder próprio.
12.7.3. Método de perguntas e respostas de Malaquias (1.2 etc.)
O estilo dialético de Malaquias é um tanto singular entre os profetas, pois a maioria preferiu um estilo de conferência ou de narrativa. Malaquias registra nove tipos de diálogo do Senhor com Israel. As perguntas da nação têm sempre um tom de hostilidade ou rebeldia (1.2,6,7; 2.10,14,17; 3.7,8,13). Nessa forma provocante (chamada mais tarde de método “rabínico” ou “socrático”), o profeta apresentou as mais importantes queixas do Senhor contra os judeus e suas reações altivas. O estilo provou ser eficaz por chamar a atenção e chegar rapidamente ao assunto principal. Jesus também recorreu a um tipo semelhante de comunicação ao enfrentar os líderes hostis da época (Mt 21.25, 31, 40; 22.42).
12.7.4. A religião corrompida de Israel
Conforme indicação de Malaquias, havia fortes sintomas de degeneração na fé de Israel. Sua visão de Deus era quase deísta: Questionavam o seu amor (1.2), sua honra e grandeza (1.14; 2.2), sua justiça (2.17) e seu caráter (3.13¬15). Essa visão deficiente a respeito de Deus produziu uma atitude arrogante e fez com que as funções do templo fossem realizadas com enfado, o que insultava o Senhor ao invés de adorá-lo (1.7-10; 3.14). O dízimo não era dado de todo o coração, e as ofertas eram compostas de animais doentes e sem valor. Isto ofenderia até o mais simples governador que recebesse tal presente (1.8). Em reação a isto, o Senhor disse que atiraria lixo ao rosto dos sacerdotes (2.3) e amaldiçoaria as sementes plantadas (3.11). O resultado moral dessa religião desprezível foi o povo voltar-se para a feitiçaria, adultério, perjúrio, fraude e opressão do pobre (3.5). A discórdia familiar era freqüente, levando-os a se divorciarem das esposas judias para se casarem com mulheres pagãs (2.10 e ss.; 4.6). As condições eram tão más que se fazia necessária a atuação de um Elias para restaurar a paz familiar e evitar outra destruição do Senhor (4.5).
12.7.5. Israel peca roubando a Deus (3.8-10)
Um dos pecados mais persistentes de Israel foi o de roubar os dízimos e ofertas pertencentes ao Senhor. O problema apareceu pela primeira vez com Acã, ao entrarem na Terra Prometida (Js 6.17-19; 7.11), e foi um dos pecados pelos quais foram exilados para a Babilônia em 586 (2Cr 36.21). O primeiro erro que muitos reis cometiam ao ser atacados era entregar os tesouros do templo para tentar apaziguar o inimigo, o que invariavelmente provocava novos ataques (2Rs 18.14-16). Diante da sonegação dos dízimos, o Senhor lembra-Ihes que estavam, na realidade, roubando a si próprios, pois o resultado de tal atitude era o fracasso das colheitas. Corriam também o risco de ficarem com a mente cauterizada de tanto repetirem esse pecado (2.17; 3.15).
12.7.6. Promessa da volta de Elias (4.5-6)
A última promessa do Antigo Testamento é quanto à volta do profeta Elias antes do “grande e terrível dia do Senhor”. Elias e Enoque foram os dois únicos homens que não passaram pela morte: o Senhor os trasladou para o céu (Gn 5.24; 2Rs 2.11; Hb 11.5). Embora João Batista tivesse sido semelhante a Elias na sua obra de preparar Israel para o Messias, não foi realmente Elias (Mt 11.14; 17.11-12; Jo 1.21). João Batista foi o precursor profetizado por Isaías 40.3 e Mateus 3.3, e o mensageiro de Malaquias 3.1.
Na tradição hebraica, Elias é o maior e mais fabuloso caráter já produzido por Israel (…) É ele quem abre as portas secretas pelas quais os mártires fogem, quem providencia dotes para as infelizes filhas dos pobres (…) Há para ele uma cadeira em todas as circuncisões, e um cálice de vinho em todas as mesas de Páscoa. Ele está nas encruzilhadas do paraíso a fim de saudar todas as pessoas virtuosas. Será o precursor do Messias, anunciando-o no novo mundo onde já não haverá sofrimento para Israel e todos os povos. (Abram Leon Sachar, A History the Jews, p. 50 e ss.).
Em 1Reis 17, Elias parece ter surgido do nada e desaparece de maneira semelhante em 2Reis 2. Entretanto, sua austera figura ainda subsiste na memória reverente dos judeus enquanto esperam encontrar-se com ele, conforme anunciado por Malaquias.
12.7.7. Últimas palavras de Malaquias (4.4-6)
Esses últimos três versículos são considerados pelos estudiosos um apêndice aos “Profetas” da Bíblia. Abrangem a Lei e os Profetas em Moisés e Elias. No entanto, sua perspectiva não é retrospectiva, mas progressiva, olhando com antecipação o julgamento de Elias e a alegria da era messiânica. Nas Bíblias hebraicas, o versículo 5 é repetido depois do versículo 6 para que o livro não termine com uma palavra de condenação (ocorre a mesma coisa nos livros de Isaías, Lamentações e Eclesiastes). É interessante observar que nas Bíblias hebraicas não existe o capítulo quatro em Malaquias. O capítulo três continua até completar vinte e quatro versículos. A nota dominante dos últimos seis versículos é antecipatória, apontando para os 400 anos de silêncio profético antes que outro “anjo” apareça anunciando a vinda do precursor e do mui esperado Messias (Lc 1.11,26 e ss.). A última palavra de Malaquias não foi, na verdade, a última.
12.7.8. Cristologia em Malaquias (1.14; 3.1; 4.2)
Apesar de o Senhor ter assegurado a eles novamente, na introdução do livro, a continuidade do seu amor imutável, a ênfase básica do livro é julgamento. De acordo com esse motivo, podem ser discernidos diversos títulos do Messias:
(a) Em 1.14, o Senhor declara ser um “grande Rei”, muito maior do que o “governador”, a quem não ofenderiam com uma oferta maculada (1.8). Nessa condição, ele não deixará de julgar o “impostor”, que jura honestidade mas é avarento. Zacarias 14.9 viu a majestade do Rei numa luz messiânica, quando o seu nome será reverenciado entre todas as nações.
(b) Em 3.1, o Senhor declara ser o “Anjo da aliança”, a quem buscavam.
Mas, ao contrário da orgulhosa maneira de pensar dos israelitas, sua vinda será com julgamento para os perversos de Israel, a começar pelos filhos de Levi no templo. Sua primeira vinda ao templo em João 2.14-16 e Mateus 21.12 foi uma antecipação daquela futura vinda para purificar o povo e a terra.
(c) Aos que temem o seu nome, ele surgirá como o “Sol da Justiça”, e trará cura e grande alegria (4.2; Is 60.19). O mesmo “Sol” que queima os perversos (4.1) curará os que temem o seu nome. Com essa promessa de sol celestial para purificar e curar a nação ao destruir o perverso num dia futuro desconhecido, a voz profética silenciou. Os sombrios dias do período intertestamentário testaram sua fé na palavra profética dada pela lei e os profetas.

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